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Y’All Street: o Texas Entra na Disputa Pelo Capital de Wall Street

Dallas atrai bancos, empresas e bolsas de valores e tenta se consolidar como novo centro financeiro dos EUA

18 min

O vento levanta poeira em um enorme canteiro de obras em uma área de 74 mil metros quadrados no centro de Dallas. Cercado por rodovias e torres de escritórios, o terreno parece, à primeira vista, apenas mais uma obra em uma cidade que cresce depressa. Mas o prédio que está sendo erguido ali é uma espécie de monumento à mudança na geografia do capitalismo americano.

O Goldman Sachs está investindo cerca de US$ 700 milhões no empreendimento, com capacidade para mais de 5 mil funcionários. A inauguração está prevista para 2028. Será o maior escritório do banco fora de sua sede global em Manhattan, na cidade de Nova York, e uma ampliação substancial de uma operação que já existe em Dallas, no estado do Texas, há mais de cinco décadas.

O edifício é grande. A ambição é maior. Dallas passou a ser chamada de “Y’all Street”, uma brincadeira com “y’all”, contração de “you all” típica do Sul dos Estados Unidos, e “Wall Street”. O apelido descreve o corredor financeiro que se estende por Downtown, Uptown e Victory Park. Até recentemente, a expressão poderia ser descartada como marketing imobiliário ou entusiasmo texano. Agora há uma quantidade desconfortável de fatos por trás dela.

Desde fevereiro de 2020, o emprego em atividades financeiras em Dallas cresceu 23,2%, contra 6% em Nova York. Em junho de 2026, o setor empregava 317 mil pessoas na região, segundo dados enviados pelo Federal Reserve de Dallas para a Forbes Brasil. A participação das atividades financeiras no emprego local chegou a 10,1%, ligeiramente acima dos 9,9% de Nova York.

O Goldman não está sozinho. O Morgan Stanley avalia investir US$ 684 milhões em uma torre de 65,8 mil metros quadrados em Dallas, com capacidade para até 4.800 funcionários. O Bank of America, por sua vez, prepara a mudança para uma nova torre, onde deverá reunir cerca de 1 mil funcionários a partir de 2027. Já o JPMorgan Chase tem mais de 12,5 mil funcionários em seu campus em Plano, na região metropolitana de Dallas, distribuídos por 139,4 mil metros quadrados.

Getty ImagesRegency Tower, edifício do Bank of America em Dallas, no Texas

Empresas financeiras encontram no Texas uma combinação difícil de ignorar: impostos mais baixos, imóveis mais baratos, terrenos disponíveis para expansão e uma população em rápido crescimento. A atração não se limita, porém, ao custo de fazer negócios. O Estado também se tornou um polo corporativo de primeira grandeza, com mais empresas da lista Fortune 500 do que qualquer outro Estado americano. O Estado já era sede de gigantes como ExxonMobil, AT&T e American Airlines. Nos últimos anos, porém, passou a atrair uma nova geração de empresas, incluindo Oracle, Tesla, SpaceX, Charles Schwab e McKesson. A Dell, outra gigante texana, também avançou na reincorporação no Estado.

“Políticas governamentais favoráveis ​​aos negócios são essenciais. Estados como a Califórnia impuseram suas próprias regulamentações para empresas que operam em seus territórios, e o Texas se posicionou deliberadamente como uma alternativa: impostos baixos, menos entraves regulatórios e um ambiente que já atraiu sedes de grandes empresas”, diz a economista Kirti Sinha, economista e professora da Universidade do Texas em Dallas.

E agora algo novo aconteceu: as bolsas começaram a seguir o dinheiro. A NYSE abriu uma operação própria em Dallas, enquanto a Nasdaq também estabeleceu uma bolsa no Texas. Em julho, a Texas Stock Exchange, ou TXSE, começou a negociar ações com o apoio de Goldman Sachs, BlackRock, JPMorgan e Citadel Securities.

Não é pouca coisa. Outras cidades americanas já tentaram criar bolsas para desafiar a concentração de Wall Street, sem conseguir ganhar escala. Segundo Sinha, a negociação na IEX e em outras bolsas alternativas dos Estados Unidos ainda representa apenas cerca de 6% do volume. O diferencial de Dallas, diz ela, está justamente na combinação de infraestrutura e apoio das grandes instituições. “A Citadel Securities e a BlackRock trazem liquidez, e as bolsas prometem alívio de alguns dos encargos regulatórios que as empresas enfrentam em outros lugares”, afirma.

