1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Indústria Perde Força e Reforça Sinais de uma Economia Que Responde Aos Juros Altos
Forbes Money

Indústria Perde Força e Reforça Sinais de uma Economia Que Responde Aos Juros Altos

Resultado veio abaixo das expectativas, atingiu 16 dos 25 segmentos; economistas afirmam que o impacto da Selic elevada já aparece na indústria e pode alterar o cenário para PIB, inflação e juros

5 min

A desaceleração da economia brasileira ganhou um novo indicador em junho. A produção industrial recuou 1,8% na comparação com maio, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) divulgada pelo IBGE. O desempenho é muito pior do que a queda de 0,8% projetada pelo mercado e a segunda retração consecutiva do setor. Mais do que o tamanho do recuo, foi a abrangência da perda de fôlego que chamou a atenção: 16 das 25 atividades pesquisadas registraram queda, indicando que o enfraquecimento deixou de ser um fenômeno isolado para atingir diferentes segmentos da indústria.

O resultado reforça uma mudança que economistas já vinham antecipando. Depois de meses em que consumo, mercado de trabalho e crédito sustentaram uma atividade mais resiliente do que o esperado, os efeitos da política monetária restritiva começam a aparecer de forma mais clara na economia real. A Selic elevada encarece o financiamento, reduz investimentos, limita o consumo de bens duráveis e diminui o ritmo de produção das empresas.

“A economia brasileira está entrando em uma fase mais clara de desaceleração”, afirma Fabio Louzada, economista, planejador financeiro e fundador da B7 Business School. Segundo ele, o dado é relevante porque confirma que “o efeito dos juros elevados começa a aparecer de maneira mais evidente na atividade, especialmente em setores mais sensíveis ao crédito e à demanda doméstica”.

A leitura vai além do resultado mensal. Embora a produção industrial tenha avançado apenas 0,3% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, praticamente todo esse crescimento veio da indústria extrativa. A indústria de transformação – que concentra a maior parte do emprego e da produção manufatureira – ficou praticamente estagnada, com queda de 0,1% no período.

Na avaliação dos economistas Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, da XP, a composição dos números é mais preocupante do que o indicador agregado sugere. “A produção industrial encerrou o segundo trimestre com surpresas negativas generalizadas”, afirmam. Após o resultado de junho, o setor inicia o terceiro trimestre com um carrego estatístico negativo de 1,5%, o que significa que, mesmo que a produção fique estável nos próximos meses, o trimestre tende a registrar contração na comparação com o anterior.

O comportamento das diferentes categorias também evidencia uma mudança no ciclo econômico. Os bens intermediários, utilizados como insumos por outras indústrias, continuam sendo o principal suporte da produção, com alta de 1,5% no trimestre. Em contrapartida, os bens de consumo recuaram 2,3%, refletindo uma demanda doméstica menos aquecida. O segmento de bens de capital, ligado aos investimentos das empresas, mostrou uma recuperação modesta após um longo período de retração, mas ainda insuficiente para alterar o quadro geral.

Os números de junho reforçam essa heterogeneidade. A indústria automobilística continua sendo uma exceção, com crescimento de 16,5% em relação ao mesmo mês do ano anterior, ainda beneficiada pela recomposição de estoques e pela demanda acumulada. Metalurgia e celulose também apresentaram desempenho positivo.

Na direção oposta, setores mais ligados ao consumo doméstico registraram quedas expressivas. A produção farmacêutica caiu 11% no mês, devolvendo o forte avanço registrado em maio. Vestuário também recuou 11%, enquanto informática e eletrônicos encolheu 8,9%. Produtos químicos, derivados de petróleo e outros equipamentos de transporte completaram a lista das principais retrações.

Para Gabriel Macarini, advisor sênior da Blue3 Investimentos, o diagnóstico é consistente com o ambiente de juros elevados. “Com a Selic em 14,25%, o crédito segue caro, o consumo das famílias está comprimido e as empresas estão produzindo menos porque a demanda não justifica manter o ritmo”, afirma.

O impacto imediato aparece nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB). A XP reduziu sua estimativa para o crescimento da economia no segundo trimestre de 0,47% para 0,40% na comparação com os três meses anteriores, embora tenha mantido a projeção de expansão de 2% para o ano.

Para os mercados financeiros, porém, a desaceleração produz um efeito ambíguo. Uma atividade mais fraca tende a reduzir pressões inflacionárias, fortalecendo a expectativa de cortes na taxa Selic ao longo dos próximos meses. Ao mesmo tempo, um crescimento menor compromete as perspectivas de faturamento e lucro das empresas, especialmente dos setores mais dependentes da demanda doméstica.

Louzada resume esse dilema. “Uma economia mais fraca pode aumentar a pressão por uma flexibilização monetária e favorecer a curva de juros. Por outro lado, uma desaceleração mais intensa reduz as perspectivas de crescimento e pode pesar sobre os lucros das empresas.”

Essa tensão ajuda a explicar a reação do mercado aos dados recentes. Se, há poucos meses, a preocupação era uma economia excessivamente aquecida dificultando o trabalho do Banco Central, agora o debate começa a migrar para a intensidade da desaceleração. O desafio para a autoridade monetária será calibrar o início do ciclo de afrouxamento sem comprometer a convergência da inflação.

Por enquanto, os números sugerem que o remédio dos juros altos começa, enfim, a produzir seus efeitos sobre a atividade. A questão que passa a dominar o mercado já não é se a economia vai desacelerar, mas qual será a velocidade dessa perda de ritmo e até que ponto ela poderá abrir espaço para uma política monetária menos restritiva nos próximos trimestres.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.