A mineradora brasileira de terras raras Serra Verde ganhou projeção internacional ao fechar um acordo de negócios com a americana USA Rare Earth em uma transação avaliada em US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões). A operação se consolida como uma alternativa de fornecimento de minerais críticos e ímãs permanentes fora da Ásia, hoje dominante nessa cadeia.
Na prática, o acordo não segue o modelo tradicional de compra direta. Trata-se de uma combinação de ativos que reúne a produção da Serra Verde no Brasil com as capacidades industriais e tecnológicas da USA Rare Earth no exterior. O resultado é uma operação integrada, com atuação em diferentes etapas da cadeia de terras raras.
O acordo ocorre na esteira de um esforço mais amplo dos Estados Unidos para reduzir a dependência externa nesse mercado. Em janeiro, o governo americano anunciou uma carta de intenção para apoiar a USA Rare Earth com até US$ 277 milhões (R$ 1,385 bilhão) em financiamento direto e até US$ 1,3 bilhão (R$ 6,5 bilhões) em empréstimos, voltados à expansão da produção e da fabricação de ímãs.
O negócio cria uma empresa multinacional com oito operações no Brasil, nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido, com atuação ao longo de praticamente toda a cadeia de terras raras: da mineração ao produto final.
A Serra Verde produz carbonato de terras raras com alta concentração de elementos críticos, como disprósio e térbio que são matérias primas usadas em veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, semicondutores e equipamentos de defesa. A companhia é a única produtora em larga escala fora da Ásia desses materiais.
Executivos da empresa têm enfatizado o caráter estratégico da operação, em entrevistas recentes. Segundo eles, o acordo cria “uma alternativa no Ocidente” para o fornecimento de terras raras e ímãs, além de posicionar o Brasil como um novo polo relevante nesse mercado.
O contrato estabelece preços mínimos para elementos-chave, o que traz previsibilidade em um mercado marcado por forte volatilidade e concentração geográfica. “Os preços mínimos para disprósio e térbio acordados são uma prioridade no setor, e reduzem o risco para o desenvolvimento futuro da nossa operação, fornecendo fluxos de caixa seguros e previsíveis com potencial compartilhado, permitindo que possamos investir em nossa expansão com confiança”, afirmou Thras Moraitis, CEO do Grupo Serra Verde, em nota;
A operação abre acesso a tecnologias de separação e produção de ímãs , etapas mais avançadas da cadeia, que ainda não estão disponíveis em escala fora da Ásia. Esse acesso era um dos principais gargalos para o desenvolvimento de projetos fora do eixo asiático.
Com a integração, a empresa passa a atuar em todas as fases do negócio. Outro ponto relevante é o nível de processamento já realizado no Brasil. Diferentemente de operações que exportam minério bruto, a Serra Verde produz carbonato de terras raras, um produto com maior valor agregado.
O negócio é de longo prazo. A empresa garantiu a venda de 100% da produção da Fase I por 15 anos para uma empresa de propósito específico, com participação de agências do governo dos Estados Unidos e investidores privados, e com preços mínimos definidos.
A operação no Brasil segue em expansão. A Serra Verde iniciou a produção comercial em 2024 e trabalha para atingir cerca de 6.400 toneladas anuais de óxidos de terras raras até o fim de 2027.
STF entra no caso das terras raras
A operação também chegou ao Supremo Tribunal Federal nesta semana. A Rede Sustentabilidade protocolou a ADPF 1320, sob relatoria do ministro Nunes Marques, questionando operações societárias ligadas à exploração de terras raras em Minaçu (GO). O partido argumenta que a participação da USA Rare Earth pode levar à transferência indireta do controle econômico da Serra Verde para um grupo estrangeiro.
Na ação, a legenda sustenta que os recursos minerais pertencem à União e que a exploração deve atender ao interesse nacional, conforme prevê o artigo 176 da Constituição. Por isso, pede que União e Agência Nacional de Mineração apresentem documentos e análises sobre as operações, incluindo impactos tecnológicos e de soberania econômica. Também solicita a suspensão dos atos questionados, sob o argumento de falta de fundamentação, e a adoção de mecanismos mais rigorosos de controle.