Mas isso ainda não significa que Wall Street esteja sendo descentralizada. O teste é se Dallas conseguirá transformar presença em preferência. “Ainda é cedo demais para chamar isso de descentralização”, diz Sinha. A maior parte das listagens até agora é dupla – empresas já negociadas na NYSE ou na Nasdaq que adicionam uma listagem em Dallas -, e não de companhias que escolhem a cidade como seu principal mercado.

Texas Capital
Getty ImagesUma placa do Texas Capital Center está instalada na 2000 McKinney Avenue, em Dallas, Texas, no distrito empresarial de Uptown

Dallas já tinha bancos. Agora quer poder financeiro

A história financeira de Dallas é mais antiga do que o apelido “Y’all Street”. No início do século 20, a cidade se tornou um centro de financiamento da indústria petrolífera e, desde então, funcionou como um polo financeiro para o Texas e Estados vizinhos. O petróleo ajudou a criar bancos, escritórios jurídicos, seguradoras e investidores. A economia atual apenas ampliou a antiga vocação.

“O crescimento recente dos serviços financeiros em Dallas representa uma expansão e um alargamento de um cluster industrial que já era importante, em vez do surgimento de um novo”, afirma Laila Assanie, economista sênior do Federal Reserve de Dallas em entrevista para a Forbes Brasil.

A distinção é importante. Dallas não está inventando um setor financeiro. Está tornando-o maior, mais diversificado e, potencialmente, mais sofisticado.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo dados do Federal Reserve de Dallas, entre fevereiro de 2020 e junho de 2026, o emprego em atividades de securities – categoria que inclui corretagem e intermediação de valores mobiliários, investment banking e gestão de portfólio, entre outras – cresceu 47% na região de Dallas-Fort Worth. No mesmo período, o emprego em atividades bancárias e de crédito aumentou 20%, o de seguros, 21%, e o de imóveis, aluguel e leasing, 19,6%.

Não se trata, portanto, de um único banco abrindo um escritório maior. O crescimento atravessou praticamente todo o setor financeiro. Bancos e seguradoras foram responsáveis pelas maiores parcelas do aumento total de empregos, 31% e 30%, respectivamente, enquanto imóveis responderam por cerca de 21% e securities, por 17%.

A diferença entre esses números, porém, é mais reveladora do que a soma. Bancos e seguradoras criaram mais vagas em termos absolutos porque já empregavam muito mais gente. Securities, por outro lado, foi o segmento que cresceu mais rapidamente. E é justamente essa categoria que reúne algumas das atividades mais próximas do coração dos mercados de capitais.

A distinção ajuda a entender por que a expansão de Dallas pode ser mais profunda do que uma simples corrida por empregos financeiros. A região historicamente abrigou uma grande quantidade de funções de middle e back office – operações, processamento e suporte às atividades financeiras realizadas em outros centros. Essas funções são relativamente fáceis de descentralizar: não é necessário estar a poucos quarteirões de um gestor de fundo ou de um banco de investimento para processar uma transação.

O crescimento mais rápido de securities, combinado à expansão de grandes instituições financeiras, aponta para algo diferente: Dallas começa a incorporar uma parcela maior das atividades que conectam empresas, investidores e mercados de capitais.

“A nova infraestrutura de mercado que está sendo construída aqui não é uma transferência de empregos existentes. Uma troca gera empregos diretos e um círculo muito maior de empregos indiretos em serviços jurídicos, de compliance, de tecnologia e de consultoria que não existiam na região antes”, diz  Sinha. Segundo ela, é uma mudança de qualidade, não apenas de quantidade.

Efeito Aglomeração

O que torna uma cidade atraente para empresas financeiras não é apenas o que ela oferece individualmente, mas o que já existe ao seu redor. Essa é a lógica por trás das chamadas economias de aglomeração: quando empresas, profissionais especializados e instituições se concentram em um mesmo lugar, passam a gerar vantagens que seriam mais difíceis de obter isoladamente.

