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O Risco Silencioso da Inteligência Artificial Que Está Sendo Ignorado, Segundo um Nobel de Economia

Para Paul Krugman os aportes massivos em tecnologia já provocam um efeito de deslocamento de investimentos e causam alta de juros

5 min

Embora os riscos acerca da Inteligência Artificial (IA) sejam projetados para o futuro, desde a eliminação massiva de empregos e destruição da humanidade à bolhas financeiras, um Nobel de Economia defende que há impactos severos que estão ocorrendo neste exato momento.

A tese é de que o investimento massivo que a IA tem demandado está drenando investimentos a outros setores e causando elevações dos juros futuros.

Paul Krugman, economista norte-americano, professor emérito da Universidade de Princeton e da City University of New York (CUNY), que venceu o Nobel em 2008, escreve em seu Substack que os mais de US$ 51 bilhões de investimentos em data centers estão correlacionados com a queda vertiginosa dos aportes em construções de outros tipos.

“A construção de data centers parece estar desviando recursos financeiros e materiais da construção de moradias, edifícios de escritórios e fábricas — praticamente tudo o que não está relacionado à IA.”

Steve Rattner

Além disso, acerca do impacto nas variáveis macroeconômicas, Krugman faz um comparativo do boom da IA com o fenômeno de “crowding out” — termo conhecido da economia que descreve quando um governo realiza gastos deficitários e a economia está em pleno emprego, e então isso causa aumento das taxas de juros.

Nesse sentido, os juros sobem porque, em um contexto de pleno emprego (ou próximo disso), a iniciativa privada usa todo o crédito disponível na economia à taxa de juros vigente, e então para atrair recursos suficientes para cobrir seu déficit, o governo precisa oferecer uma taxa de juros ainda mais alta.

Isso, por sua vez, leva a uma redução do investimento privado, que passa a ser deslocado pelo déficit público.

“Dada a situação atual, com desemprego relativamente baixo e inflação elevada, o efeito de deslocamento é uma preocupação legítima. É importante, porém, entender que as fontes desse fenômeno não se limitam aos gastos públicos. Fortes aumentos nos gastos privados, como o atual e gigantesco boom da inteligência artificial, também elevam as taxas de juros”, avalia o prêmio Nobel de economia.

“É exatamente isso que está acontecendo agora: o aumento dos gastos com inteligência artificial está pressionando as taxas de juros para cima e deslocando todos os demais investimentos”, completa.

Paul Krugman, com dados do Federal Reserve Economic Data (FRED)

Em ode à sua tese, Krugman ainda cita uma reportagem recente do The New York Times que aponta que o boom da IA, de fato, é um setor que não está sendo freado pela alta de juros nos Estados Unidos.

Em contrapartida, o aumento dos juros está sendo sentido em toda a economia não relacionada à inteligência artificial.

“Em outras palavras, todo o dinheiro destinado à construção de data centers e à compra de semicondutores produzidos no exterior ocorre às custas de investimentos em todas as demais áreas.”

As três questões levantadas por Krugman acerca do boom de Inteligência Artificial

De olho no panorama, o economista levanta três indagações sobre o fenômeno atual.

O primeiro é comparativo; se já ocorreu ou não algo semelhante quando uma nova tecnologia surgiu. A sua análise diz que não.

Em gráficos, explicita que o boom tecnológico dos anos 1990 não revela nenhum efeito de deslocamento de investimentos, e inclusive foi verificado um aumento de aportes não relacionados à tecnologia.

“Como isso foi possível? A maior parte da resposta está no fato de que, durante o boom dos anos 1990, os Estados Unidos atraíram grandes fluxos de investimentos estrangeiros, que efetivamente financiaram o boom tecnológico ao mesmo tempo em que outros investimentos também cresciam”, analisa.

“Isso não está acontecendo desta vez. É verdade que Donald Trump insiste que atraiu US$ 20 quatrilhões em investimentos estrangeiros, ou algo parecido, mas a maior parte desse suposto aumento dos investimentos estrangeiros é fruto da imaginação dele, e não há sinais de uma alta desse porte nos dados do balanço de pagamentos”, copleta.

Paul Krugman, com dados do Federal Reserve Economic Data (FRED)

Um segundo ponto é de que nem sempre as grandes corporações de tecnologia são totalmente racionais e precisas em seus aportes — seja qual for o tamanho da injeção de capital.

Como exemplo, cita os US$ 80 bilhões que a Meta gastou no Metaverso, conceito que foi abandonado pouco tempo depois.

O último ponto é sobre o tamanho do risco que o boom da IA está criando no restante da economia, dado que relatos de estresse financeiro provocado pelas altas taxas de juros “estão se multiplicando”.

“Há uma percepção crescente entre os observadores com quem converso de que os efeitos financeiros adversos do boom da IA sobre o crédito privado e outras partes do sistema financeiro pouco reguladas podem ser maiores do que muitos imaginam”, pontua.

“Portanto, está claro que o efeito de deslocamento provocado pelo boom da inteligência artificial está ocorrendo em uma escala muito grande. E, diferentemente dos riscos de desemprego tecnológico ou do estouro de uma bolha, este não é um risco hipotético. Está acontecendo agora”, conclui Krugman.

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