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A Compra da Warner Bros Pela Netflix É um Movimento Inteligente?

Nesta quarta-feira (10), pela manhã, os ativos da Netflix estavam caindo 1,48%, a US$ 95,28 (R$ 520,95)

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A Netflix (NASDAQ:NFLX) concordou em adquirir as operações de estúdio e o serviço de streaming HBO Max da Warner Bros. Discovery por US$ 72 bilhões (R$ 393,12 bilhões) em ações.

O movimento avalia a empresa em um valor total de US$ 82,7 bilhões (R$ 451,54 bilhões), incluindo dívidas. A lógica estratégica é clara: controlar conteúdos e franquias importantes.

O acordo permitirá que a Netflix assegure direitos de longo prazo sobre séries e filmes populares, reduzindo sua dependência de estúdios externos. A vasta biblioteca da HBO — de Game of Thrones a Succession — junto ao catálogo cinematográfico da Warner Bros., que inclui Harry Potter e Batman, pode fortalecer de maneira significativa o fluxo de conteúdo da Netflix e sua posição global.

Além disso, a aquisição ampliará a base de assinantes da Netflix ao incorporar milhões de usuários do HBO Max ao seu ecossistema. A administração prevê economias anuais entre US$ 2 e 3 bilhões (R$ 10,92 bilhões e R$ 16,38 bilhões) até o terceiro ano após a conclusão do acordo, resultado da sobreposição de atividades de marketing, tecnologia e distribuição. No entanto, apesar de a justificativa industrial parecer sólida, o ambiente regulatório e político está longe de ser favorável.

Ações individuais podem enfrentar volatilidade, e o mercado também não é imune — como ocorreu em 2008 e 2020. A oscilação faz parte da realidade. Nesta quarta-feira (10), pela manhã, os ativos da Netflix estavam caindo 1,48%, a US$ 95,28 (R$ 520,95).

Obstáculos regulatórios e tensões políticas

O acordo enfrenta desafios. Em conjunto, os serviços de streaming da Netflix e da Warner representariam 30% do mercado norte-americano de streaming por assinatura.

Esse patamar de 30% é o ponto em que as diretrizes do Departamento de Justiça assumem que fusões entre concorrentes diretos são anticoncorrenciais. Embora essas normas tenham sido criadas pelo governo Biden anterior, elas continuam em vigor. Isso coloca a operação na zona de alto risco.

Assim, o Departamento de Justiça e a Comissão Federal de Comércio provavelmente iniciarão uma análise rigorosa, focando em como a consolidação pode prejudicar a concorrência, reduzir opções para o consumidor e elevar preços. Como a Netflix já é líder global em streaming, reguladores podem argumentar que a fusão ultrapassa a linha entre domínio de mercado e posição monopolística.

O acordo também pode enfrentar obstáculos em outras regiões, como a União Europeia. Dado o alcance global das duas empresas, qualquer decisão desfavorável em uma jurisdição relevante pode comprometer o cronograma ou a viabilidade financeira da transação.

A esperada influência do governo Trump traz mais uma dúvida sobre o processo de revisão. As ligações do presidente Trump com o CEO da Paramount, David Ellison — e com seu pai, Larry Ellison, conhecido por apoiar Trump — introduzem uma dimensão política.

A Paramount, que começou a disputa com propostas não solicitadas pela Warner Bros. Discovery, já expressou preocupações sobre a equidade do processo de venda.

Essa relação pode resultar em pressão para que reguladores favoreçam um acordo com a Paramount, especialmente se a equipe de Trump alegar que a posição dominante da Netflix traz riscos maiores à concorrência.

Sobrecarga de dívidas

De acordo com os termos do acordo, cada acionista da Warner Bros. Discovery receberá US$ 23,25 (R$ 126,94) em dinheiro e em torno de US$ 4,50 (R$ 24,57) em ações da Netflix para cada papel — avaliando a Warner em US$ 27,75 (R$ 151,51) por ação. Isso representa mais do que o dobro do valor das ações antes da negociação.

Para financiar essa oferta majoritariamente em dinheiro, a Netflix obteve US$ 59 bilhões (R$ 322,14 bilhões) em crédito junto a bancos de Wall Street — um dos maiores pacotes de financiamento já estruturados. Somado a isso, o acordo envolve a incorporação de US$ 10,7 bilhões (R$ 58,42 bilhões) em dívida líquida da Warner Bros. e à dívida bruta atual da Netflix, de US$ 14,5 bilhões (R$ 79,17 bilhões).

Como resultado, o endividamento total da Netflix ultrapassará US$ 80 bilhões (R$ 436,80 bilhões). A dimensão desse endividamento torna esta uma das operações mais alavancadas da história do setor de entretenimento.

A empresa também concordou em pagar à Warner uma multa rescisória de US$ 5,8 bilhões (R$ 31,67 bilhões), enquanto a Warner teria que pagar US$ 2,8 bilhões (R$ 15,29 bilhões) caso desistisse. Mesmo com o enorme volume de dívidas, a Netflix afirma que pretende continuar recomprando ações, indicando que ainda necessita manter liquidez e cuidado financeiro.

Agências de classificação de risco devem analisar o balanço da Netflix após a transação. Com a nota de grau de investimento da empresa em jogo, um rebaixamento pela Moody’s ou S&P pode elevar custos de empréstimos e dificultar planos futuros de alocação de capital.

Esse risco exige que a Netflix convença simultaneamente reguladores e credores — um ato de equilíbrio incomum para uma empresa assumindo um nível de alavancagem sem precedentes.

Histórico limitado

Transações de fusão e aquisição no setor de mídia frequentemente apresentam retornos insatisfatórios devido a integrações complexas, níveis elevados de endividamento e possíveis choques culturais.

A compra da Time Warner pela AT&T é um exemplo clássico. Apresentada como uma fusão entre conteúdo e distribuição, a operação acabou sofrendo com dificuldades de integração, dívidas enormes e mudanças rápidas na indústria, resultando em queda no valor das ações nos anos que se seguiram.

Já a aquisição da Fox pela Disney seguiu trajetória semelhante. Embora o acordo tenha ampliado a biblioteca de conteúdo da Disney e contribuído para o crescimento do Disney+, o desempenho das ações ficou muito abaixo do esperado nos anos seguintes.

A lição para investidores da Netflix pode ser que escala e domínio de conteúdo não garantem, por si só, melhor performance no mercado acionário.

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