O mecanismo é cumulativo. Uma empresa instalada em Dallas demanda bancos, advogados, contadores, seguradoras, consultorias e gestores de recursos. Essa demanda atrai profissionais especializados, que por sua vez tornam a região mais interessante para outras empresas. Com uma base empresarial maior, crescem também os clientes, fornecedores e oportunidades para as instituições que já estão ali. O resultado é um círculo que pode se reforçar ao longo do tempo.

É uma dinâmica conhecida em outros grandes centros financeiros. A diferença é que Dallas está tentando construí-la em torno de uma economia que já ganhou escala suficiente para sustentá-la. “À medida que esse polo se expande, ele se torna mais atraente para outras empresas”, diz Jonathan Meer, professor de economia da Texas A&M University, especializado em movimentos demográficos.

texas dólar
Getty ImagesEm 2025, o estado do Texas alcançou US$ 2,9 trilhões em PIB, o equivalente à 8ª maior economia do mundo, e abriga 1 em cada 10 empresas abertas dos EUA, além de 57 empresas da lista da Fortune 500

Os números dão uma medida desse processo. Entre 2015 e 2024, 125 empresas transferiram suas sedes para a região de Dallas-Fort Worth, segundo o Federal Reserve de Dallas. Quase metade veio da Califórnia, enquanto apenas 6,4% veio de Nova York. O dado é relevante porque sugere que a transformação não se resume a uma transferência direta de Wall Street para o Texas. Muitas das empresas que chegam a Dallas não estão deixando Manhattan; estão mudando de um mercado para outro em uma reorganização mais ampla da geografia corporativa americana.

Dallas, além disso, faz parte de um movimento maior. A cidade está no centro de uma faixa de crescimento econômico que inclui Houston, Austin, Atlanta, Charlotte, Nashville e Miami — região que a Texas Stock Exchange (TXSE) chama de “Boom Belt”. Segundo a própria bolsa, esse conjunto de mercados representa uma economia de US$ 8,9 trilhões em termos anualizados.

O Texas é o exemplo mais evidente dessa mudança de escala. Em 2025, o Estado atingiu US$ 2,9 trilhões em PIB, o equivalente à oitava maior economia do mundo. Também concentrava 57 sedes de empresas da Fortune 500, mais do que qualquer outro Estado americano, além de uma parcela relevante das companhias abertas dos Estados Unidos.

Essa concentração empresarial ajuda a explicar por que mais serviços financeiros podem se instalar no Texas. O incentivo inicial pode ser prosaico — impostos mais baixos, imóveis mais baratos, espaço para construir e uma população em expansão. Mas, uma vez que empresas e profissionais suficientes se reúnem em um mesmo lugar, a vantagem muda de natureza: deixa de ser apenas o custo de operar e passa a ser a proximidade de clientes, talentos, fornecedores e concorrentes.

É aí que a aglomeração pode se tornar um círculo virtuoso. Quanto maior a base empresarial, maior a demanda por crédito, gestão de patrimônio, seguros, fusões e aquisições e financiamento no mercado de capitais. Quanto maior essa demanda, maior o incentivo para que instituições financeiras e profissionais especializados se estabeleçam na região. E quanto maior essa oferta, mais fácil se torna para a próxima empresa decidir fazer o mesmo.

Isso ajuda a colocar o avanço de Dallas em perspectiva. A cidade não precisa substituir Nova York para se tornar um centro financeiro relevante. Pode simplesmente capturar uma parcela maior de uma economia americana que está se tornando mais distribuída geograficamente..

O que está mudando, portanto, não é necessariamente o centro financeiro americano, mas a sua periferia. Dallas está acumulando empresas, profissionais e capital suficientes para criar um ecossistema próprio. Quanto mais esse ecossistema cresce, menos depende de convencer uma empresa a deixar Nova York, e mais pode simplesmente convencer a próxima a escolher o Texas.

O Texas vende mais do que custos baixos

O apelo do Texas para empresas não termina na conta de impostos. O Estado não cobra imposto de renda individual e mantém uma longa tradição de políticas favoráveis aos negócios. Nos últimos anos, também buscou tornar mais previsível o ambiente corporativo, inclusive ao rever regras relacionadas a disputas judiciais entre empresas e acionistas.

