A fintech PicPay, controlada pela família Batista, fundadora do conglomerado JBS, será a primeira empresa brasileira a abrir capital desde 2021. A companhia anunciou que realizará sua oferta pública inicial (Initial Public Offering – IPO) nos Estados Unidos no dia 29 de janeiro, com listagem na Nasdaq sob o código “PICS”. A operação marca a retomada das ofertas de ações de empresas brasileiras após um período prolongado de fechamento do mercado, no Brasil e no exterior.
O PicPay pretende levantar até US$ 434,3 milhões com a venda de cerca de 22,9 milhões de ações, a um preço estimado entre US$ 16 e US$ 19 por papel. A oferta é coordenada por Citigroup, BofA Securities e RBC Capital Markets.
A abertura de capital ocorre após uma tentativa frustrada em 2021, quando as condições de mercado não permitiram o lançamento. Agora, a fintech retorna com uma tese amadurecida e maior familiaridade com investidores internacionais. O movimento recoloca em pauta as vantagens e os desafios enfrentados por empresas brasileiras que optam por acessar bolsas como a Nyse e a Nasdaq.
Carimbando passaporte
Nos últimos anos, companhias brasileiras de diferentes setores passaram a avaliar com mais cuidado a possibilidade de listar ações fora do país, seja por meio de dupla listagem, seja por um IPO exclusivamente no exterior. O contexto doméstico ajuda a explicar esse movimento. Desde 2022, o mercado acionário brasileiro convive com liquidez reduzida, juros elevados e forte concorrência da renda fixa.
Para Vinícius Carmona, diretor de relações com investidores do BR Partners, a decisão de buscar investidores fora do país está diretamente ligada às condições adversas do mercado local. O banco de investimentos abriu capital na B3 em 2021 e lançou um programa de American Depositary Receipts (ADRs) em setembro do ano passado. Segundo ele, a Selic elevada por um período prolongado abriu “rachaduras profundas” no mercado de ações, deslocando recursos para a renda fixa e deixando empresas listadas negociadas a preços considerados baixos.
Nesse ambiente, a listagem no exterior surge como alternativa para ampliar a base de investidores e melhorar a liquidez dos papéis. No caso do BR Partners, a estratégia foi a dupla listagem. “A dupla listagem cria arbitragem. Tem trader operando o spread diário, o que ajuda a liquidez”, afirma Carmona.
Mais investidores
A ampliação do espectro de investidores é um dos principais atrativos do mercado americano. As bolsas dos Estados Unidos concentram uma base ampla de investidores institucionais e gestores com foco em teses de longo prazo. Para empresas classificadas como small caps ou em crescimento, esse público tende a ser mais receptivo do que o investidor brasileiro em momentos de juros elevados.
Do ponto de vista jurídico e financeiro, a listagem também pode resultar em melhor acesso a capital. Gustavo Secaf Rebello, sócio da área de Mercado de Capitais do escritório de advocacia Machado Meyer, afirma que a principal vantagem está em estruturar uma companhia aberta com presença global. “Assumir os Estados Unidos como principal praça tende a ampliar o acesso a financiamento e a reduzir o custo de capital”, diz.
Daniel Toledo, especialista em negócios internacionais, reforça esse diagnóstico. “O mercado americano é o mais profundo, o mais líquido e o mais sofisticado do mundo”, afirma. O capital é mais abundante e mais eficiente, ainda que não necessariamente mais barato em termos nominais. “O investidor aceita retornos menores em troca de governança robusta, liquidez diária e previsibilidade regulatória.”
No Brasil, segundo Toledo, o custo de capital é pressionado por juros elevados, volatilidade cambial e insegurança regulatória. Isso eleva o prêmio exigido pelo investidor. Nos Estados Unidos, mesmo em ciclos de aperto monetário, a precificação tende a ser mais racional, o que pode resultar em melhor valuation e menor dependência do capital doméstico.
