A corrida global por minerais críticos abriu um novo capítulo na relação entre Brasil e Estados Unidos. Para Washington, a cooperação na exploração e no desenvolvimento da cadeia de terras raras deixou de ser apenas uma agenda econômica e passou a ocupar uma posição estratégica em meio à disputa global por insumos essenciais para a transição energética, a indústria de defesa e as tecnologias avançadas. “Os minerais críticos representam uma oportunidade estratégica para ampliar a parceria entre Brasil e Estados Unidos”, afirmou o cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, em entrevista à Forbes Brasil.
A declaração foi feita durante a celebração dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos, realizada no Consulado-Geral americano, na capital paulista. O evento, que antecede o feriado de 4 de julho, reuniu cerca de 400 convidados, entre autoridades brasileiras, representantes do corpo diplomático, empresários e executivos.
Segundo Murakami, Washington vê no Brasil um parceiro natural para fortalecer cadeias de suprimentos consideradas estratégicas, especialmente em um momento em que governos e empresas buscam diversificar o fornecimento de minerais essenciais para baterias, veículos elétricos, semicondutores e equipamentos de alta tecnologia. “O Brasil reúne condições importantes para desenvolver esse setor, e acreditamos que essa cooperação pode beneficiar os dois países”, afirmou.
A aposta nos minerais críticos também reflete uma mudança na política industrial americana. Nos últimos anos, os Estados Unidos intensificaram esforços para reduzir a dependência de cadeias produtivas concentradas na Ásia e estimular novas parcerias com países considerados aliados ou estratégicos.
Um exemplo emblemático dessa aposta é o da Serra Verde, mineradora localizada em Minaçu, Goiás, e única empresa fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos mais cobiçados entre as terras raras. Em abril, a americana USA Rare Earth, listada na Nasdaq, anunciou um acordo para adquirir 100% do Serra Verde Group por cerca de US$ 2,8 bilhões – negócio ainda em processo de conclusão, previsto para o terceiro trimestre de 2026 -, em meio a uma corrida por fontes alternativas à China, que controla o mercado global.
O caso ilustra o nível de envolvimento direto do governo americano nesse tipo de operação: em fevereiro deste ano, a Serra Verde já havia recebido um aumento no financiamento concedido por um banco estatal dos Estados Unidos, chegando a US$ 565 milhões, o que deu ao governo americano o direito de adquirir uma participação acionária minoritária na mineradora. Mais recentemente, o próprio governo americano passou a ser acionista da USA Rare Earth, como parte de um pacote bilionário fechado com o Departamento de Comércio dos EUA, que libera acesso a até US$ 1,6 bilhão para a construção de uma cadeia integrada de terras raras, metais, ligas e ímãs em território americano.
Mas a mensagem de Murakami foi além da cooperação em recursos naturais. O diplomata afirmou que os Estados Unidos também buscam ampliar os investimentos brasileiros no mercado americano e que, hoje, oferecem um ambiente mais competitivo para empresas estrangeiras.”Os Estados Unidos estão de portas abertas para empresas brasileiras”, disse.
O interesse é justificado pelos números: o Brasil detém reservas potenciais de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, o segundo maior estoque do mundo, atrás apenas da China, que responde por cerca de 70% da produção global e mais de 90% da capacidade de refino.
Portas abertas
Segundo ele, a principal mudança vem dos próprios estados americanos, que passaram a disputar investimentos internacionais de forma mais agressiva por meio de incentivos fiscais, programas de desenvolvimento econômico e apoio à instalação de novas operações. “Estados como Texas, Oklahoma e Ohio têm políticas muito ativas para atrair capital estrangeiro”, afirmou.
Nesse movimento, um dos principais instrumentos é o SelectUSA, programa do Departamento de Comércio americano criado para facilitar a entrada de investidores estrangeiros.
A iniciativa conecta empresas a agências estaduais de desenvolvimento econômico, oferece orientação regulatória e ajuda na identificação das melhores localidades para novos investimentos. Murakami destaca que agricultura, manufatura de alta tecnologia e inovação figuram entre os setores que mais oferecem oportunidades para empresários brasileiros interessados em expandir operações nos Estados Unidos.
À medida que questões de segurança econômica e resiliência das cadeias produtivas ganham peso, a relação entre Brasil e Estados Unidos tende a ser pautada menos pelo comércio tradicional e mais pela cooperação em setores considerados estratégicos.