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Brasil Deve Ter o Melhor Carnaval da História e Movimentar Cerca de R$ 20 Bilhões 

Do norte ao sul do país, economia deve ser beneficiada pela injeção de dinheiro na maior festa popular do planeta

9 min

Apesar de o calendário estabelecer 1º de janeiro como marco oficial da virada de ano, culturalmente, no Brasil, a sensação de “início do ano” só ocorre após o Carnaval. A celebração é uma das maiores festas populares do mundo, capaz de reunir milhões de pessoas em sambódromos, blocos e aquecer o mercado hoteleiro em regiões favorecidas por aqueles que querem fugir da folia. Por trás do glitter, o Carnaval movimenta uma cadeia econômica robusta. 

Para 2026, as projeções indicam que a festa deve bater recordes. Segundo estimativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), a temporada deve ajudar o turismo nacional a faturar R$ 18,6 bilhões em fevereiro — alta de 10% em relação ao mesmo período do ano passado, quando a marca foi de R$ 16,9 bilhões.

Se confirmada a projeção, será o melhor desempenho do setor para o mês desde 2011 — quando faturou R$ 13,8 bilhões —, ano de início da série histórica da FecomercioSP, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Ministério do Turismo espera que o período festivo envolva 65 milhões de pessoas em todos os estados. Isso é um aumento de 22% em relação ao ano passado.

Somente as “capitais do Carnaval”, como Salvador, Olinda, Recife e Rio de Janeiro, devem reunir mais de 40 milhões de foliões. Entre 2024 e 2026, essas cidades lideraram o crescimento da preferência dos consumidores, apontou o estudo do IBEVAR (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo) em parceria com a FIA Business School.

Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, entre Rio de Janeiro e São Paulo, ambos apresentam crescimento relevante na preferência como destino. No entanto, o Rio demonstra maior intensidade turística e identidade carnavalesca, enquanto São Paulo opera com forte volume urbano e consumo interno.

Já em Salvador e Recife, a dinâmica se repete com um impacto ainda mais acentuado, já que o Carnaval é estrutural para a economia turística local.

Gráfico do impacto financeiro do carnaval
Gabrielli Motta / Forbes BrasilSomente as “capitais do Carnaval”, como Salvador, Olinda, Recife e Rio de Janeiro, devem reunir mais de 40 milhões de foliões

Economia carnavalesca

A principal razão para a alta nos números, de acordo com o presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Guilherme Dietze, é o momento favorável pelo qual o setor passa, com fortalecimento do poder de compra da população, renda mais elevada — sustentada pelo mercado de trabalho aquecido — e inflação em desaceleração. “Esses aspectos são essenciais na dinâmica de consumo do turismo nessa época”, afirma Dietze.

Segundo levantamento do IBEVAR, em parceria com a FIA Business School, o varejo brasileiro deve registrar crescimento líquido médio de 4,9% no volume de negócios em 2026 ante 2025. Em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Olinda, o setor de serviços responde por 60% e 75% da economia local.

De acordo com as estimativas, os segmentos impactados pelo Carnaval podem representar entre 15% e 25% do PIB urbano, a depender da cidade. Em uma aproximação, de acordo com a IBEVAR, o efeito adicional do evento poderia corresponder a:

  • Entre 0,3% e 0,6% do PIB anual no Rio de Janeiro e Salvador;
  • De 0,4% a 0,8% do PIB anual em capitais com maior dependência relativa do turismo carnavalesco, como Recife e Olinda.

As diferenças entre as cidades refletem a própria estrutura econômica local. “No Rio, a economia é mais diversificada, o que dilui proporcionalmente o efeito da festa, embora o impacto absoluto seja elevado”, explica o professor da FIA.

Em Salvador, o turismo tem peso estrutural maior, tornando o impacto mais acentuado. Recife apresenta efeito relevante, mas diluído por uma base metropolitana mais ampla. Já em Olinda, a forte concentração econômica no evento faz com que o impacto proporcional do Carnaval seja expressivo.

Entre os setores mais favorecidos estão transporte aéreo e rodoviário, hospedagem, locação de veículos e alimentação. Segundo o especialista da Fecomercio, a festa também costuma impulsionar os gastos das famílias com atrações de entretenimento.

Nos grandes centros urbanos, os chamados lançamentos e aquecimentos do Carnaval — com desfiles de blocos nas ruas e eventos especiais — já movimentam a economia antes mesmo da data principal. O fluxo também se estende para o fim de semana posterior, com deslocamentos que vão desde viagens mais longas, como para Salvador e Rio de Janeiro, a trajetos mais curtos, como os realizados da Região Metropolitana de São Paulo para eventos na capital.

Ressaca

Os dados mostram que esse movimento de consumo acelerado vem acompanhado de riscos. Em sete de cada dez indicadores analisados pelo IBEVAR, houve avanço da inadimplência após o Carnaval, com destaque para o uso do crédito rotativo do cartão.

