O Ibovespa encerrou em alta nesta quarta-feira, em meio ao forte alívio nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano, encerrando uma série de 11 fechamentos negativos, mas sem conseguir sustentar o patamar dos 170 mil pontos alcançado no melhor momento do dia. O índice avançou 0,9%, a 167.830,27 pontos, de acordo com dados preliminares. Na máxima do dia, porém, chegou a 170.340,60 pontos. Na mínima, alcançou 166.334,73 pontos. O volume financeiro no pregão somava R$ 27,49 bilhões.
Incertezas em torno do cenário eleitoral, em um ambiente de preocupações com o quadro fiscal e o nível dos juros no país, bem como potencial desaceleração da atividade econômica, continuam pesando no pregão brasileiro, assim como a forte saída de capital externo em agosto.
Nos 11 pregões anteriores, quando registrou a maior série de perdas diáriasdesde 2023, o Ibovespa acumulou uma queda de 6,55%.
De acordo com o chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, Nicolas Gass, a bolsa paulista se beneficiou do forte alívio nos rendimentos dos Treasuries, após o Tesouro dos Estados Unidos anunciar que vai dobrar o volume das operações de recompra de títulos de longo prazo de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões.
“Na prática, isso é o Tesouro entrando como comprador justamente para garantir liquidez na parte longa da curva… O efeito (de queda nos rendimentos dos Treasuries) foi imediado… e destravou o apetite por risco no mundo inteiro, praticamente, inclusive no Brasil”, ressaltou.
Gass, porém, classificou a alta como um “respiro temporário”, afirmando que os fatores que derrubaram a bolsa em agosto continuam todos no lugar: a saída de capital externo e a incerteza eleitoral. Ele também chamou a atenção para as preocupações envolvendo o cenário fiscal brasileiro e o nível da Selic.
“Foi um repique técnico, dentro de uma tendência de baixa…Para falar em reversão, precisamos ver o estrangeiro voltando a comprar de uma forma consistente, o que não aconteceu.” Em agosto, até o dia 17, a bolsa registra saldo negativo de capital externo de R$ 18,6 bilhões.
Ainda da pauta norte-americana, a ata da última decisão de juros do Federal Reserve mostrou que a preocupação com a inflação se aprofundou no mês passado, com “vários” integrantes do Comidê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do banco central dos EUA dispostos a elevar as taxas de juros e “muitos” afirmando que um aumento seria necessário caso a inflação não caísse para 2%.
Destaques
• PETROBRAS PN valorizou-se 1,2%, no quinto pregão seguido de alta, endossada pela recuperação generalizada na B3, tendo como pano de fundo ainda o sinal positivo nos preços do petróleo no exterior. Na última sexta-feira, a Petrobras também informou que realizou uma descoberta de hidrocarbonetosem poço exploratório na Bacia da Foz do Rio Amazonas.
• VALE ON avançou 0,81%, em linha com o setor no exterior, apoiada pela alta dos futuros do minério de ferrona China. O contrato mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian fechou o pregão com alta de 0,78%, a 712iuans (US$105,68) por tonelada. No setor, CSN MINERAÇÃO ON subiu 2,25%.
• BANCO DO BRASIL ON fechou negociada em alta de 1,57%, com os papéis do setor perdendo força após um começo de sessão mais positivo, uma vez que persistem as preocupações com o cenário de crédito no país. ITAÚ UNIBANCO PN registrou elevação de 0,47%, mas BRADESCO PN caiu 0,62% e SANTANDER BRASIL UNIT perdeu 1,88%.
• MAGAZINE LUIZA ON recuou 5,37%, após desempenho mais positivo nas últimas duas sessões, na esteira de potenciais efeitos positivos para a companhia com o plano de recuperação judicial da Casas Bahia, bem como fechamento de quase 300 lojas pela concorrente. CASAS BAHIA ON, que não está no Ibovespa, subiu 2,44%.
• COSAN ON saltou 8,31%, experimentando uma trégua na pressão vendedora sobre o papel, que ainda acumula declínio de 16,7% em agosto. O movimento teve respaldo na alta dos futuros do açúcar bruto na ICE, que atingiram a maior cotação em mais de um ano. Investidores também seguem atentos a eventuais medidas do conglomerado para lidar com seu elevado endividamento.
Dólar em queda
O dólar fechou a quarta-feira em queda firme contra o real, refletindo a fraqueza da divisa norte-americana no mercado internacional desencadeada por anúncio do Tesouro dos Estados Unidos de que irá dobrar o tamanho de algumas operações de recompra de títulos.
O dólar à vista fechou em queda de 0,86%, aos R$ 5,17 na venda.
Às 17h31, o contrato de dólar futuro para setembro — atualmente o mais negociado no Brasil — caía 0,72% na B3, aos R$ 5,19.
Nesse mesmo horário, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — caía 0,83%, a 98,817.
Nesta quarta-feira, o Tesouro norte-americano anunciou a duplicação do volume das recompras de títulos com vencimentos de 10 a 30 anos para pelo menos US$ 4 bilhões por operação entre 9 de setembro e 4 de novembro.
O movimento se deu um dia após uma grande onda de vendas de títulos ter derrubado o preço dos papéis e empurrado o rendimento dos títulos de 30 anos para seu nível mais alto desde 2007, em meio a temores de uma escalada iminente na guerra dos EUA e Israel contra o Irã e crescentes preocupações com a deterioração do quadro fiscal dos EUA.
Segundo a estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, quando o Tesouro anuncia que vai comprar ativamente esses papéis, ele gera uma demanda artificial que eleva o preço dos títulos. “O reflexo dessa queda nos juros americanos é a perda de força do dólar frente às outras moedas globais”, disse a estrategista.
“Grande parte do capital mundial estava estacionada nos Estados Unidos aproveitando justamente aquelas taxas de juros altíssimas e extremamente seguras. Quando o Tesouro atua para derrubar esses juros longos, o dólar perde parte do seu apelo. Isso faz com que investidores saiam de lá em busca de rentabilidade em mercados emergentes, como o Brasil”, completou Nossig.
Para o estrategista da Empiricus Research, Matheus Spiess, o movimento dos Títulos dos EUA potencializou um esperado ajuste no mercado de câmbio doméstico.
“O mercado ficou meio sobrevendido, com muita saída de gringo. Então é natural que aconteça um rebound”, disse Spiess, referindo-se à forte desvalorização do real observada na semana passada, a qual foi motivada pela intensa saída de capital estrangeiro do mercado local por conta da cautela gerada pelo cenário eleitoral, que segue no radar, em meio a preocupações fiscais.
Em segundo plano, o mercado também avaliou nesta quarta-feira a ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve, divulgada no meio da tarde. O documento mostrou que a preocupação com a inflação se aprofundou na reunião do Fed no mês passado, com “vários” formuladores de política monetária dispostos a aumentar as taxas de juros e “muitos” afirmando que um aumento nos custos de empréstimos seria necessário caso a inflação não caísse para a meta de 2% do banco central dos EUA.