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Páscoa Mais Cara: Produtos Tradicionais Sobem até 160% e Pressionam o Consumidor

Chocolate e bacalhau lideram as maiores altas acumuladas em cinco anos

6 min

A época mais doce do ano está chegando. A Páscoa, celebrada no próximo domingo (5), deve movimentar R$ 3,82 bilhões, com crescimento projetado de 4,5% em 2026. Apesar do avanço, o cenário é de pressão inflacionária, encarecendo os produtos e tornando a celebração mais salgada para o consumidor.

Segundo estudo feito pelo IBEVAR-FIA Business School, os itens tradicionais registram subidas nos preços que chegam a mais de 160% no período. “Há um descolamento significativo entre os valores dos insumos da cesta de Páscoa e a inflação oficial acumulada, IPCA de 39,3% entre 2021 e 2026”, aponta o levantamento.

Os protagonistas da data — os ovos de Páscoa — acumulam reajustes expressivos. A linha básica (150g a 200g) já supera os R$ 53, com alta de 140,1%. A linha especial (250g a 350g) chegou a R$ 145, avanço de 123,1%, enquanto os produtos premium (350g) atingem R$ 310, com aumento de 138,5%. Por isso, cresce a migração do consumidor para opções com melhor relação custo-benefício.

Em 2026, essa medida é liderada pela Cacau Show, seguida por Nestlé e Lacta, enquanto marcas de nicho premium perdem relevância relativa. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicap), o volume de ovos de Páscoa passou de 45 milhões no ano passado para 46 milhões em 2026.

Do cacau ao bacalhau

Mesmo com a queda recente das cotações internacionais do cacau, os preços do chocolate continuam subindo. “Isso acontece porque a indústria trabalha com defasagem no repasse de custos”, explica Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico.

A analista afirma que muitos produtos vendidos atualmente foram produzidos com insumos comprados em momentos de preços mais altos da commodity. Além disso, outros fatores continuam pressionando os valores. “Custos logísticos elevados, reajustes nas embalagens e toda a cadeia de produção impactam o preço final do chocolate, especialmente em um período de forte demanda”, diz.

Já o bacalhau, item tradicional da Semana Santa, lidera a escalada inflacionária. A versão básica já supera R$ 100 em 2026, com alta de 163,2%. O tipo intermediário chega a R$ 200 (+135,3%), enquanto o produto de maior valor atinge R$ 320, com avanço de 93,9%. “Aqui o desafio do varejo não é apenas vender mais, mas tornar a tradição economicamente viável para o consumidor brasileiro”, explica Claudio Felisoni, Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School.

A analista de research da Rico também comenta que nos últimos cinco anos, os principais itens consumidos na Páscoa tiveram aumentos bem acima da inflação média do país.

Segundo a especialista, essa dinâmica tem relação com fatores macroeconômicos.“O movimento está ligado à política monetária restritiva, taxa de juros em 15%, além da apreciação cambial observada desde o ano passado e da maior oferta global de alguns alimentos”, afirma Maria Giulia.

Açúcar é o vilão?

Um dos principais responsáveis pelo avanço dos itens típicos da Páscoa foi o açúcar — produto fundamental na cadeia de produção de chocolates, balas e confeitos. “No caso do açúcar, as altas acumuladas foram resultado de uma combinação de fatores climáticos, logísticos e estruturais que afetaram a oferta global e pressionaram as cotações ao longo dos últimos anos”, indica a especialista da Rico.

Entre 2021 e 2025, o açúcar refinado subiu 57,51%, enquanto o cristal avançou 34%. Ainda assim, o cenário recente aponta mudança de tendência. “Depois de um período de forte pressão entre 2020 e 2024, vimos um arrefecimento relevante em 2025. A melhora da oferta global e safras mais favoráveis ajudaram a reduzir os preços”, afirma Maria Giulia. Segundo ela, a queda ocorreu principalmente por causa da melhora da produção global e do aumento da oferta brasileira.

Outro produto tradicional da data que chamou atenção nos dados foi o azeite de oliva. O óleo chegou a registrar forte alta entre 2023 e 2024 após quebras de safra na Europa, responsável pela maior parte da produção mundial.

No entanto, o cenário mudou. A safra europeia melhorou e houve recuperação da produção, ajudando a reduzir os preços internacionais e abrindo espaço para queda no varejo.

Mesmo assim, o produto segue caro. “O alívio chegou, mas é parcial. Parte da pressão anterior ainda está sendo diluída, e fatores como câmbio e frete continuam impactando os valores”, explica a analista da Rico.

Alívio?

Apesar de alguns itens ainda registrarem altas significativas, segundo Maria Giulia, há espaço para respiro.

Nos últimos 12 meses até janeiro de 2026, a cesta de Páscoa registrou alta de 2,51%, abaixo do IPCA de 4,44%, movimento que reflete um ambiente de desaceleração inflacionária. “O conjunto da cesta mostra uma descompressão mais ampla em comparação com o cenário observado no ano passado”, diz.

Para ela, o retrato para a Páscoa de 2026 é mais benigno que o do ano passado. “A inflação da cesta convergiu para um ritmo mais moderado, embora ainda haja pressões em categorias industriais mais sensíveis a custos de insumos”, afirma Maria Giulia.

O levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) também mostra que individualmente alguns itens de mesa da Páscoa registraram aumentos nos últimos anos, mas em conjunto apresentam um comportamento de queda de preços no acumulado em 12 meses até março de 2026.

Após uma elevação de 13,16% em 2023 – comparado a 2022 – e um incremento ainda mais expressivo de 16,73% em 2024, observou-se uma queda de 6,77% em 2025 e de 5,73% em 2026 — ante o ano anterior em cada caso.

Porém, nos últimos quatro anos, a cesta teve alta de 15,37%, ligeiramente abaixo dos 16,53% registrados pelo índice de Preços ao Consumidor Mensal (IPC-10, FGV IBRE).

O economista do FGV IBRE e responsável pelo levantamento, Matheus Dias, comenta que apesar da queda acumulada em 12 meses da cesta de Páscoa, alguns itens podem acabar pesando a conta final.

Ele explica que o fato da cesta ter registrado baixas consecutivas em 2025 e 2026, influenciada por hortaliças, legumes e azeite, conta apenas metade da história.

“Quando analisamos mais de perto, por um período mais longo, vemos que itens cujos preços são mais elevados, como é o caso do bacalhau, atum e chocolates, tiveram altas expressivas não somente em relação ao ano passado, mas sucessivamente ao longo do tempo, fazendo com que o preço pago pelo consumidor esteja sempre crescendo”, aponta o economista.

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