Além da questão financeira, a listagem no exterior funciona como um selo de governança. Carmona destaca que, ao se submeter à supervisão da Securities and Exchange Commission (SEC), a empresa eleva seu nível de governança corporativa. “Passar a ser vigiado pela SEC nos coloca no patamar máximo de governança”, afirma.
Exigências elevadas
Esse ganho institucional, no entanto, não vem sem custo. Manter uma empresa listada nos Estados Unidos exige estrutura, investimento e preparo. Segundo Carmona, os custos são mais elevados, sobretudo por serem denominados em dólar. O formulário de referência exigido pela SEC, o 20-F, precisa passar por advogados e auditores, o que encarece o processo.
Apesar disso, ele afirma que, no caso do BR Partners, o custo compensa. “Para o nosso modelo de negócio, o retorno justifica. O mercado de capitais é um canal permanente e precisa estar sempre aberto”, diz.
Se as vantagens são claras, os desafios também são relevantes. Os especialistas concordam que abrir capital nos Estados Unidos é uma decisão estratégica de longo prazo, que exige maturidade operacional e institucional.
O primeiro desafio está nos procedimentos legais. O arcabouço jurídico americano é mais extenso, rigoroso e custoso do que o brasileiro. A exigência de divulgação de informações é contínua. Fatos relevantes, resultados e riscos materiais precisam ser comunicados de forma precisa e tempestiva.
Toledo ressalta que os procedimentos legais vão além do IPO. O dia a dia envolve controles internos robustos, auditorias constantes, governança formal e responsabilidade pessoal de administradores. “É um ambiente altamente litigioso. A empresa opera como se toda decisão pudesse ser questionada”, afirma.
O segundo desafio é a relação com as autoridades. O trânsito com reguladores como a SEC é técnico e formal. Segundo Toledo, a forma como a empresa responde a uma demanda regulatória passa a integrar sua reputação no mercado.
Rebello, do Machado Meyer, afirma que empresários brasileiros costumam subestimar esse ponto. “Não há espaço para informalidade. Tudo precisa estar documentado e alinhado com padrões objetivos”, diz.
Analistas e minoritários
O terceiro desafio envolve a relação com analistas. Nos Estados Unidos, a cobertura é altamente técnica. O analista exige previsibilidade, comparabilidade com pares globais e clareza sobre os drivers de resultado. “História bem contada não sustenta valuation sem execução”, afirma Toledo.
Erros de guidance ou inconsistências nos números levam rapidamente à perda de credibilidade e de cobertura. Além disso, regras como a Reg FD impõem limites rígidos à comunicação seletiva.
O quarto desafio diz respeito aos acionistas minoritários. Nos Estados Unidos, eles atuam como agentes ativos de fiscalização. Questionam decisões estratégicas, remuneração de executivos e transações com partes relacionadas. Quando identificam falhas, podem recorrer a ações judiciais. Class actions fazem parte do ecossistema.
Para Carmona, o maior risco está em movimentos precipitados. “Se o IPO queima e o papel perde liquidez, você fecha um canal importante de captação”, afirma. Por isso, segundo ele, o trabalho de relações com investidores é garantir que esse canal permaneça aberto.
A abertura de capital do PicPay ocorre nesse contexto. A fintech chega ao mercado americano após anos de preparação e maior presença junto a investidores internacionais. Seu desempenho após o IPO será acompanhado de perto por outras empresas brasileiras.
Sem risco para a B3
O movimento não deve esvaziar a B3, avaliam os especialistas. O mercado brasileiro segue relevante para empresas médias e setores domésticos. Para companhias com ambição global e necessidade recorrente de capital, porém, Wall Street tende a seguir como destino natural.
Para Toledo, o desafio do Brasil não é impedir a saída, mas criar condições para que ficar também seja uma escolha racional. Enquanto isso não ocorre, o capital continuará buscando previsibilidade, liquidez e confiança, mesmo que isso signifique atravessar fronteiras.