Pode parecer que há pouquíssima água na região árida da Bacia do Permiano, no oeste do Texas, castigada pelo sol. Ali, os cardos-rodantes e as bombas de petróleo superam em número os habitantes. Por centenas de quilômetros, não existe nenhum lago e apenas um rio.
Mesmo assim, no maior campo petrolífero dos Estados Unidos, a água está em toda parte. Basta saber onde procurar, explica David Capobianco, de 57 anos, cofundador da gestora de private equity Five Point.
Todos os dias, a região produz 7 milhões de barris de petróleo e 25 milhões de barris de água. Isso equivale a 1 bilhão de galões, volume semelhante ao consumo diário de toda a cidade de Nova York.
“Sem água… eles não conseguem mover petróleo nenhum, a máquina para”, diz Capobianco. Ele transformou essa água na peça central de sua estratégia para atrair data centers de inteligência artificial ao território petrolífero.
Boa parte dessa água vem de aquíferos e é usada no processo de fraturamento hidráulico, o fracking. Mas uma quantidade ainda maior sai dos poços, extraída das mesmas rochas onde fica o petróleo. Essa água é imprópria. Vem saturada de sal, minerais e produtos químicos.
Historicamente, depois de retirar o petróleo, as operadoras pagavam para transportar essa água e injetá-la a quilômetros de profundidade no subsolo. É aí que Capobianco entra. Suas empresas processam 6 milhões de barris de água residual por dia. O transporte passa por mais de 8 mil quilômetros de dutos e mais de 300 instalações de processamento e descarte espalhadas pelo Texas e pelo Novo México.
“É um resíduo, mas existe em quantidade enorme. Água em um lugar onde falta água precisa ter algum valor”, afirma Capobianco. “Compramos uma opção que os outros não conseguiam enxergar.” Em outras palavras, ele apostou que, cedo ou tarde, haveria lucro em fazer algo além de simplesmente descartar essa água.
A aposta que virou ouro
Hoje, com milhares de data centers já em operação ou planejados nos Estados Unidos, incluindo quase 400 só no Texas, e cada um consumindo quantidades absurdas de água, a aposta de Capobianco se paga. Melhor ainda, o oeste do Texas oferece outras duas coisas essenciais para data centers, terra barata e o gás natural mais barato do mundo.
No total, suas empresas já investiram US$ 2,5 bilhões (R$ 12,73 bilhões), com planos de aportar mais US$ 5 bilhões (R$ 25,45 bilhões) nos próximos cinco anos nessa aposta de proporções texanas.
Scott Mitchell, CEO da Deep Blue, uma das empresas do portfólio da Five Point, resume a estratégia de Capobianco. “É como se a Levi’s tivesse descoberto como vender não só o jeans, mas também as picaretas e as pás, tudo junto. Você faz uma única ligação e já tem tudo que precisa para construir um data center gigantesco.”
Capobianco começou a lapidar essa estratégia há apenas três anos, mas suas raízes remontam a 2003, quando ele se mudou para Seattle para trabalhar na Vulcan Capital, gestora do cofundador da Microsoft Paul Allen. Campeão estadual de tênis no colégio, em Rhode Island, e formado pela Duke, Capobianco tinha atuado como banqueiro de investimentos em Nova York antes de entrar na Vulcan para ajudar a diversificar os investimentos da empresa.
“Na época, víamos o petróleo como um ativo pouco compreendido”, relembra Capobianco. Ele investiu US$ 500 milhões (R$ 2,55 bilhões) do patrimônio de Allen na construção do sistema de dutos Plains All-American, que se estende por quase 29 mil quilômetros, de Alberta, no Canadá, até Houston, no sul, e St. Louis, a leste.
Esse investimento valia US$ 3 bilhões (R$ 15,27 bilhões) em 2008, quando Allen (falecido em 2018) demitiu Capobianco e sua equipe, e recontratou os subordinados deles por salários menores. Segundo Capobianco, Allen tentou calotear o grupo. Documentos judiciais confirmam que ele se recusou a pagar a Capobianco e a outro diretor os últimos 20% da participação nos lucros que lhes cabia.
A dupla venceu a arbitragem em 2010 e recebeu mais de US$ 20 milhões (R$ 101,8 milhões). Allen recorreu, sem sucesso, à Suprema Corte do estado de Washington.
Nasce a Five Point
Depois dessa experiência, Capobianco decidiu nunca mais trabalhar para outra pessoa. Mas administrar uma petrolífera não era seu interesse. Em vez disso, em 2012, ele fundou a Five Point com US$ 15 milhões (R$ 76,35 milhões) do próprio bolso e depois criou oito empresas no portfólio do fundo, a maioria dedicada a consolidar ativos de água em um ecossistema de dutos e plantas de processamento por toda a Bacia do Permiano.
