A Compass, empresa do grupo Cosan, realizou hoje (11) na B3 o aguardado toque da campainha, que oficializou a sua entrada na bolsa brasileira. A cerimônia quebrou o jejum de oferta inicial de ações – em inglês IPO – de quase cinco anos. Sob o ticker PASS3, a companhia de gás precificou o papel no teto mínimo, em R$ 28,00.
No prospecto da oferta, a Compass é definida como “uma plataforma de negócios de gás, orientada pelo crescimento sustentável, que conecta conhecimento com gestão para desenvolver soluções que impulsionam o setor de gás, promovendo segurança energética.”
A companhia, avaliada agora em R$ 20 bilhões na B3, movimentou R$ 2,8 bilhões na oferta base e considerando o lote extra o montante atinge R$ 3,19 bilhões. As ações, ofertadas de forma secundária, foram vendidas por acionistas da Cosan, Fundos Atmos, Bradesco Vida e Previdência, Brasil Capital, Manaslu LLC – Banco BTG Pactual, Manzat Inversiones Auu e Ricardo Ernesto Correa da Silva.
Os coordenadores da oferta são BTG Pactual, Bank of America Merrill Lynch, Bradesco BBI, Citigroup, Itaú BBA, Banco Santander, Banco JPMorgan, XP Investimentos, Banco BNP Paribas Brasil e UBS BB.
O preço dos papéis recuou 0,25% próximo ao meio-dia e eram negociadas à R$ 27,93. Para o analista Luiz Carlos Corrêa, Head de Alocação e sócio da Nexgen Capital, a Compass deve se preparar para uma correção amena do mercado, “os investidores estão esperando decisões sobre a guerra e o mercado segue volátil em relação a isso”.
Em setembro 2020, a Compass ensaiou a abertura na bolsa mas desistiu frente a um cenário macroeconômico instável, durante a pandemia de Covid-19. A janela de IPOs, embora movimentada, enfrentava um momento de forte aversão ao risco. Outras empresas que abriram capital naquele período viram suas ações serem precificadas no piso da faixa indicativa ou até abaixo, o que gerou um sinal de alerta para a Cosan.
Em coletiva, a Vice Presidente de Operações na B3, Viviane Basso disse estar trabalhando de forma consistente para que haja uma retomada no mercado de capitais brasileiro. “Na medida em que os juros começam a cair, o mercado de capitais brasileiro se torna bastante atrativo”, afirmou.
O caminho vem sendo pavimentado para novos IPOs. De acordo com Flavia Mouta, diretora de Listagem e Relacionamento da B3, “mais de 50 empresas já efetuaram o registro junto à CVM” – etapa crucial para o processo de abertura de capital. A Comissão de Valores Mobiliários é a responsável por aprovar, regular e fiscalizar as ofertas públicas de ações e dar às instituições o Registro de Companhia Aberta.
Segundo a B3, as empresas estão preparadas para o ambiente instável sob a ótica da geopolítica, mas não necessariamente devem apertar a campainha ainda esse ano. As companhias que devem dar o próximo passo rumo à bolsa do Brasil são dos setores de infraestrutura, agronegócio e logística.
Para o mercado, apesar do aceno positivo da Compass, novas ofertas públicas de ações devem vir de empresas com previsibilidade de caixa e menor risco operacional. “O IPO da Compass sinaliza reabertura seletiva da janela de capitais no Brasil, indicando melhora marginal de apetite por risco mas ainda com forte disciplina de preço, evidenciada pela precificação no piso”, diz Sidney Lima, Analista da Ouro Preto Investimentos.
Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, o ano de 2026 deve ser de transição .”Pode melhorar o sentimento do mercado mas ainda não representa uma janela ampla de abertura de capitais”, diz. O ambiente macro ainda impõe vários e as operações devem ser pontuais e ancoradas, diz. “A maioria vai priorizar os follow-on ou aguardar mais estabilidade”.
Histórico de IPOs na B3
Após o recorde de 2021, o cenário de juros altos e incertezas macroeconômicas travaram as janelas de oportunidade, fazendo com que dezenas de empresas engavetassem seus projetos de listagem à espera de avaliações mais atraentes.
As últimas companhias a realizarem um IPO na B3 em 2021 foram:
- Unifique (FIQE3): Estreou em julho – é uma operadora de telecomunicações catarinense focada em fibra óptica;
- Três Tentos (TTEN3): Também em julho – a empresa atua no ecossistema do agronegócio, desde a venda de insumos até o processamento de grãos;
- Raízen (RAIZ4): Tocou a campainha em agosto e detém o título do maior IPO daquele ano, sendo uma joint venture entre Cosan e Shell;
- Oncoclinicas (ONCO3): Seguiu a Raízen no mesmo mês – a companhia é um dos maiores grupos de oncologia do Brasil e da América Latina;
- Vittia (VITT3): A última a estrear antes do fechamento do mercado, realizou seu IPO em setembro – é uma empresa do setor de biotecnologia e defensivos agrícolas.
Apesar do otimismo com o retorno das ofertas, o perfil dos novos IPOs mudou: o mercado está muito mais seletivo e pragmático. Diferente da euforia de 2020-2021, os investidores agora priorizam empresas com geração de caixa comprovada e modelos de negócio resilientes, deixando pouco espaço para teses de crescimento acelerado sem rentabilidade imediata.