O Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, em decisão unânime, no mesmo dia em que o Federal Reserve elevou sua taxa básica para uma banda entre 3,75% e 4%, encerrando uma sequência de cortes.
Dessa forma, enquanto o Brasil devolve juros à economia, os EUA retiram estímulo, nos dando uma fotografia exata de onde estamos no ciclo econômico global e do dilema que o Brasil enfrenta há meses.
Por que o Copom cortou a Selic
A decisão do Copom se respalda nos dados domésticos: a inflação cheia e as medidas subjacentes desaceleraram e já estão abaixo do teto da meta, ainda que acima do centro. As expectativas da pesquisa Focus para 2026 e 2027 seguem em 4,9% e 4,3%, respectivamente, acima da meta de 3%, mas a projeção do próprio Banco Central para o horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, está em 3,2%, o que significa, no cenário de referência do Copom, que a inflação converge para perto do centro da meta daqui a cerca de um ano e meio.
Ao mesmo tempo, a atividade econômica vem perdendo fôlego de forma consistente desde meados do ano passado, principalmente em setores cíclicos, e saímos de um crescimento próximo de 3% para um ritmo abaixo de 1,5%. Assim, em um contexto marcado por alto endividamento das famílias, aumento de pedidos de recuperação judicial e falências, e um governo pressionado pelo custo fiscal de manter juros tão altos por tanto tempo, temos o conjunto que justifica, do ponto de vista técnico, abrir espaço para reduzir os juros mesmo com um ambiente externo desfavorável.
Na prática, o Comitê está pilotando com pouca margem de erro e reconhece que os riscos são assimétricos pendendo para cima: desancoragem das expectativas, resiliência da inflação de serviços, câmbio mais depreciado e estímulos à demanda em ano eleitoral aparecem como os principais vetores de pressão. Do lado de baixo, uma desaceleração doméstica mais forte ou uma queda de commodities poderiam aliviar o quadro.
Por que o Fed subiu juros após três cortes
Nos Estados Unidos o quadro é quase o oposto: a inflação está em 3,4%, acima da meta de 2% há mais de cinco anos, e o mercado de trabalho segue aquecido, portanto, se a demanda não arrefece e os preços continuam altos, o Fed não tem escolha senão subir juros, mesmo sabendo que isso pesa sobre o crescimento.
Aqui vale uma distinção que ajuda a entender por que os dois bancos centrais estão certos ao mesmo tempo. Enquanto o Brasil enfrenta principalmente um choque de oferta que está se dissipando, e uma demanda que já está esfriando, os EUA enfrentam um choque de oferta que persiste, o petróleo caro, e uma demanda ainda aquecida.
Choque de demanda se combate com juros mais altos; choque de oferta não e, por isso, o Brasil tem o primeiro problema resolvendo-se e o segundo sob controle, então corta. Por outro lado, os EUA têm o primeiro problema agravando-se e o segundo fora de controle, então sobe juros.
Como o diferencial de juros pressiona o câmbio e o real
Quando o Brasil reduz juros e os Estados Unidos sobem, o diferencial de juros entre as duas economias diminui, apesar da diferença ainda ser superior a nove pontos percentuais. Esse é o prêmio que o Brasil paga para atrair capital estrangeiro.
Se o Brasil continuar cortando e o Fed continuar subindo, o dinheiro estrangeiro terá cada vez menos motivos para ficar aqui. Quanto menor o prêmio, menor o incentivo para financiar o Brasil, e maior a pressão sobre o câmbio.
Um real mais depreciado encarece importados e insumos, e isso pode realimentar a própria inflação que o Banco Central está tentando controlar. É um problema circular, e é exatamente por isso que o comunicado do Copom volta a citar a política monetária das economias avançadas como fator de cautela.
Some a isso o componente geopolítico: os conflitos no Oriente Médio têm mantido o petróleo pressionado, e o próprio comunicado lista choques de oferta ligados ao petróleo entre os principais riscos de alta para a inflação, já que o Brasil ainda subsidia parte do preço de derivados para conter o repasse ao consumidor, e isso tem um custo fiscal que se soma a um quadro de contas públicas já apertado.
A política fiscal limita o espaço do Copom para cortar mais
Nenhum corte de juros mais consistente se sustenta sem uma mudança na composição da política econômica, e isso passa, inevitavelmente, por credibilidade fiscal. Enquanto o gasto público continuar pressionando as expectativas, o Banco Central terá pouco espaço para reduzir a Selic de forma mais intensa, porque qualquer sinal de descontrole reacende o prêmio de risco embutido nos juros longos.
Vale reforçar, porém, um contraponto ao alarmismo sobre fuga de capitais diante da alta dos juros nos EUA: temos um dos melhores balanços de pagamentos entre emergentes, reservas internacionais robustas e um colchão de liquidez do Tesouro da ordem de R$ 1,35 trilhão, suficiente para cobrir cerca de nove meses de necessidades de financiamento sem emitir uma única unidade de dívida nova. Isso não elimina os riscos, mas contextualiza: o desafio brasileiro é estrutural e fiscal, não uma fragilidade de curto prazo diante de qualquer movimento do Fed.
O que o Copom está dizendo é que o ritmo dos cortes depende não só da inflação, mas do comportamento das contas públicas. Se o governo continuar estimulando a demanda com subsídios e gastos, o Copom terá menos espaço para cortar, porque a inflação de serviços e a desancoragem das expectativas podem voltar. As expectativas de inflação para 2026 e 2027 ainda estão acima da meta, em 4,9% e 4,3%, e é por isso que o Copom mantém a cautela.
Ao meu ver, o que precede uma mudança mais robusta da política monetária é um choque de credibilidade na política fiscal. O Copom pode cortar juros, e está cortando, mas não consegue sustentar cortes maiores enquanto o governo expande gastos e subsídios para conter o preço dos combustíveis. Cada subsídio que evita um impacto inflacionário imediato agrava o buraco fiscal do ano seguinte, e o mercado sabe disso.
O dilema dos juros e os caminhos para o investidor
Decisões como a desta Super Quarta mostram que a política monetária brasileira está numa sinuca. Reduzir a Selic é fundamental para aliviar uma economia em desaceleração, mas cortar demais é arriscado porque o mundo desenvolvido sobe juros, o petróleo está caro e a incerteza fiscal doméstica não dá trégua. O Copom escolheu o meio-termo: cortou a taxa, mas condicionou cada novo passo à evolução dos dados e das contas públicas
Ao meu ver, a lição central para o investidor é não especular sobre a trajetória exata da taxa de juros. O caminho mais sustentável é estruturar uma carteira balanceada que sobreviva à volatilidade dos dois lados: liquidez para aproveitar oportunidades, proteção cambial para quem precisa, e ativos com fundamentos sólidos que não dependam de um cenário político ou monetário específico para gerar valor.
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