Para uma instituição financeira, previsibilidade pode valer tanto quanto uma alíquota menor. Custos mais baixos ajudam a melhorar a equação econômica de uma mudança; regras mais estáveis reduzem o risco de que essa vantagem seja anulada por incertezas futuras. É uma proposta menos visível do que um incentivo fiscal, mas potencialmente mais duradoura.

A demografia reforça esse argumento. A região de Dallas-Fort Worth chegou a cerca de 8,5 milhões de habitantes em 2025, alta de 11% desde 2020, segundo o Census Bureau. O crescimento populacional amplia o mercado consumidor e, sobretudo, sinaliza que empresas que chegam hoje encontram uma região ainda em expansão.

Dallas também tenta transformar essa vantagem em uma estratégia deliberada de atração. O prefeito Eric Johnson tem procurado executivos e empresas que considera insatisfeitos com os custos e o ambiente regulatório de centros financeiros tradicionais. Em viagens a Nova York, chegou a cortejar diretamente nomes de Wall Street. Não se trata apenas de oferecer um lugar mais barato para fazer negócios, mas de apresentar um modelo diferente de relação entre empresas e poder público.

As bolsas chegam ao Texas

A Texas Stock Exchange representa a tentativa de levar a lógica do cluster um passo adiante. A TXSE iniciou as negociações em julho deste ano com mais de 50 instituições participantes, entre bancos, corretoras e empresas de trading, e uma plataforma própria de negociação. A bolsa diz querer competir pela principal atividade que sustenta o poder de uma exchange: as primary listings, ou listagens principais de empresas.

O primeiro teste veio de uma instituição nascida no próprio Texas. A Texas Capital, banco sediado em Dallas, anunciou que transferirá dois ETFs focados na economia do Estado para a TXSE. Se as aprovações regulatórias forem concluídas, os fundos serão os primeiros primary listings da nova bolsa, a partir de 16 setembro. “É uma honra para nós receber esses dois importantes fundos de volta ao Texas, como as primeiras listagens primárias na Bolsa de Valores do Texas”, disse James Lee, fundador e CEO da TXSE, em comunicado. “A liderança, a solidez financeira e o compromisso com a inovação da Texas Capital refletem as qualidades que posicionaram o Texas como uma potência econômica próspera. Essas listagens são um alicerce fundamental para nossos esforços em construir mercados de capitais no Texas para as gerações futuras.”

Texas Stock Exchange
Divulgação TXSEA TXSE iniciou as negociações em julho deste ano com mais de 50 instituições participantes, entre bancos, corretoras e empresas de trading, e uma plataforma própria de negociação

A TXSE também anunciou que S&P Dow Jones Indices, MSCI e FTSE Russell atualizaram suas metodologias para contemplar papéis com listagem na nova bolsa. Isso remove uma possível barreira para empresas que considerem migrar sua listagem principal: estar na TXSE não as deixará, em princípio, fora dos grandes índices americanos.

São avanços importantes. Mas ainda não resolvem o problema central. Uma bolsa não se torna relevante simplesmente porque existe. Ela precisa de emissores. Precisa de investidores. Precisa de market makers. Precisa de corretoras. Precisa de analistas. E, acima de tudo, precisa de liquidez.

Esse é o clássico problema do ovo e da galinha dos mercados financeiros. Investidores querem negociar onde há liquidez. Empresas querem abrir capital onde há investidores. Market makers querem operar onde existe volume. Quanto maior o número de participantes, mais atraente o mercado se torna para os próximos. Por isso, o teste da TXSE não será o número de empresas que dizem gostar do Texas. Será quem vai escolher o Texas quando tiver de decidir onde levantar capital.

A própria bolsa já indicou que pretende iniciar IPOs em 2027, depois de avançar primeiro com produtos negociados em bolsa e transferências corporativas. Um IPO relevante será mais importante para a tese da TXSE do que dezenas de empresas com uma segunda listagem.

A verdadeira ruptura começa quando uma companhia olha para Nova York, Nasdaq e Dallas e decide: é aqui que quero que meu capital seja negociado.

