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“Não Tem Fórmula Mágica”; após Vender Care Beauty À Granado, Patrícia Camargo Mira Novos Negócios

Com faturamento de R$ 70 milhões, a advogada que apostou no empreendedorismo consolida sua marca pessoal como conselheira, professora e investidora

10 min

No fim de 2024, Patrícia Camargo viveu dois acontecimentos simultâneos que mudaram a sua vida. Enquanto concluía a venda da CARE Natural Beauty para o Grupo Granado, empresa que havia criado do zero e levado a R$ 70 milhões em faturamento anual, recebeu o diagnóstico de um câncer de ovário agressivo.

“Hoje em dia, com acesso à internet, a gente tem visto muitos gurus dentro do mercado e, muitas vezes, pessoas que não necessariamente construíram negócio. E não tem fórmula mágica.” A CARE, segundo ela, ensinou o contrário, pois empresas são construídas em processos repetidos diariamente, com escolhas que mudam conforme o negócio amadurece.

A estratégia da marca foi aproveitar a estrutura e a experiência acumuladas pelo Grupo Granado no exterior para levar a CARE à Europa e, posteriormente, aos Estados Unidos. A expansão se soma à entrada em novas categorias de produtos e ao crescimento do varejo próprio, movimentos que as fundadoras, Patrícia e Luciana Navarro consideravam difíceis de executar na mesma velocidade antes da venda.

Foto: Getty Images; Criada a partir de um investimento próprio das fundadoras, a CARE cresceu com foco no clean beauty

E, foi durante as negociações que a história da empresa ganhou um significado ainda mais pessoal para Patrícia.Ao chegar ao hospital para iniciar o tratamento com a quimioterapia, recebeu o protocolo com orientações sobre produtos que poderiam ser utilizados naquele período. Entre as marcas recomendadas estava a CARE.

“Meu oncologista falou: ‘Nossa, você está chorando, está tudo bem, você vai ficar bem’. E eu falei: ‘Estou emocionada porque há mais de nove anos eu estava conversando com a minha sócia que a gente queria montar uma marca para que pessoas que passassem por esse tipo de tratamento pudessem usar’”, conta.

Naquele momento, Patrícia decidiu que enfrentaria uma das etapas mais difíceis de sua vida sem abrir mão de um símbolo que a acompanhava. “Eu entendo que vou passar por esse tratamento, vou perder o cabelo, mas eu não vou perder meu batom vermelho.”

Mas, a história que culminou naquele M&A começou muito antes e com alguém que, curiosamente, nunca havia planejado ser empreendedora.

“Eu nunca pensei em empreender”

Advogada de formação, Patrícia passou mais de 20 anos concentrada na carreira executiva e no Direito Empresarial, com forte atuação em fusões e aquisições (M&A). Seu último cargo antes de mudar de trajetória foi o de diretora corporativa de uma multinacional.

“Eu nunca pensei em empreender. Eu sempre amei o direito e amo até hoje. Acho que a minha formação me trouxe bases muito importantes”, afirma.

A mudança começou a ganhar forma entre 2014 e 2015. Apaixonada pelo mercado de beleza e vivendo um momento em que se preparava para engravidar, Patrícia começou a prestar mais atenção aos ingredientes presentes nos alimentos e cosméticos que consumia.

Foi quando conheceu mais profundamente o conceito declean beauty (beleza limpa, conceito que prioriza cosméticos formulados com critérios de segurança, transparência de ingredientes e menor impacto ambiental), que já ganhava espaço nos Estados Unidos e na Europa, mas ainda tinha presença limitada no mercado brasileiro.

Foto: Getty Images; A venda ao Grupo Granado marcou um novo capítulo para a marca, com expansão no varejo físico

O mercado global de clean beauty movimentou US$ 10,5 bilhões no ano passado e deve atingir US$ 35,3 bilhões até 2033, segundo projeção da Grand View Research.

“Eu descobri nesse nichoum lugar onde beleza e saúde estavam muito aliadas. E aí veio esse desejo por empreender.” A ideia ganhou uma dimensão concreta quando Patrícia se aproximou de Luciana, amiga de infância de seu marido. Luciana havia acabado de passar por um tratamento de quimioterapia e, segundo Patrícia, recorria a produtos internacionais diante da dificuldade de encontrar no Brasil cosméticos adequados às recomendações recebidas durante o tratamento.

Em uma conversa, Patrícia contou que estava insatisfeita profissionalmente, apesar de continuar apaixonada pelo segmento de beleza. Luciana respondeu com uma pergunta: “Vamos montar uma marca?”

Construção de um império

Elas foram. Em 2017, aos 32 anos, Patrícia pediu demissão e Luciana deixou a sociedade na empresa demarketingem que atuava. Antes de colocar os primeiros produtos no mercado, passaram quase um ano e meio estruturando o negócio. A dupla viajou pela Ásia, Europa e Estados Unidos para estudar o mercado, encontrar fornecedores e desenhar o plano estratégico.

Também reuniram dermatologistas e maquiadores para participar do desenvolvimento de formulações proprietárias. Depois de todo esse processo, a CARE chegou ao mercado em 2018. Patrícia afirma que ela e Luciana utilizaram suas experiências corporativas para criar processos, governança e uma cultura empresarial antes mesmo da companhia atingir escala. De acordo com Patrícia, a ambição por trás disso era construir algo que pudesse existir para além das próprias fundadoras.

“A gente sempre mirou na CARE como sendo algo que gostaria de deixar legado, para além da Patrícia e da Luciana. O grande objetivo era que a marca promovesse uma transformação dentro do mercado de beleza e que ela se perpetuasse.”

