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Bahia Cresce, Mas o Que Ainda Trava a 7ª Maior Economia do País?

Sétima maior economia do país movimentou R$ 536,7 bilhões em 2025, mas ainda enfrenta desafios em indústria, renda, emprego e infraestrutura

14 min

Conhecida por seus destinos paradisíacos e patrimônios históricos, a Bahia é a sétima maior economia do Brasil. O Produto Interno Bruto (PIB) baiano cresceu2,7% em 2025. Em valores, a Bahia movimentouR$ 536,7 bilhões, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Do total do valor adicionado no estado, R$ 307,1 bilhões vieram dos serviços, R$ 115,8 bilhões da indústria e R$ 53 bilhões da agropecuária.

No ano, a agropecuária cresceu 10,3%, a indústria, 2,9%, e os serviços, 1,7%, de acordo com a SEI.

Os números revelam uma economia robusta, mas também expõem desigualdades entre os setores e desafios que ainda limitam o avanço da atividade. Para o economista e professor universitário, especializado no mercado local, Antônio Carvalho, entrevistado pela Forbes Brasil, um dos obstáculos é ampliar a presença de atividades industriais e de segmentos capazes de movimentar cadeias econômicas mais extensas.

“Talvez o primeiro fator seja a ausência de uma atividade muito grande para a indústria e setores mais intensivos em atividade econômica”, afirma. Na avaliação do economista, ainda não se percebe uma política forte de atração de empresas, principalmente de indústrias e de segmentos mais intensivos em atividade econômica.

Em 2025, a produção física da indústria baiana cresceu apenas0,3%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisada pela SEI.

Salvador: infraestrutura logística é um dos desafios para ampliar a competitividade

Das 11 atividades pesquisadas, somente quatro apresentaram crescimento. Derivados de petróleo avançaram 5,1%; máquinas, aparelhos e materiais elétricos, 11,5%; produtos de minerais não metálicos, 5,5%; e celulose, papel e produtos de papel, 1%. No sentido contrário, produtos químicos recuaram 8,2%, enquanto couro, artigos para viagem e calçados tiveram queda de 12,3%.

Um dos investimentos industriais de maior visibilidade dos últimos anos é o complexo da BYD em Camaçari. Em dezembro de 2025, menos de dois meses depois da inauguração da fábrica, a unidade havia ultrapassado2 mil trabalhadores, de acordo com informações da companhia divulgadas pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia.

No entanto, Carvalho explica que grandes aportes nem sempre se traduzem em oportunidades de maior qualificação para a população local. Segundo o especialista, nesses empreendimentos, uma questão é a ocupação de postos mais especializados por profissionais trazidos de outras localidades, enquanto trabalhadores locais, geralmente, ficam concentrados em funções de menor remuneração.

Em 2024,10,8% dos baianos com 15 anos ou mais eram analfabetos, de acordo com a PNAD Contínua do IBGE, mais que o dobro da taxa brasileira daquele ano, de 5,3%. Em 2025, a taxa nacional caiu para 4,9%.

Informalidade e renda desafiam a Bahia

No ano passado, a Bahia criou94.380 empregos com carteira assinada, segundo o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, sistematizado pela SEI. O resultado superou o de 2024 e representou aumento de 4,41% no estoque de vínculos.

A melhora também aparece no desemprego. Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, a taxa média anual de desocupação da Bahia caiu para8,7% em 2025, o menor patamar da série histórica do estado, iniciada em 2012. Ainda assim, permaneceu acima da média brasileira, de 5,6%.

Em 2025,52,8% da população ocupada na Bahia estava na informalidade, segundo o IBGE. Foi a terceira maior taxa entre os estados, atrás apenas de Maranhão, com 58,7%, e Pará, com 58,5%. A média brasileira ficou em 38,1%.

O problema é que indicadores como esses podem limitar o crescimento econômico, de acordo com o o economista que acompanha o mercado baiano, Cássio Besarria. “Trabalhadores e pequenos negócios informais tendem a enfrentar maiores obstáculos de acesso ao crédito e aos instrumentos financeiros necessários para investir, incorporar tecnologias e ampliar suas atividades”, comenta Besarria. Segundo ele, a falta de formalização pode dificultar a participação de empresas em cadeias produtivas mais complexas e restringir sua capacidade de alcançar mercados de outros estados ou do exterior.

