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O Novo Mapa dos Investimentos para Proteger e Multiplicar Seu Dinheiro

Juros e inflação em alta, dólar forte, o fenômeno da inteligência artificial: saiba o que deve moldar as estratégias de investimento nos próximos passos

15 min

Recém-aposentado da presidência do conselho de administração da Berkshire Hathaway, Warren Buffett teve a mais bem-sucedida trajetória como profissional de investimentos. Atualmente em décimo lugar no ranking global da Forbes, com patrimônio estimado em US$ 144 bilhões, Buffett ocupou a posição de pessoa mais rica do mundo por um bom tempo. Para conseguir isso durante mais de oito décadas (começou a investir em 1941, aos 11 anos, quando comprou sua primeira ação), ele usou uma fórmula que poderia ser replicada por qualquer investidor.

Sua estratégia pode ser resumida em uma frase. Comprar ações de empresas sólidas e que pagam bons dividendos, mantê-las por bastante tempo e reinvestir os proventos em alternativas igualmente ou ainda mais rentáveis. Sim, é só isso, mas é preciso pensar no longo prazo. O tempo cuida do resto.

O que valeu para Buffett ainda vale; porém, com algumas ressalvas.

Se começar agora em 2026, um investidor que fizer a mesma coisa deverá ter bons resultados, mas não se tornará o homem mais rico do mundo. Por quê? Além da perspicácia incomum de Buffett para encontrar bons investimentos, seu sucesso se deveu a alguns fatores econômicos que deixaram de existir. Por exemplo, há menos probabilidade de que compense correr o risco de investir em empresas em vez de ficar na segurança da renda fixa.

Há mais mudanças. Novas tecnologias sempre foram capazes de destruir setores inteiros, mas isso atualmente ocorre de maneira muito mais rápida e muito menos previsível. O melhor exemplo é o da inteligência artificial (IA).

Tudo isso afeta o cenário dos investimentos. Para mostrar o que mudou, e como essas mudanças devem ser consideradas na hora de traçar sua estratégia de investimentos, conversamos com economistas e especialistas em investimentos para formular um novo mapa para o investidor. Em vez de recomendar aplicações financeiras (um quadro que pode se alterar a qualquer momento), mostramos nesta reportagem o que deve ser considerado na hora de traçar a estratégia mais adequada para você – e para o seu dinheiro.

Juros e conflitos: um cenário mais desafiador

A principal mudança para os investidores vem sendo – incorretamente – resumida em uma palavra: desglobalização. Esse resumo é impreciso. O processo de integração econômica entre países, com a facilitação do trânsito de capital, bens e serviços (e eventualmente pessoas), que se convencionou chamar de globalização, permanece. O que mudou mais recentemente foram as tarifas comerciais que passaram a ser impostas pelos Estados Unidos no início do segundo governo de Donald Trump e a volta dos conflitos armados entre países relevantes.

Segundo a Tax Foundation, organização americana de pesquisa em política tributária, em 2025 os Estados Unidos importaram US$ 3,4 trilhões em bens e o governo arrecadou US$ 264 bilhões com tarifas comerciais. Em 2016, segundo a Comissão de Comércio Internacional dos EUA (USITC), as importações haviam sido de US$ 2,18 trilhões, mas a arrecadação havia sido de US$ 32,4 bilhões. Ou seja, entre 2016 e 2025 as importações cresceram cerca de 56%, mas a arrecadação com as tarifas avançou 714,8%.

Isso é uma especificidade americana. No caso da União Europeia, as tarifas médias recuaram levemente, de 2,5% em 2016 para 2,1% em 2023, dado mais recente do Banco Mundial. O mesmo raciocínio vale para o Japão.

A meta de Donald Trump ao impor tarifas foi reduzir o déficit comercial dos EUA. Isso quer dizer comprar menos dos países que exportam para os Estados Unidos, Brasil entre eles, e enviar menos dólares para esses parceiros comerciais. Como a oferta de dólares vai diminuir, o preço do dólar (a taxa de câmbio) vai subir e a moeda americana ficará estruturalmente mais valorizada em relação às demais.

O cenário é mais grave no caso do Brasil. “Em 2001, as importações de manufaturados superaram as exportações em US$ 5 bilhões”, diz José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Em 2026, esse déficit deve chegar a US$ 40 bilhões.” Dólar mais caro quer dizer mais inflação e mais juros. Esse é o principal impacto das tarifas.

Outra mudança foi a volta das guerras. Para além das tragédias humanitárias, os conflitos fizeram o barril de petróleo ficar estruturalmente mais caro. Em vez de oscilar entre US$ 60 e US$ 70, como ocorria antes da invasão russa, a commodity agora está entre US$ 90 e US$ 100. O resultado é gastar mais dinheiro para abastecer caminhões, que movimentam a maior parte dos produtos. O aumento nos custos será repassado ao preço final, o que também quer dizer mais inflação.

Segundo Luciano Telo, diretor de investimentos para o Brasil no UBS GWM, o ambiente que favoreceu os países emergentes vinha sendo caracterizado por um dólar relativamente barato devido às fortes importações americanas e por um crescimento econômico global robusto.

Isso mudou. “Neste ano, a tendência de enfraquecimento do dólar já não é tão forte quanto antes”, diz ele. “As tarifas e o choque nos preços do petróleo devem fazer a inflação permanecer acima da meta nos Estados Unidos, acelerando novas altas dos juros por lá.”

A consequência, diz ele, é clara: “Juros americanos mais altos favorecem o dólar e reduzem o fluxo de investimentos para os mercados emergentes”.

