O IPCA de setembro subiu 0,82% e levou a inflação acumulada em 12 meses a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta, e na mesma semana os economistas consultados pelo Banco Central passaram a esperar mais cortes na Selic até dezembro, numa aparente contradição que esconde uma aposta específica do mercado sobre a natureza dessa inflação.
A aposta é que os preços subiram por choques pontuais, que o próprio tempo desfaz, e que a economia já esfria o bastante para segurar o resto. Se essa aposta estiver certa, o Copom tem espaço para seguir cortando; se estiver errada, o risco deixa de ser o IPCA de um mês e passa a ser a confiança na meta.
IPCA de setembro: o que o número cheio esconde
O dado mais revelador do mês está na energia elétrica, que subiu 7,98% e respondeu sozinha por 0,32 ponto do índice, segundo o IBGE, porque o desconto do Bônus de Itaipu, que tinha derrubado a conta de luz em agosto, saiu da fatura em setembro. Foi esse mesmo bônus que ajudou a produzir a deflação de 0,32% do mês anterior.
Traduzindo: boa parte da alta de setembro é a devolução da queda de agosto, e a média dos dois meses fica perto de 0,25% ao mês. Somam-se a isso as passagens aéreas, com alta de 9,66%, os combustíveis, com 1,41%, e alimentos in natura como tomate e batata, que subiram mais de 20% por causa de safra e clima.
Choque de oferta: por que o Copom ainda pode cortar a Selic
Esses itens têm algo em comum: sobem por falta de oferta, e não por excesso de gente querendo comprar, e a teoria monetária ensina que juro alto pouco faz contra esse tipo de inflação. O tomate não fica mais barato porque a Selic subiu, e uma reação dura a um choque de oferta costuma derrubar a atividade sem devolver o preço ao lugar.
É essa leitura que explica o aparente paradoxo do Boletim Focus de 13 de outubro, que elevou a inflação esperada para 2026 de 5,01% para 5,22%, a quarta alta seguida, e ao mesmo tempo reduziu a Selic projetada para o fim do ano de 13,50% para 13,25%, o que implica dois cortes de 0,25 ponto, em novembro e dezembro.
O lado da demanda ajuda a sustentar essa aposta: o FMI cortou a projeção de crescimento do Brasil para 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027, citando juros ainda restritivos e menos estímulo fiscal, e prevê desemprego subindo para 6,8% em 2027, o retrato de uma economia que perde fôlego justamente quando os preços sobem.
Expectativas de inflação: o risco que preocupa o Copom
O problema é que choque de oferta só é passageiro enquanto não contamina as expectativas, porque quando empresas, sindicatos e contratos passam a embutir uma inflação maior nos reajustes do ano seguinte, o que era pontual vira persistente, no que a economia constuma chamar de efeitos de segunda ordem.
Aqui está o ponto de atenção que vejo no Focus: a projeção para 2027 está em 4,30%, bem acima do centro de 3%, e é esse horizonte mais longo que o Banco Central persegue, porque os juros de hoje levam de seis a nove meses para fazer efeito. O comunicado de setembro do Copom já registrava preocupação com expectativas acima da meta, e o IPCA acima do teto torna essa preocupação mais difícil de ignorar.
O teto estourado também tem consequência institucional: pelas regras da meta contínua, se a inflação em 12 meses ficar fora do intervalo de tolerância por seis meses seguidos, o presidente do Banco Central precisa explicar publicamente os motivos e as medidas para trazê-la de volta, o que eleva o custo de cortar juros sem convicção.
Juro real perto de 8%: como posicionar a renda fixa
Para quem investe, a conta que importa é o juro real: com a Selic em 13,75% e a inflação esperada de 5,22% para 2026, o ganho acima da inflação de quem está no pós-fixado fica em torno de 8% ao ano, um dos mais altos do mundo, e o Tesouro IPCA+ 2032 paga nesta semana a inflação mais 6,7% ao ano.
A escolha entre os três tipos de título depende de qual erro você prefere evitar, já que o prefixado ganha se a inflação ceder mais rápido do que o mercado espera e perde se as expectativas continuarem subindo, e quatro altas seguidas no Focus, ao meu ver, não são o ambiente mais confortável para travar uma taxa nominal longa.
O título atrelado ao IPCA protege justamente contra o cenário em que a inflação de choque vira persistente, e por isso funciona como seguro para objetivos de longo prazo, como aposentadoria. O pós-fixado segue como base da carteira enquanto a Selic estiver perto de 14%, ainda que o rendimento comece a diminuir à medida que os cortes acontecem.
Na alocação orientada por objetivos, a pergunta que considero mais útil agora é qual inflação ameaça a meta de cada parcela do patrimônio. Para o dinheiro de dois ou três anos, a Selic alta resolve; para o de vinte anos, quem protege o poder de compra é o juro real contratado, muito mais do que qualquer palpite sobre o próximo IPCA.
Selic em 2027: o risco de um juro real alto demais
O Copom volta a se reunir em 3 e 4 de novembro, e o debate que hoje gira em torno do risco de cortar cedo demais pode se inverter ao longo de 2027: se o Focus estiver certo, com a Selic em 13,25% no fim deste ano e a inflação recuando para 4,30%, o juro real sobe para perto de 8,6% sem que o Banco Central mexa em nada.
Em 1993, o economista John Taylor, da Universidade de Stanford, propôs uma regra para orientar os bancos centrais, segundo a qual os juros devem reagir tanto ao desvio da inflação em relação à meta quanto à distância entre o que a economia produz e o que poderia produzir. Com a inflação acima do centro, mas o desemprego subindo e o PIB perdendo fôlego, os dois lados dessa conta começam a puxar em direções opostas.
Quanto desse espaço o Copom vai poder usar depende de duas coisas que nenhum dado mensal resolve: a credibilidade das contas públicas, que define o prêmio exigido para financiar a dívida, e a disciplina para separar o choque da tendência sem perder a confiança de quem forma preços. Errar para um lado devolve a inflação; errar para o outro mantém por tempo demais um juro real que encarece o crédito e pesa sobre o emprego.
Em setembro, a inflação veio do tomate e da conta de luz, e o Copom pôde tratá-la como choque. Em 2027, se ela ceder como o mercado espera, o teste de credibilidade do Banco Central será o inverso do atual: mostrar que sabe a hora de afrouxar com a mesma firmeza com que soube a hora de apertar.
Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI, mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII, Grana Capital e sócio fundador da holding financeira MR4 Participações.