Turismo cresce acima da média nacional, mas ainda tem potencial a explorar

Há ainda consequências para as contas públicas. “Uma base econômica com elevada informalidade reduz o universo alcançado pela tributação formal e pode limitar recursos disponíveis para investimentos públicos em áreas que influenciam a produtividade, como infraestrutura, educação e qualificação profissional”, diz Besarria.

Outro aspecto está relacionado à renda. Em 2025, orendimento nominal mensal domiciliar per capita da Bahia foi de R$ 1.465, segundo o IBGE. O resultado ficou abaixo da média brasileira, deR$ 2.316. Também, orendimento real habitual médio de todos os trabalhos foi de R$ 2.284 na Bahia no ano passado, segundo o IBGE. Esse foi o segundo menor, à frente apenas do Maranhão, com R$ 2.228 — a média brasileira alcançou R$ 3.560.

“Você tem uma população majoritariamente empobrecida com o poder de compra mais baixo e, quando a inflação sobe, esse poder de compra se torna ainda menor”, afirma Carvalho.

Infraestrutura logística limita a competitividade

Mais um obstáculo para o estado é o transporte de pessoas, matérias-primas e mercadorias de maneira eficiente. “O segundo limitador é o logístico”, afirma Carvalho. Para ele, a Bahia reproduz um problema nacional de deficiência de infraestrutura viária e de integração entre diferentes modais de transporte.

O economista chama atenção principalmente para as dificuldades de acesso a Salvador e os impactos sobre empresas de logística e exportadores. Isso porque a capital depende muito do transporte rodoviário para a movimentação terrestre de cargas.

A BR-324, principal corredor rodoviário entre Salvador e Feira de Santana, tornou-se um dos símbolos dos gargalos de infraestrutura da Bahia. Quando o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) assumiu o trecho, em maio de 2025, a maior parte da extensão entre as duas cidades estava classificada em condiçõesregular, ruim ou péssima, de acordo com o Índice de Condição da Manutenção (ICM) do órgão, conforme levantamento citado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Desde então, a rodovia passou por intervenções. Em junho de 2026, o mesmo indicador apontava que o trecho se encontravamajoritariamente em boas condições, de acordo com o TCU. Ainda assim, problemas estruturais continuam exigindo obras. Em julho, por exemplo, o DNIT precisou interditar parcialmente o km 604, em Simões Filho, após identificartrincas e afundamento na pista provocados por falha estrutural em um antigo bueiro, comprometendo a estabilidade das faixas de rolamento.

Bahia busca transformar vantagens econômicas em crescimento de longo prazo

A Bahia possui em torno de 7,4 mil quilômetros de rodovias federais sob responsabilidade do DNIT, a maior malha do país administrada pelo órgão. Ao fim de 2025, 74% dessa extensão estava classificada em boas condições de trafegabilidade. No mesmo ano, aproximadamente R$ 865,6 milhões foram destinados a melhorias nas rodovias federais baianas.

Além das rodovias, há a infraestrutura portuária. Carvalho afirma que os gargalos não terminam quando a carga chega à capital. O economista relata limitações no acesso ao Porto de Salvador e episódios de formação de filas de caminhões à espera das operações de carga e descarga. Na avaliação do especialista, quando dificuldades portuárias se somam às deficiências rodoviárias e à limitada integração ferroviária, o sistema logístico se torna mais oneroso, podendo elevar custos e reduzir a competitividade das empresas instaladas no estado.

A Bahia conta comtrês portos públicos administrados pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba): Salvador, Aratu-Candeias e Ilhéus, além dos Terminais de Uso Privado (TUPs) que complementam a estrutura. Salvador se destaca na movimentação de contêineres e cargas gerais; Aratu-Candeias atende cadeias petroquímica, química, siderúrgica e de fertilizantes; e Ilhéus possui importância para o escoamento de produtos do interior.

