A Eli Lilly está usando o caixa gerado pelo sucesso do Mounjaro para expandir uma frente que marcou parte de sua história, mas que ganhou novos contornos com os avanços da medicina psicodélica. A farmacêutica fechou um acordo para adquirir a americana AtaiBeckley, empresa dedicada ao desenvolvimento de tratamentos para transtornos mentais com ativos psicodélicos, em uma transação que pode alcançar US$ 3,8 bilhões (R$ 19,266 bilhões).
O centro da operação é o BPL-003, um spray nasal de ação rápida desenvolvido para pacientes com depressão resistente ao tratamento. Em estudos clínicos, uma única dose levou a uma redução significativa dos sintomas em até dois dias, com os efeitos sendo mantidos por até oito semanas. O medicamento ainda depende de aprovação regulatória.
A aquisição reforça uma estratégia mais ampla da Eli Lilly de reinvestir os recursos provenientes de seus medicamentos baseados em GLP-1 em projetos de pesquisa de longo prazo. Desde que Mounjaro e, posteriormente, Zepbound transformaram a companhia em uma das empresas mais valiosas do setor farmacêutico, com valor de mercado próximo de US$ 1 trilhão, a fabricante vem ampliando sua carteira de ativos em estágio inicial para reduzir a dependência da atual geração de produtos.
O movimento também representa um retorno a uma área conhecida pela companhia. Décadas antes da corrida pelos medicamentos contra obesidade, a Eli Lilly consolidou sua presença no mercado de saúde mental com antidepressivos como Prozac e, posteriormente, Cymbalta. Agora, a empresa volta ao segmento em um momento em que novas abordagens terapêuticas buscam atender pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais.
A aposta também ocorre em um ambiente regulatório mais favorável ao desenvolvimento de medicamentos psicodélicos nos Estados Unidos. Em abril, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando medidas para acelerar a avaliação de terapias inovadoras, iniciativa que levou a Food and Drug Administration (FDA) a acelerar os processos relacionados a medicamentos psicodélicos.
Para a Eli Lilly, a aquisição amplia uma estratégia que vai além do mercado de obesidade e diabetes. O sucesso comercial do Mounjaro alterou o perfil financeiro da empresa e criou capacidade para financiar novas plataformas terapêuticas. Ao direcionar parte desses recursos para tratamentos de saúde mental, a farmacêutica busca construir a próxima geração de medicamentos antes que o ciclo de crescimento dos produtos atuais atinja maturidade.