As fundadoras começaram o negócio com R$ 1 milhão de recursos próprios — R$ 500 mil aportados por cada uma. Entre 2021 e 2022, receberam um investimento de R$ 7 milhões do fundo Órder. Segundo Patrícia, a companhia já haviaalcançado o equilíbrio financeiro em 2020, quando as receitas passaram a cobrir os custos da operação, e, depois da rodada, seguiu financiando o negócio com recursos gerados pela própria empresa.

“Ela sempre foi uma empresa muito rentável”, comenta. “A gente fala que uma empresa é sustentável, mas ela também precisa se sustentar financeiramente.” Para Patrícia, caixa e rentabilidade não são apenas indicadores contábeis. Eles também mudam a posição de uma empresa diante de investidores e potenciais compradores. “Se sustentar financeiramente faz com que você consiga ter poder de negociação e tomar melhores decisões.”

Por que vender uma empresa que dava lucro?

À medida que a CARE crescia, as fundadoras passaram a compreender que alcançar a escala que imaginavam para a marca poderia exigir uma estrutura maior do que aquela que elas próprias conseguiriam construir. No início, vender a companhia não fazia parte do plano.

“A gente nunca pensou na CARE como uma marca que fosse ficar pequena, do tamanho que só ficasse para mim e para a Lu, mas também nunca imaginou que, de repente, a gente não estaria mais tão próxima.”

A percepção mudou conforme as duas passaram a observar como os grandes grupos de cosméticos operavam e quais estruturas seriam necessárias para colocar a marca em outro patamar. “Para a CARE ocupar o espaço de relevância que a gente sonhou para ela, a gente precisaria não estar no negócio, porque precisaria passar o nosso negócio para um grande grupo.”

Antes do acordo definitivo, outros interessados fizeram propostas. Patrícia afirma que os valores financeiros eram muito semelhantes. O nome do comprador, portanto, não foi decidido apenas pelo cheque.

“Quando a gente olha do ponto de vista de valores, de sinergia, sem sombra de dúvidas, a Granado era o grupo que mais fazia sentido. Eles nunca quiseram colocar a marca como uma marca coadjuvante dentro do grupo. A CARE ocupou um lugar de protagonismo muito relevante. Para além dos valores financeiros, que sem sombra de dúvidas foram excelentes, acho que foi umdealganha-ganha.”

Novo capítulo

Depois da venda da empresa, Patrícia descobriu que o fim de um ciclo também poderia marcar o início de outro.“No dia seguinte, eu recebi muitas propostas de empreendedoras que passam por esse momento, que estão vivendo esse ‘o que fazer com a empresa daqui para frente?’”

Algumas já haviam recebido uma primeira rodada de investimento. Outras se preparavam para captar. Havia também fundadoras tentando entender se deveriam continuar no comando, buscar capital ou preparar a companhia para uma venda. Patrícia percebeu que a própria trajetória havia se transformado em um ativo. “Quando você começa uma jornada empreendedora 100% com capital próprio, sendo mulher, e consegue realmente vender a empresa, acho que acaba se tornando referência dentro do mercado de empreendedorismo”, ressalta.

Inicialmente, ela ainda não sabia como transformar essa experiência em uma nova carreira. Poderia investir, mentorar, participar de conselhos, entre outras atividades. “Eu sempre tive muitas portas abertas, muitas mulheres me apoiaram para que a CARE conseguisse chegar onde chegou. E eu entendi que queria ser essa mulher.”

Foto: Divulgação CARE; Após a venda da, Patrícia iniciou uma nova fase como investidora, professora e conselheira

O primeiro passo dessa nova fase veio como investidora-anjo. Patrícia aportou na Café por Elas, negócio de cafés especiais criado por duas irmãs. “Quero crescer o meu nome dentro do mercado de investidora de outros negócios que tenham propósito e que tenham potencial de escala.”

Outra frente surgiu na sala de aula. Patrícia foi convidada para lecionar Varejo na Link School of Business, em São Paulo, e está entrando em seu segundo semestre como professora. “Eu sou muito apaixonada pelo varejo”, afirma. “Essa minha matéria é para trazer o quanto existe potência dentro do nicho, não só pela história da CARE, mas por tantas outras histórias em que a gente consegue olhar para grandes transformações no mercado.”

Ela ainda passou a ocupar conselhos de empresas menores, entre elas a Muskinha, de mobiliário infantil, e a Ava, de loungewear, além de atuar como mentora de empreendedoras.

A cláusula denon-compete (sem competitividade)negociada no M&A impede as fundadoras de empreender ou aconselhar negócios nas áreas de beleza ewellness. Fora desses segmentos, porém, Patrícia diz ter liberdade para investir, aconselhar e eventualmente voltar a empreender. É nesse espaço que ela pretende construir algo que chama de “marca Patrícia”.

Patrícia também evita tratar o M&A como destino obrigatório de todo empreendedor. Uma empresa pode ser vendida, permanecer nas mãos do fundador, crescer até determinado tamanho ou simplesmente ser rentável sem a ambição de se tornar gigante. “Quando a gente fala em empreendedorismo, são infinitas as possibilidades.”

O ponto em comum, na visão dela, está na estrutura construída antes de qualquer decisão. “Seja qual for o tamanho que você deseja para sua empresa, é importante trabalhar com processos claros, ter governança e conseguir fazer uma gestão adequada. O meu grande objetivo é construir o meu nome, a minha marca, abrindo espaço para que outras mulheres consigam construir as suas empresas”, conclui Patrícia Camargo.

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