OPorto de Salvador é um dos principais terminais de contêineres e carga geral do Nordestee mantém operações regulares de comércio exterior, incluindo uma rota semanal com a China. Entre janeiro e agosto de 2026, o terminal movimentou5,06 milhões de toneladas, volume 14,15% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo a Codeba. Apenas em agosto foram 666,8 mil toneladas.

Distâncias desafiam a força do agronegócio

A dependência do transporte rodoviário ganha ainda mais importância quando se considera a distância entre as grandes áreas produtoras do oeste baiano e o litoral. Carvalho cita a cidade de Luís Eduardo Magalhães, um dos principais polos do agronegócio regional, localizado a mais de 900 quilômetros de Salvador.

De acordo com os especialistas consultados pela Forbes Brasil, transportar grandes volumes de grãos por distâncias extensas só por rodovias pode aumentar custos e reduzir a eficiência logística.

Em 2025, o agronegócio movimentouR$ 118,4 bilhões e respondeu por 22,1% da economia baiana, de acordo com a SEI. Em termos reais, descontado o efeito dos preços, o PIB do agronegócio cresceu 4%. A produção de grãos avançou 10,8%, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) utilizados pela SEI. As colheitas de algodão e soja aumentaram 16,3% e 16,5%, respectivamente.

Conectividade aérea ainda é desigual

O transporte aéreo representa outro desafio da logística baiana. Carvalho destaca a concentração dos voos no aeroporto de Salvador e a dificuldade de estabelecer conexões regulares em cidades relevantes do interior.

A capital funciona como a principal porta aérea do estado, enquanto Porto Seguro, Ilhéus e Vitória da Conquista também concentram parcela da movimentação. Feira de Santana, apesar de sua importância econômica e populacional, enfrenta historicamente dificuldades para sustentar operações comerciais regulares.

Transporte aéreo também é um desafio da economia baiana

Segundo Carvalho, quando um passageiro precisa seguir para outro estado ou realizar uma conexão internacional, muitas vezes é economicamente mais vantajoso viajar até Salvador por terra e embarcar da capital, reduzindo a demanda necessária para manter determinadas rotas no interior. “Às vezes o preço da passagem não vale a pena, é melhor você chegar logo até Salvador para pegar um voo”, afirma.

Na avaliação do economista, uma rede aérea mais integrada facilitaria tanto a circulação dentro do território baiano quanto a chegada de visitantes a destinos fora dos principais corredores turísticos.

Potencial no turismo

Já o turismo representa um setor cujo potencial ainda pode ser mais explorado. “A Bahia tem um turismo abundante, sem dúvida nenhuma.É a atividade mais significativa da economia do estado“, afirma Carvalho.

Carvalho associa a força do nicho à diversidade de atrativos, citando o extenso litoral (o maior do Brasil), as praias, a Chapada Diamantina e o patrimônio histórico e arquitetônico como ativos capazes de atrair diferentes perfis de visitantes.

“O turismo é uma atividade estratégica para a Bahia porque gera emprego, renda e arrecadação e movimenta uma cadeia ampla, que envolve hotelaria, restaurantes, transporte, comércio, cultura e entretenimento”, comenta Basarrio.

No ano passado, o volume das atividades turísticas da Bahia cresceu6,6%, contra4,6% no Brasil, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE, analisada pela SEI. Foi o terceiro ano consecutivo em que o turismo baiano avançou acima da média nacional. Em 2024, as taxas foram de 8,4% na Bahia e 3,6% no país; em 2023, de 11,4% e 7%, respectivamente.

Os aeroportos de Salvador, Porto Seguro, Ilhéus e Vitória da Conquista movimentaram juntos cerca de11 milhões de passageiros em 2025, alta de 5,8% em relação ao ano anterior, segundo a SEI. Salvador registrou crescimento de 4,5%, enquanto Porto Seguro avançou 14,4%.

O turismo internacional também atingiu números positivos: 211.539 visitantes estrangeiros entraram no Brasil pela Bahia em 2025, alta de 47,3% sobre 2024, de acordo com dados da Embratur e da Polícia Federal divulgados pela Secretaria de Turismo da Bahia. O estado respondeu por 43,7% das entradas internacionais registradas no Nordeste nesse levantamento.