O resultado sugere que parte relevante desse consumo é sustentada por financiamento de curto prazo — os juros altos pressionam o orçamento das famílias e dificultam a recomposição financeira após a temporada de despesas.

Em Salvador, a projeção é que o público ultrapasse os 11 milhões neste ano, com a chegada de 1,2 milhões de turistas entre 12 e 18 de fevereiro, de acordo com o Observatório do Turismo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. O volume representa aumento de 10,2% e deve elevar a ocupação hoteleira para acima de 90%.

Na Bahia, segundo a Fecomercio, a festa deve arrecadar R$ 12,4 bilhões em fevereiro. Já em Pernambuco, a estimativa mostra uma movimentação de R$ 10,79 bilhões no mês, considerando exclusivamente a circulação de mercadorias.

Recife estima receber mais de 3,6 milhões de pessoas ao longo dos dias de festa — que deve gerar um impacto financeiro de R$ 2,7 bilhões. Já em Olinda a expectativa é de superar os 4 milhões de turistas.

Em terras cariocas, o esperado é que 8 milhões de pessoas circulem pela cidade ao longo dos dias de folia — com projeção de injetar R$ 5,7 bilhões na economia do Rio, apontou pesquisa da Riotur.

Já em São Paulo, de acordo com a prefeitura, a expectativa é reunir 16,5 milhões de foliões, gerar R$ 3,4 bilhões na economia e criar 50 mil empregos. Maior do que no ano passado — quando 601 blocos desfilaram —, o Carnaval 2026 na maior cidade do país terá 627 blocos.

Segundo Felisoni da Fia, o maior impacto econômico do Carnaval concentra-se nos setores ligados ao consumo imediato e ao lazer, especialmente supermercados e hipermercados, bebidas, fantasias e roupas temáticas, higiene e beleza, além de hotelaria e bares e restaurantes.

“O efeito predominante é uma transferência de renda dos bens duráveis e semiduráveis, como moda social, calçados sociais e eletrodomésticos, para serviços e consumo corrente”, comenta o professor da FIA.

Folia mais cara

Mesmo sendo sinônimo de alegria — principalmente para a economia brasileira — , o Carnaval também representa gastos e, muitas vezes, o bolso pode sentir o peso. De acordo com pesquisa da FecomercioSP com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), há um aumento de preços acima da inflação geral — 4,3% — nos “itens da folia” e também na cesta de Carnaval, que apresentou elevação de 5,6% em 12 meses.

Em geral, os principais bens e serviços consumidos durante os dias de festa estão 8,6% mais caros. Neste ano, houve uma pressão inflacionária no setor de serviços, resultado de um mercado de trabalho aquecido e da renda e do consumo em alta.

Uma das maiores influências identificadas no levantamento vem da alimentação fora do domicílio e principalmente de itens como café, com 15,5%, lanches (11,4%), vinho (10,9%) e sorvete (10,2%), que apresentaram variações acima do IPCA geral. “A alta está relacionada ao encarecimento do serviço agregado ao consumo, e não à escassez do produto”, esclarece Pina da Fecomércio.

Outro segmento com aumento relevante nos preços é o grupo de turismo e diversão, com variação de 8,2% no acumulado de 12 meses. Serviços como clubes (10,1%), hospedagens ou casas noturnas (9,6%) e pacotes turísticos (7,1%) concentraram os maiores aumentos.

Impacto na arrecadação

A movimentação econômica mais intensa do período acaba refletindo nos cofres públicos, já que a arrecadação de impostos vindos de produtos tradicionais da época cresce por diferentes fatores.

Por exemplo, de acordo com o levantamento da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), durante o período festivo, o whisky, aparece com o maior índice de tributos, com 56,40%, seguido do chope e a máscara de lantejoulas, com taxas de 44,39% e 46,38%, respectivamente. Ainda no top 5 estão a fantasia de Carnaval (45,66%), bijuterias (42,43%) e o colar havaiano (38,97%).

De acordo com o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, do Instituto de Economia Gastão Vidigal (IEGV/ACSP), o cenário tributário para os itens de consumo durante a folia não apresentou muitas oscilações ante ao último ano.

“A carga tributária sobre os produtos do Carnaval continua muito elevada. Essa época é um momento importante de lazer para a sociedade, mas como não houve mudanças relevantes nas alíquotas, os preços seguem altos, impactando no orçamento das famílias”, afirma Ruiz de Gamboa.

O economista explica que a estratégia para o folião deve ser a economia criativa. “Para quem não deseja desembolsar 45,66% em impostos nas fantasias, reutilizá-las ou usar a imaginação para evitar novos gastos pode ser a melhor opção para aproveitar a festa”, conclui.

Para Gamboa, a elevada tributação dos produtos típicos do Carnaval deve-se ao sistema tributário brasileiro, que impõe altos impostos sobre itens de consumo em geral. “No caso das bebidas alcoólicas, a alta carga tributária pode ser justificada como uma forma de evitar o consumo excessivo por parte dos foliões. No entanto, não há justificativa aparente para a elevada tributação dos outros produtos”.

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