Aos 30 anos, Max Van Hoegaerden Herrmann Telles controla uma fortuna de R$ 38,8 bilhões – R$ 9,5 bilhões a mais do que um ano antes – e ocupa a sétima posição entre os maiores bilionários do Brasil em 2026. Em 2025, estava em 11º lugar, com patrimônio estimado em R$ 29,3 bilhões. A ascensão de quatro posições na lista da Forbes Brasil não foi resultado da criação de uma startup, de uma grande aquisição ou de uma aposta bem-sucedida no mercado. Ela reflete algo mais raro: a transferência gradual de uma das maiores fortunas empresariais do país para a próxima geração.
Filho mais novo de Marcel Herrmann Telles, um dos três nomes por trás da 3G Capital, Max vem assumindo participações que pertenciam ao pai, incluindo uma fatia na Anheuser-Busch InBev, a maior cervejaria do mundo e dona de marcas como Budweiser, Stella Artois e Michelob Ultra, além da brasileira Ambev.
O movimento é parte de uma sucessão planejada há décadas. Em 2000, Marcel, Jorge Paulo Lemann e Carlos Alberto Sicupira redigiram um acordo para facilitar a passagem do comando e do patrimônio para seus sucessores. Juntos, os três têm 11 herdeiros. Desde cedo, os filhos foram incorporados, ainda que de maneiras diferentes, a uma espécie de preparação informal para compreender os negócios construídos por seus pais.
Max, no entanto, emerge desse processo como um herdeiro de perfil incomum para alguém que passou a figurar entre os homens mais ricos do país. Discreto, sem exposição pública e praticamente ausente das redes sociais, ele mora em Nova York e mantém um perfil no LinkedIn com poucas conexões e nenhuma publicação. Sua trajetória profissional conhecida também é relativamente curta.
Formado em artes, com minor em economia pela Wake Forest University, nos Estados Unidos, Max teve experiências no mercado financeiro e em consultoria antes de se tornar um dos principais herdeiros da fortuna da família. Entre 2015 e 2016, participou de programas de estágio de verão no Credit Suisse, na área de investment banking, e na Falconi Consultants. Depois, passou pelo programa global de trainees da AB InBev, em Saint Louis, nos Estados Unidos.
A experiência na cervejaria ilustra uma regra peculiar criada pelos fundadores da 3G para seus próprios descendentes: os herdeiros podem trabalhar como trainees em empresas do grupo por até um ano, sem precisar passar pelo processo seletivo convencional. O acesso à companhia, portanto, não significava automaticamente uma carreira executiva ou um lugar no comando.
Depois da passagem pela AB InBev, Max seguiu para o mercado financeiro. Trabalhou como analista financeiro na BTG Pactual Asset Management entre setembro de 2019 e abril de 2022, com atuação nos escritórios da gestora em Londres e Nova York. Desde então, sua vida profissional tem sido mantida longe dos holofotes.
A transferência das ações da AB InBev, porém, colocou seu nome no centro de uma mudança estrutural. Marcel Telles, hoje com 76 anos, construiu, ao lado de Lemann e Sicupira, um dos mais bem-sucedidos impérios empresariais já formados no Brasil. A trajetória começou no antigo Banco Garantia, passou pela aquisição da Brahma no fim dos anos 1980 e culminou na criação da Ambev, em 1999. Uma série de fusões e aquisições transformaria o negócio na AB InBev, gigante global da cerveja.
Dos três sócios, Marcel foi justamente o que passou mais tempo diretamente ligado à operação das cervejarias. Por isso, a transferência de sua participação para Max tem um peso que vai além de uma simples reorganização patrimonial. Representa a passagem, ao menos formal, de parte de uma das participações mais emblemáticas da história da 3G para a geração seguinte.
A sucessão era esperada pelo mercado, embora seu ritmo tenha ganhado nova atenção nos últimos anos. As crises envolvendo Americanas e Light aumentaram a exposição pública de Marcel, levando investidores e gestores a acompanhar mais de perto a reorganização de seus ativos. Alguns profissionais do mercado levantaram, à época, a possibilidade de que a transferência pudesse preservar para o patriarca algum grau de influência econômica ou decisória sobre os ativos, mesmo com a mudança formal da titularidade.
A AB InBev não foi o primeiro ativo transferido aos filhos. Em 2017, Marcel doou participações na São Carlos Empreendimentos e Participações, companhia do setor imobiliário, a Max e ao irmão mais velho, Christian. Lemann e Sicupira também realizaram transferências de ações da empresa para familiares naquele período.
Os dois irmãos, no entanto, parecem seguir caminhos bastante diferentes em termos de exposição. Christian, que também recebeu participações da família, construiu um currículo mais visível no universo de tecnologia e venture capital. Atualmente, é sócio da Expanding Capital, firma sediada na Califórnia, e mantém uma presença mais ativa nas redes sociais. Seu histórico inclui startups, uma passagem como trainee pela Ambev e um estágio na própria 3G Capital.
Max preferiu o caminho oposto. Seu nome aparece pouco, suas manifestações públicas são praticamente inexistentes e sua trajetória não indica, ao menos por enquanto, a intenção de reproduzir o papel executivo desempenhado por seu pai. Isso ajuda a explicar por que sua entrada entre os grandes bilionários brasileiros, em 2024, chamou atenção: um dos maiores patrimônios do país passou a estar associado a um homem que a maior parte do mercado pouco conhecia.
Em apenas dois anos, esse patrimônio cresceu em relevância suficiente para levá-lo ao sétimo lugar da lista de bilionários brasileiros da Forbes Brasil. A fortuna estimada em R$ 38,8 bilhões o coloca à frente de empresários que passaram décadas construindo negócios próprios.
Receber um patrimônio é diferente de assumir o legado que o produziu. A geração de Marcel Telles, Lemann e Sicupira construiu sua reputação sobre uma combinação de meritocracia extrema, disciplina de custos, metas agressivas e uma capacidade singular de comprar empresas e transformá-las em gigantes globais. A próxima geração não terá necessariamente de repetir esse modelo. Mas terá de decidir o que fazer com o capital, a influência e a responsabilidade que recebeu.
Por enquanto, Max parece representar uma nova versão do herdeiro bilionário: jovem, internacional e treinado em algumas das principais instituições financeiras e empresas do ecossistema construído pela própria família, mas deliberadamente distante da exposição pública.
Sua subida de 11º para 7º lugar na lista deste ano revela uma mudança importante. Max não é mais apenas o filho mais novo de Marcel Herrmann Telles. Aos 30 anos, tornou-se um dos principais rostos da sucessão de uma dinastia que ajudou a redefinir o capitalismo brasileiro, mesmo que ele prefira, por enquanto, permanecer fora dos holofotes.
Metodologia
A lista Forbes Bilionários Brasileiros considera várias fontes para apontar que alguém atingiu a fortuna de R$ 1 bilhão ou mais. A informação mais importante são as ações listadas em bolsa, com base na cotação de fechamento de 30 de junho de 2026. Além de públicos, esses dados são oficiais e auditados. Uma vez que a lista considera apenas as informações públicas, os patrimônios podem estar subestimados. Na maioria dos casos não são considerados itens como imóveis, obras de arte, aviões ou embarcações, exceto se o participante da lista concordar em fornecer dados confiáveis sobre eles. Dependendo do caso, o patrimônio de irmãos ou familiares pode ser consolidado ou separado. Sugestões e observações, escreva para [email protected]