Apesar do avanço, Carvalho considera que o potencial turístico poderia ser mais bem aproveitado se o patrimônio histórico estivesse em melhores condições de conservação.

A Bahia tem o maior litoral do Brasil, com mais de 1.100 quilômetros de extensão

Ao falar do Centro Histórico de Salvador, o economista cita imóveis deteriorados e lembra o desabamento ocorrido em uma igreja. “Parte grande do patrimônio arquitetônico da Bahia está em estado de conservação muito precário“, comenta.

Em fevereiro de 2025, parte do forro do teto da Igreja de São Francisco de Assis, no Centro Histórico de Salvador, desabou.Uma pessoa morreu e outras seis ficaram feridas, segundo o Ministério da Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O instituto informou que havia emitido, em março de 2022, auto de infração ao proprietário do imóvel devido à degradação por falta de manutenção e conservação.

De acordo com Basarria, entre os desafios do setor, “destaca-se a necessidade de um crescimento mais equilibrado, que seja melhor distribuído pelo território e se traduza em empregos de maior qualidade e maior renda.”

Vantagens baianas

Em meio aos gargalos estruturais, a transição energética é uma das principais oportunidades para atrair investimentos, diversificar a atividade produtiva e estimular o desenvolvimento econômico do interior. As condições naturais colocaram a Bahia em posição de destaque nacional, especialmente na geração eólica e solar.

“A Bahia é um estado com um potencial energético muito bom”, afirma Carvalho. Ele ressalta tanto a incidência solar quanto as condições favoráveis de vento encontradas principalmente no interior.

Energia renovável abre novas frentes de investimento no estado

No acumulado de 12 meses encerrado em setembro de 2025, a Bahia respondeu pormais de 35% da geração eólica brasileira, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) compilados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Somados, Bahia e Rio Grande do Norte concentraram 64% da geração eólica nacional no período. De acordo com a ANEEL, são cerca de 11,8 GW de energia eólica e 2,97 GW de solar fotovoltaica, com aproximadamente 21 GW de capacidade instalada, sendo 99% da geração elétrica proveniente de fontes renováveis.

Para Carvalho, o avanço das fontes renováveis pode produzir efeitos econômicos que vão além da geração de eletricidade. “Você atrai investimentos estrangeiros, gera emprego nas regiões e acaba contribuindo com a geração de uma energia limpa”, diz.

“Além da geração de energia, já existem projetos de industrialização, como o de metanol e amônia verdes, que prevê R$ 5,4 bilhões para a unidade industrial e R$ 3,6 bilhões para geração solar”, afirma o economista Cássio Basarrio.

O problema é fazer com que a expansão desses projetos produza efeitos mais amplos sobre as economias locais, estimulando fornecedores e serviços, criando empregos qualificados e favorecendo novas atividades industriais associadas à cadeia energética.

Longo prazo

Olhando para os próximos anos, Carvalho afirma que o estado precisa avançar principalmente nos investimentos estruturais.

“O estado precisaria investir em macroestrutura, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, para tornar o estado mais viável do ponto de vista de operações”, aponta o professor. Para ele, uma infraestrutura melhor permitiria receber empreendimentos de maior porte e facilitar a movimentação de pessoas e cargas.

O desafio, segundos os especialistas consultados pela Forbes Brasil, é fazer com que o crescimento de setores como agronegócio, turismo e energias renováveis produza geração de valor dentro da própria economia baiana.

Isso significa ampliar a industrialização, estimular tecnologia, qualificar trabalhadores, reduzir a informalidade e criar condições para que uma parcela maior do valor gerado permaneça no estado na forma de salários.

“Tem que ter melhoria na infraestrutura e redução nos custos de transporte (rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e infraestrutura digital); programas de formalização, buscando uma melhora nos indicadores de informalidade; educação e qualificação profissional, ou seja, não apenas ampliar escolaridade, mas aproximar a formação das necessidades dos setores que estão crescendo; inovação e produtividade; redução das desigualdades regionais”, afirma Basarrio.

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