Já vou avisando que o título não contém erro de português.
O conceito Brazilience foi cunhado pela gringa mais sensacional com quem tive o privilégio de trabalhar. Nosso primeiro encontro aconteceu na cafeteria de Techwood, em Atlanta, Estados Unidos, nos fundos da famosa mansão do lendário Ted Turner.
Ela, Mitra Jerald, ex-VP de Estratégia Comercial Latam da WarnerMedia, chegou com um sorriso do tamanho do estado do Texas e uma franqueza tipicamente americana. Logo nos primeiros minutos, fez questão de deixar tudo muito claro:
“Sou pura gringa. Você nunca terá dúvidas sobre o que preciso nem sobre quando preciso.” O seu mantra “Facts X Fiction” ou “Realidade X Percepção” foi adicionado com sucesso ao meu vocabulário.

Gostei daquela honestidade sem rodeios. Era a maneira dela de me dizer que, apesar de sermos pares (ambas vice-presidentes para a América Latina), ela conhecia bem a fama dos brasileiros de sempre encontrar “um jeitinho para tudo”.
E talvez ela estivesse certa.
Mas, como acontece em toda parceria, ambas precisaram ceder às suas certezas. Relacionamentos funcionam assim. No nosso caso, nem tão corporativa, nem tão emocional. Percebemos que, quando uníamos nossas fortalezas, nos tornávamos imbatíveis.
Se eu fosse contar tudo o que vivemos juntas em cinco anos de trabalho, precisaríamos publicar uma enciclopédia em dez volumes. Mas o objetivo deste texto é outro.
A Mitra trabalhou com dezenas de brasileiros e foi observando nossa forma de enfrentar desafios e improvisar diante do impossível, sempre com otimismo, criatividade, proatividade e sem perder o bom humor, que ela criou a definição que guardo até hoje com muito orgulho.
Brazilience. Uma mistura de Brazilian com Resilience.
Em época de Copa do Mundo, em que mostramos ao mundo muito além do nosso futebol, achei significativo organizar os 18 mandamentos do Brazilience, segundo o nosso critério:
- Nenhuma conquista extraordinária acontece sem pessoas extraordinárias. O ser humano é feito de conexões, e são elas que nos levam adiante.
- Propósito é algo que construímos todos os dias por meio das nossas escolhas.
- Algumas perdas revelam forças que nem conhecíamos. Tudo o que acontece tem um propósito.
- Você será lembrado por como fez as pessoas se sentirem.
- A intuição é tão importante quanto os dados.
- O corpo sempre encontra uma forma de expressar aquilo que a mente insiste em ignorar.
- Aceite o que é. Deixe ir o que foi. Acredite no que será. Os melhores capítulos da vida costumam surgir justamente quando os planos falham.
- Não existe transformação sem desapego. Nada novo floresce onde tudo precisa permanecer igual. Observe a natureza.
- Gratidão é uma estratégia poderosa. Ser positivo não significa estar feliz o tempo todo. Significa viver um dia de cada vez.
- Sempre lembre de onde você veio. As cicatrizes contam mais sobre quem somos do que os nossos momentos de glória.
- A curiosidade continua sendo uma das competências mais valiosas do nosso tempo. Quem para de aprender começa a envelhecer por dentro.
- Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia.
- Todo mundo tem uma história de dor ou um trauma que desconhecemos, então seja gentil com o próximo.
- O futuro pertence aos inquietos. Aos que continuam fazendo perguntas quando todos acreditam já ter encontrado as respostas.
- A tecnologia expande as nossas possibilidades, mas continua sendo a humanidade que dá sentido à vida. Amém!
- Controlamos apenas a forma como reagimos.
- Recomeçar não é voltar ao início. É começar de novo carregando tudo aquilo que a vida já te ensinou.
- Um povo capaz de transformar dificuldades em esperança já venceu na vida.
Temos nossos problemas (e não são poucos), como qualquer povo, mas, como diriam as mães brasileiras, “em casa a gente conversa sobre isso”.
Desculpe o resto do mundo: We have Brazilience.
P.S.: Hoje, moro em Portugal e sinto que a nossa maior vantagem é o nosso talento quase mágico de nos reinventarmos quando tudo parece impossível. Somos emocionados por natureza e esse é um dos nossos superpoderes. O povo desse lado do oceano se assusta com isso, e eu adoro. Deus me livre não ser brasileira.
*Luciana Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.
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