Faltam menos de duas semanas para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, e a pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 40% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 37%, dentro da margem de erro de dois pontos, com diferença de apenas um ponto no cenário de segundo turno (46% a 45%).
No mesmo dia, o Ibovespa subiu 0,74%, para 186.595 pontos, o dólar caiu 0,70%, para R$ 5,11, e os juros futuros de prazo mais longo recuaram até 0,16 ponto percentual.
Chama atenção que um empate técnico, que em tese deveria elevar a incerteza e o prêmio de risco, tenha produzido o efeito oposto nos preços. Considero que está aí o ponto mais importante nesta reta final da campanha para quem investe: em vez de neutralidade, o mercado vem precificando a leitura que faz de cada pesquisa sobre o rumo da política fiscal, e isso cria uma assimetria que a carteira precisa levar em conta.
Como a pesquisa eleitoral virou gatilho para o Ibovespa e o dólar
Em agosto, escrevi nesta coluna que o mercado cobrava um pedágio para atravessar a eleição. Naquele momento, a pesquisa CNT/MDA mostrava uma diferença de 13,7 pontos entre os dois principais candidatos, R$ 7,2 bilhões de capital estrangeiro haviam deixado a B3 e o dólar tinha chegado a R$ 5,20. De lá para cá, a distância nas pesquisas encolheu e o comportamento dos ativos se inverteu: em 2 de setembro, dia em que a Quaest apontou 42% a 41%, o Ibovespa subiu 3,05%, na 11ª alta seguida, e o dólar fechou a R$ 5,11.
A explicação que circula nas mesas de operação tem a ver com expectativa de política econômica muito mais do que com preferência partidária. Parte dos gestores interpreta uma disputa mais equilibrada como maior probabilidade de mudança na condução fiscal, com ajustes que melhorariam a trajetória da dívida pública, como resumiu Gabriel Magno, da AW Capital.
O meu ponto aqui não é discutir qual candidato seria melhor para a economia, mas sim o que todo esse cenário impacta na vida do investidor pessoa física, e o ponto central é que os preços de hoje já carregam uma probabilidade, o que os deixa expostos a qualquer informação capaz de alterá-la.
O concurso de beleza de Keynes e o preço das pesquisas eleitorais
Em 1936, John Maynard Keynes, em sua obra Teoria Geral, comparou o mercado financeiro a um concurso promovido por jornais, em que os leitores escolhiam os rostos mais bonitos entre cem fotografias e o prêmio ia para quem mais se aproximasse da preferência média de todos os participantes. Quem quisesse vencer não escolhia o rosto que considerava mais bonito, e sim aquele que imaginava que os outros escolheriam, e os mais sofisticados iam além, tentando antecipar o que a média esperava que a média pensasse.
A reação às pesquisas eleitorais segue essa lógica quase ao pé da letra. O gestor que compra Ibovespa no dia de uma pesquisa apertada nem sempre está convencido de um resultado; muitas vezes, está apostando no que imagina que os demais investidores farão com aquela informação, e é por isso que variações dentro da margem de erro chegam a produzir movimentos de 1% ou 3% em um único pregão.
Nesse ambiente, o preço passa a refletir menos o que vai acontecer nas urnas e mais a expectativa sobre a próxima pesquisa.
A margem de erro que o preço dos ativos ignora
A própria pesquisa Nexus traz um dado que ajuda a dimensionar esse exagero: entre os eleitores que já escolheram algum candidato, 84% dizem que sua decisão é firme. Assim, com um eleitorado tão cristalizado, as oscilações entre uma rodada e outra tendem a ser pequenas e, muitas vezes, estatisticamente irrelevantes, situando-se sempre dentro da margem de erro.
Isso cria uma assimetria que o investidor precisa enxergar. Como os preços subiram a cada pesquisa que mostrou a disputa mais apertada, parte do cenário que o mercado considera favorável já foi incorporada ao Ibovespa, ao câmbio e à curva de juros. Se as próximas rodadas confirmarem essa leitura, o ganho adicional tende a ser menor, porque boa parte dele já aconteceu; se apontarem na direção contrária, a correção pode ser rápida, porque muitas posições foram montadas sobre a mesma expectativa. Foi o que vimos acontecer em 2022, quando o Ibovespa subiu 5,54% no pregão seguinte ao primeiro turno, depois que o resultado das urnas se distanciou do que as pesquisas indicavam.
Juros futuros e risco fiscal: o prêmio que nenhuma pesquisa eleitoral apaga
É necessário que a gente não deixe de lembrar que há um limite para o otimismo, e ele aparece na curva de juros. Mesmo depois da queda desta segunda-feira, o contrato de DI para janeiro de 2031 fechou em 13,88% ao ano, acima da própria Selic, de 13,75%, o que mostra que o mercado continua cobrando um prêmio para financiar o governo no longo prazo, e as NTN-Bs, os títulos do Tesouro IPCA+, seguem pagando juros reais na casa de 8% ao ano em vários vencimentos.
Esse prêmio tem origem numa aritmética que será a mesma para qualquer vencedor: dívida bruta de 81,9% do PIB em junho, segundo o Banco Central, juros reais elevados e crescimento projetado abaixo de 2% neste ano.
A pesquisa pode mudar a expectativa do mercado sobre a disposição do próximo governo de enfrentar esse quadro, mas não altera o quadro em si, e por isso o alívio nos juros longos, até aqui, foi modesto perto do que se viu na bolsa.
Como posicionar seus investimentos na reta final das eleições 2026
Sei que, a esta altura, a pergunta recorrente entre os investidores é quanto da sua carteira depende de acertar quem vai vencer, e como isso faz parte de meus objetos de estudo nos últimos anos, penso que posso contribuir um pouco.
Na minha avaliação, o risco que importa é o de não atingir as metas, mais do que a oscilação de curto prazo em si. Quem tem objetivos próximos, como uma compra relevante ou uma despesa em dólar nos próximos meses, deveria reduzir a dependência de qualquer cenário eleitoral, travando taxas ou fazendo proteção cambial parcial.
Por outro lado, quem investe para horizontes longos pode manter a exposição a ações, desde que dimensionada para suportar oscilações de 5% ou mais em poucos dias, algo comum em semanas de pesquisa e apuração. E os pós-fixados, com a Selic em 13,75%, seguem oferecendo carrego elevado para a parcela que precisa de liquidez e estabilidade enquanto a volatilidade durar.
A partir de 25 de outubro, data do eventual segundo turno, o mercado deixa de precificar pesquisas e passa a precificar decisões, como o nome escolhido para o Ministério da Fazenda, o desenho do orçamento de 2027 e a primeira sinalização concreta sobre gastos.
Será nesse momento, e não no dia da votação, que o prêmio embutido nos juros longos terá chance real de cair ou de subir de forma duradoura, e quem hoje ajusta a carteira a cada nova pesquisa, pode descobrir que o movimento mais relevante para os seus investimentos ainda nem começou.