Há a WaterBridge, no lado sudoeste da bacia, no Texas, perto da fronteira com o Novo México. Tem a San Mateo Midstream, no noroeste, já em território do Novo México. E há a Deep Blue, voltada à porção leste do Permiano, na região de Midland, no Texas.
Em vez de construir dutos do zero, Capobianco buscou parcerias com petrolíferas que já tinham infraestrutura própria para transportar gás e descartar água residual.
Em 2017, a Five Point pagou US$ 175 milhões (R$ 890,75 milhões) à produtora Matador Resources para criar a joint venture San Mateo, responsável por coletar e processar tanto a água quanto o gás natural produzidos pela Matador. A operação gerou US$ 290 milhões (R$ 1,48 bilhão) em Ebitda no ano passado e agora está comprando outra empresa de processamento de água por US$ 750 milhões (R$ 3,82 bilhões).
Já a Deep Blue pagou US$ 675 milhões (R$ 3,44 bilhões) à Diamondback Energy, em 2023, por 70% de seus ativos hídricos, em uma joint venture que analistas projetam gerar US$ 300 milhões (R$ 1,53 bilhão) em Ebitda neste ano.
Terra estratégica na fronteira
Em 2021, Capobianco fundou a LandBridge, que hoje detém 320 mil acres na Bacia do Permiano, distribuídos por seis condados do Texas e do Novo México.
O terreno mais estratégico que ele comprou foi o antigo rancho de gado Hanging H, de 70 mil acres, na fronteira entre Texas e Novo México. A localização é ideal para bombear água residual do Novo México, onde as regras de descarte são mais rígidas, para o Texas, onde a regulação é mais branda.
A LandBridge pagou US$ 210 milhões (R$ 1,07 bilhão) pela terra, adquirida de uma família em disputa que, segundo Roy Jackson, administrador judicial nomeado pela Justiça para cuidar do rancho, via as petrolíferas como “cascavéis”. Isso significava que a área tinha sido pouco explorada até então.
Como investir nisso?
Por John Rotonti
Quando o assunto é infraestrutura de inteligência artificial, a Jabil, da Flórida, com receita de US$ 30 bilhões (R$ 152,7 bilhões), é uma das maiores parceiras terceirizadas do mundo em engenharia, cadeia de suprimentos e manufatura. A empresa atende mercados diversos, incluindo saúde, transporte, energia e data centers. Suas soluções de IA vão de racks refrigerados a líquido de última geração até servidores, armazenamento, unidades de distribuição de energia, switches e transformadores.
A IA já responde por quase 40% da receita total da empresa e a expectativa é de crescimento de cerca de 50% nos anos fiscais de 2026 e 2027. A Jabil conquistou recentemente seu terceiro cliente hyperscale e anunciou uma construção de múltiplos gigawatts em parceria com a Adani Enterprises, na Índia. Com retorno sobre o patrimônio médio de 42% nos últimos cinco anos, a empresa tem um longo caminho de crescimento pela frente. Suas ações são negociadas a um múltiplo P/L de apenas 20 vezes sobre as estimativas de consenso para 2027.
John Rotonti é gestor de portfólio na Bastion Fiduciary.
O rancho que virou fonte de renda
Capobianco abriu o Hanging H para negócios imediatamente e hoje aluga trechos da propriedade para mais de 100 empresas de energia. A gigante do petróleo EOG Resources, por exemplo, paga US$ 8 milhões (R$ 40,72 milhões) por ano para extrair areia usada no fracking.
Suas companhias já lucraram US$ 80 milhões (R$ 407,2 milhões) em receita operacional só com o Hanging H. “Estamos tirando de cena esses velhos fazendeiros arredios e criando os melhores parceiros possíveis para o setor”, diz Capobianco.
IPOs bilionários e uma saída milionária
A Five Point já colheu grandes ganhos financeiros, incluindo com duas ofertas públicas iniciais. A LandBridge estreou na Bolsa de Nova York em 2024, levantando US$ 250 milhões (R$ 1,27 bilhão), e hoje vale US$ 6 bilhões (R$ 30,54 bilhões) em valor de mercado. Já a WaterBridge captou US$ 650 milhões (R$ 3,31 bilhões) em setembro de 2025 e está avaliada em US$ 4,3 bilhões (R$ 21,89 bilhões).
A Five Point mantém participação majoritária nas duas empresas, que representam a maior fatia de seus US$ 9 bilhões (R$ 45,81 bilhões) em ativos sob gestão. A gestora também teve pelo menos uma grande saída, ao vender a empresa de processamento de gás Northwind por US$ 2,4 bilhões (R$ 12,22 bilhões) em dinheiro, em julho de 2025.
O negócio rendeu US$ 1,2 bilhão (R$ 6,11 bilhões) de lucro, o triplo do investimento original. Parte do valor foi devolvida aos investidores e outra parte foi reinvestida em água e terra. Tudo isso ajudou a enriquecer Capobianco, dono de 70% da gestora que administra a Five Point. Seu patrimônio líquido já soma pelo menos US$ 1 bilhão (R$ 5,09 bilhões).
