O volume de serviços no Brasil ficou estável em julho na comparação com junho, confirmando a perda de fôlego de um setor que ainda opera próximo do maior nível de sua história. O resultado veio após uma alta de 0,1% em junho e uma queda de 0,2% em maio, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada pelo IBGE, nesta quinta-feira, 10.
Em relação a julho de 2025, o setor, que é o maior do PIB, cresceu 0,9%, no 28º resultado positivo consecutivo. A expansão acumulada entre janeiro e julho foi de 1,9%. Em 12 meses, porém, o avanço desacelerou de 2,6% em junho para 2,4% em julho.
Para Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, assessoria de investimentos, esse é o dado mais relevante da pesquisa, por confirmar uma tendência de desaceleração que se mantém há três trimestres.
Ainda assim, a perda de velocidade ocorre a partir de uma base elevada. O volume de serviços está 20% acima do nível registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia, e apenas 0,2% abaixo do recorde da série histórica, alcançado em outubro de 2025.
“Ou seja, a desaceleração ocorre a partir de um patamar elevado”, afirma Saadia. Na avaliação do economista, o movimento é compatível com uma fase de maturação do ciclo econômico, depois da desaceleração já observada no setor de bens.
André Valério, economista sênior do Inter, também vê sinais de perda de ritmo. “O volume de serviços ficou estável em julho, terceiro mês consecutivo de resultados fracos”, afirma. O crescimento acumulado em 12 meses, destacou, foi o menor desde setembro de 2024.
A média móvel trimestral também desacelerou. De acordo com a ASA, o indicador passou de uma alta de 0,4% em junho para 0,3% em julho.
Tecnologia perde força
A principal surpresa veio dos serviços de informação e comunicação, única das cinco grandes atividades pesquisadas pelo IBGE a registrar queda no mês. O volume recuou 2,5% em julho e devolveu parte da alta de 3,3% acumulada entre abril e junho.
Na margem, informação e comunicação havia avançado 2,2% em junho. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a expansão havia sido de 9,5%.
Dentro dessa categoria, os serviços de tecnologia da informação caíram 3% em julho, depois de crescerem 2,7% em junho. O segmento, no entanto, ainda acumula alta de 9,2% no ano e de 10,3% em 12 meses.
Informação e comunicação continua sendo a atividade com o melhor desempenho em 2026, com avanço de 6,5% entre janeiro e julho. Segundo Valério, apenas os serviços de tecnologia da informação responderam por cerca de dois terços do crescimento total do setor de serviços no período.
Para o economista do Inter, essa concentração revela a dependência do índice em relação à tecnologia. O segmento exige menos investimentos em ativos físicos, tende a ser menos sensível aos juros e mantém uma relação mais próxima com o ciclo econômico internacional.
Saadia avalia que a queda de informação e comunicação também amplia o alcance da desaceleração. Para ele, o resultado mostra que a perda de ritmo não está restrita aos serviços ligados diretamente ao consumo das famílias, mas também alcança o segmento corporativo.
Mesmo com o recuo mensal, informação e comunicação avançou 4,6% em relação a julho de 2025. O resultado foi impulsionado por telecomunicações, desenvolvimento de programas de computador, tratamento de dados, hospedagem na internet e licenciamento de softwares.
Quatro atividades avançam
Apesar da estabilidade do indicador agregado, quatro das cinco atividades pesquisadas cresceram em julho. Os serviços profissionais, administrativos e complementares avançaram 0,6%, recuperando parte da queda de 1,3% registrada em junho.
Os transportes subiram 0,4%, após ficarem estáveis no mês anterior. Outros serviços cresceram 0,7%, enquanto os serviços prestados às famílias tiveram alta de 0,5%.
Na avaliação da ASA, o desempenho dos serviços profissionais e administrativos foi impulsionado pelo agenciamento de publicidade e pelas plataformas de comércio eletrônico. Entre os serviços prestados às famílias, restaurantes e locação de automóveis estiveram entre os principais motores.
Saadia associa parte do crescimento dos serviços às famílias ao aumento da alimentação fora do lar, incluindo restaurantes, catering e bufês, durante as férias escolares. Por esse motivo, considera o movimento um repique pontual, e não um sinal de retomada consistente.
Valério também avalia que os resultados positivos de quatro atividades representam principalmente uma recomposição de perdas anteriores. “Ainda vemos sinais de arrefecimento na dinâmica do setor como um todo, reflexo da política monetária contracionista”, afirma.
O quadro regional reforçou a leitura de perda de força. O volume de serviços caiu em 14 das 27 unidades da federação na passagem de junho para julho. São Paulo exerceu a maior pressão negativa, com recuo de 0,8%, seguido pelo Rio de Janeiro, com queda de 0,7%.
Na direção oposta, o Rio Grande do Sul avançou 3%. Bahia e Paraná cresceram 3,2% e 1,9%, respectivamente.
O que esperar nos próximos meses
Para Leonardo Costa, economista do ASA, instituição financeira de Alberto Safra, o resultado de julho ficou abaixo do esperado e aponta para uma segunda metade do ano mais fraca.
“O quadro segue apontando para atividade mais fraca na segunda metade de 2026, apontando para continuidade da desaceleração gradual”, afirma. O ASA projeta crescimento de 0,2% para o Produto Interno Bruto no terceiro trimestre.
O Inter também espera que a moderação da economia continue nos próximos meses e avance por 2027. Para Valério, os indicadores recentes de atividade convergem para uma perda de ritmo, o que pode permitir ao Banco Central prosseguir com a redução da Selic.
O banco prevê um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro e novas reduções nas reuniões seguintes. A projeção do Inter é que a taxa básica de juros termine dezembro em 13,25% ao ano.