Até Wall Street decidiu ir para Dallas

A reação dos incumbentes torna a história ainda mais interessante. A NYSE abriu sua sede regional em Dallas em agosto. A NYSE Texas, operação eletrônica da bolsa baseada na cidade, já reúne 120 emissores de valores mobiliários.

REUTERS/Jeremy Lock.O governador do Texas, Greg Abbott, toca o sino de encerramento na sede da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) do Texas, em Dallas, Texas, EUA, em 27 de agosto de 2026

A Nasdaq também opera uma exchange no Texas, lançada plenamente em março. A plataforma permite às empresas uma presença no Estado sem que elas necessariamente abandonem suas listagens tradicionais. É difícil encontrar uma demonstração mais clara de que o Texas passou a ser levado a sério.

Mas há uma ironia. A chegada da NYSE Texas pode ser interpretada tanto como uma vitória de Dallas quanto como uma vitória de Nova York. A Intercontinental Exchange, dona da NYSE, pode levar sua infraestrutura para onde estão as empresas e os investidores sem necessariamente transferir o centro de poder para fora de Manhattan. É uma estratégia que pode ser mais inteligente do que simplesmente defender território.

O difícil não é atrair bancos. É criar um mercado

Há uma razão para tantas cidades americanas terem tentado se proclamar a próxima Wall Street: um centro financeiro pode ser anunciado muito antes de existir.

Ter bancos, gestoras e uma bolsa é apenas o começo. O que transforma uma cidade em mercado financeiro é a capacidade de concentrar transações de maior valor – IPOs, fusões e aquisições, crédito, gestão de patrimônio e decisões de alocação de capital. Nova York levou mais de um século para construir essa engrenagem. Seus ativos mais importantes não estão nos prédios, mas nas conexões entre quem capta, quem investe e quem intermedeia.

Essa é uma vantagem que não aparece nas planilhas de custos. Dallas pode oferecer espaço, infraestrutura e um ambiente empresarial competitivo. O que não pode comprar de imediato é a confiança acumulada entre banqueiros, investidores, advogados e executivos que permite que uma transação complexa seja fechada com poucos telefonemas. Pode, porém, criar as condições para que uma rede semelhante se desenvolva.

“O valor da aglomeração está realmente se fazendo sentir”, afirma Meer. Para Sinha, a cidade já reúne parte das condições necessárias para dar esse salto. Ela aponta, entre outros fatores, o custo imobiliário relativamente baixo, a qualidade das escolas e a diversidade da população. A pandemia acrescentou um elemento inesperado a essa equação: ao provar que parte do trabalho financeiro podia ser feita à distância, reduziu a necessidade de que todos os profissionais estivessem fisicamente concentrados em Manhattan. “A falta de talentos não é mais um obstáculo como antes. A pandemia trouxe uma onda de profissionais para a região”, afirma.

A geografia também ajuda. Dallas está no centro do território americano e tem conexões aéreas com os principais mercados do país, observa Sinha. Para uma indústria na qual reuniões, clientes e equipes continuam exigindo algum contato presencial, essa posição é mais do que uma conveniência.

A tecnologia tornou a descentralização possível, mas não eliminou a importância da proximidade. Planilhas podem viajar pela internet; confiança, reputação e negócios ainda circulam em grande medida por redes humanas. O desafio, portanto, não é transferir empregos de Manhattan para o Texas. É fazer com que transações que antes exigiam Wall Street possam ser originadas, estruturadas e financiadas em Dallas.

É nesse ponto que a chegada de uma nova bolsa ganha importância. A TXSE não precisa apenas existir; precisa conseguir atrair operações que hoje encontram em Nova York seu caminho natural para o mercado de capitais. Um IPO relevante vale mais para a ambição financeira de Dallas do que dezenas de placas de bancos nas fachadas de seus prédios.

O mesmo vale para fusões e aquisições e para a gestão de grandes patrimônios. Se empresas do Texas começarem a recorrer sistematicamente a instituições locais para levantar capital, vender ações, comprar concorrentes ou administrar suas fortunas, a cidade terá criado algo mais difícil de replicar: um fluxo recorrente de negócios.

Esse é o teste da chamada “Y’all Street”. A questão não é quantas instituições financeiras Dallas consegue abrigar, mas quantas decisões financeiras consegue retirar da condição de exceção e transformar em rotina local.

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