O plano além da água
Capobianco tem planos mais amplos para lucrar com o boom dos data centers e com a crescente resistência a eles. Ele imagina um complexo de data centers em 10 mil acres que a LandBridge possui no isolado condado de Reeves, que abriga apenas 12 mil habitantes espalhados por uma área de 6.734 quilômetros quadrados. “Não ter gente parece algo ruim à primeira vista”, diz ele. Mas, se isso significa menos resistência à construção dos data centers, “não ter gente é uma vantagem”.
Jim Davidson, consultor de Capobianco e investidor da Five Point (também cofundador da gestora de private equity Silver Lake e desenvolvedor de data centers), afirma que terra, água e combustível barato são condições necessárias, mas não suficientes, para construir um data center de sucesso. Por isso, a Five Point busca os ingredientes que faltam, fibra óptica, eletricidade, mão de obra e um cliente hyperscale.
Infraestrutura para conectar o deserto ao mundo
A LandBridge enterrou recentemente centenas de quilômetros de tubulações de 15 centímetros de diâmetro, por onde as empresas hyperscale podem passar cabos de fibra óptica com facilidade, conectando futuros data centers à espinha dorsal da internet.
Além disso, a Five Point criou uma divisão de geração de eletricidade movida a gás natural, chamada PowerBridge, com planos de investir US$ 1 bilhão (R$ 5,09 bilhões) no projeto. Um dos motivos do otimismo de Capobianco é a rapidez com que os reguladores do Texas aprovam licenças ambientais para usinas termelétricas a gás propostas por outras desenvolvedoras.
Quanto aos clientes, Capobianco tem certeza de que eles existem, como mostra o acordo de 20 anos fechado pela Microsoft em junho com a Chevron, para construir um data center no Permiano abastecido pelo gás da petrolífera. “O primeiro a assinar corre o maior risco”, diz Davidson. “O segundo já é mais seguro. No terceiro, vira festa.”
A aposta em Pecos
Mas será que Capobianco realmente conseguirá atrair a mão de obra técnica necessária para a paisagem árida do condado de Reeves, onde a pequena Pecos, com 10 mil habitantes, é a maior cidade em um raio de mais de 80 quilômetros?
Capobianco conta com formandos em engenharia elétrica das universidades Texas Tech e Texas A&M. E aposta que outros trabalhadores vão migrar para os empregos gerados pelo que ele projeta ser mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,545 trilhões) em investimentos em data centers na região.
“Olho para Pecos e imagino como seria olhar para Houston há 200 anos. Se você pudesse ver o futuro, teria comprado o máximo de terra possível e começado a construir”, diz ele. “Sinto que sabemos qual é o futuro de Pecos. A cidade vai ter 150 mil habitantes antes do fim da década.” Serão muitos garimpeiros sedentos em busca do ouro da inteligência artificial.
Esta Terra é Minha Terra
David Capobianco vem acumulando terras, mas ainda tem um longo caminho até entrar para a lista dos maiores latifundiários dos Estados Unidos. Confira os cinco maiores, segundo o levantamento da publicação especializada The Land Report, que exclui o magnata da TV a cabo Ted Turner, dono de 2 milhões de acres até sua morte, em maio.
Stan Kroenke — 2,7 milhões de acres
O bilionário do setor imobiliário (shoppings, centros de armazenamento) e do esporte (Los Angeles Rams, Denver Nuggets, Colorado Avalanche, Arsenal F.C.) também possui um rancho no Texas quase do tamanho de Rhode Island. Em dezembro, ele fez a maior compra de terras privadas da história dos Estados Unidos, ao adquirir uma área de 937 mil acres no Novo México.
Archie Aldis Emmerson e família — 2,4 milhões de acres
Nenhum americano possui mais área florestal do que “Red” Emmerson, bilionário de 97 anos cuja empresa, a Sierra Pacific Industries, opera 18 serrarias na Califórnia, no Oregon e em Washington.
John Malone — 2,2 milhões de acres
O bilionário conhecido como “Cable Cowboy” e conservacionista comprou um pequeno rancho de família perto de Denver na década de 1970 e vem expandindo suas propriedades desde então. “Não estamos nisso para enriquecer”, disse ele à Forbes em 2011.
Família Reed — 1,6 milhão de acres
O clã que está na sexta geração à frente da Green Diamond Resource Company extrai madeira de suas vastas propriedades, hoje espalhadas por nove estados, desde que o balseiro canadense Sol Simpson imigrou para Nevada em meados do século 19.
Família Buck — 1,3 milhão de acres
O físico nuclear Peter Buck (falecido em 2021) emprestou US$ 1.000 (R$ 5.090,00) a um amigo da família em 1965 para abrir o primeiro restaurante Subway. Depois, investiu parte dos lucros bilionários que teve com o negócio em áreas florestais no estado do Maine.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com