Para Telo, os emergentes perderam espaço também por um motivo que não depende de tarifas nem de guerras. Segundo ele, a queda dos fluxos coincidiu, em vários momentos, com a divulgação de resultados muito fortes de empresas americanas de tecnologia. Os países exportadores de petróleo se saíram melhor quando a commodity subiu mais.

Tudo isso influencia bastante o cenário para empresas e consumidores. E, claro, também para o investidor. “Atualmente, os mercados estão lidando simultaneamente com déficits fiscais elevados, grandes investimentos em infraestrutura e em IA, além da reconfiguração das cadeias produtivas globais e das tensões geopolíticas”, diz Rodrigo Sgavioli, head de Alocação da XP. “Isso afeta energia e logística e tem impactos sobre a inflação e sobre os juros.”

Para ele, o efeito principal não é necessariamente uma explosão da inflação, mas a maior dificuldade para que ela volte às metas dos bancos centrais. Isso sugere, segundo Sgavioli, juros mais altos por mais tempo, nos países ricos e também em emergentes como o Brasil.

E há também o impacto nas expectativas, que são o principal vetor das decisões de investimento. “A cautela com o cenário geopolítico adiciona outra camada de incerteza ao cenário”, diz Arley Matos da Silva Júnior, estrategista de investimentos do Santander. “Isso provoca uma busca dos investidores por segurança em moedas fortes, como o dólar, ou em commodities como o ouro, prejudicando o fluxo de recursos para países emergentes.”

Segundo ele, o primeiro impacto das tarifas costuma ser sobre os preços e as expectativas de inflação, o que pode levar os bancos centrais a mais cautela para cortar juros. No entanto, o aumento de preços também pode pesar nas expectativas de crescimento.

Proteger e diversificar no exterior: as recomendações dos analistas

A alta estrutural da inflação e dos juros nas economias desenvolvidas tornou mais arriscado e caro investir em renda variável. O movimento ficou mais evidente com a alta dos juros em setembro de 2026. O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, elevou a meta da taxa básica para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. Antes da pandemia, em novembro de 2019, a faixa era de 1,50% a 1,75%.

Na zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) elevou a taxa de depósito para 2,50%. Também antes da pandemia os juros na Europa eram negativos em 0,50%. No Japão, em 18 de setembro, o Banco do Japão (BoJ) elevou os juros para 1,25%, o maior nível desde 1995. Em novembro de 2019, a taxa era negativa em 0,10%. A alta da inflação explica esse endurecimento da política monetária.

O que fazer? Há vários caminhos possíveis, mas há dois pontos em comum nas recomendações dos especialistas ouvidos pela Forbes Brasil. O primeiro é um reforço na proteção contra a inflação. O segundo é buscar a diversificação em investimentos fora do Brasil para tentar aproveitar a valorização do dólar e a provável continuidade da alta dos juros nos Estados Unidos.

“A principal mudança é buscar construir uma carteira preparada para conviver com inflação, juros e volatilidade mais elevados”, diz Sgavioli, da XP.

Sgavioli propõe um tripé de alocação. O primeiro pilar são ativos líquidos, fáceis de investir e de resgatar, para preservar o caixa: a liquidez e o caixa remunerado, que “voltaram a oferecer retornos atrativos e funcionam como reserva de oportunidade em momentos de maior volatilidade”. O segundo são ativos que protejam da inflação, como títulos corrigidos por índices de preço e ativos reais. O terceiro é a diversificação internacional.

Alexandre Cancherini, CIO de Wealth Management da Galapagos Capital, diz que estamos em um cenário econômico em que as surpresas altistas de inflação serão mais frequentes do que no passado. “Títulos atrelados à inflação são uma proteção estrutural”, afirma. Ele inclui as commodities entre os ativos reais que devem manter espaço relevante nas carteiras.

Os títulos atrelados à inflação também podem render mais do que a proteção caso as contas públicas melhorem. Juliana Laham, CIO Global do Bradesco, afirma que os ativos indexados à inflação são a “grande convicção” do banco nos portfólios locais. Ela prevê um ganho adicional se os juros de longo prazo caírem com o alívio das expectativas de inflação e com sinais de maior responsabilidade fiscal por parte do governo.

Laham acrescenta que a relação entre risco e retorno está mais favorável para o investidor. “Diferentemente do que ocorreu depois da crise financeira global, atualmente é possível obter retornos relevantes em títulos de qualidade sem a necessidade de assumir riscos excessivos”, diz.

Telo, do UBS GWM, propõe destinar “uma parcela relevante da carteira” à renda fixa brasileira, dividida entre títulos indexados à taxa Selic e títulos com componente de inflação mais juros reais. Os juros no Brasil permanecem elevados, lembra, mas as taxas podem cair no futuro, seja por uma desaceleração econômica, seja por um ajuste das contas públicas após as eleições.

A internacionalização dos portfólios “torna-se ainda mais relevante, não apenas como fonte de retorno, mas também como instrumento de mitigação de risco”, diz Laham. Para ela, a diversificação internacional permite montar um portfólio que tenha menos correlação com os ativos financeiros brasileiros e proporcione retorno no longo prazo. Ela afirma ainda que a renda fixa, tanto local quanto internacional, voltou a oferecer retornos bastante atrativos.

O segundo argumento é que o mercado brasileiro ainda oferece pouco acesso a investimentos. Arley Matos da Silva Júnior, estrategista de investimentos do Santander, fala em setores e empresas que têm participação relativamente pequena no mercado brasileiro, o que reduz a concentração de risco local.

A diversificação internacional também ajuda a reduzir a dependência de um único ciclo econômico, político ou fiscal, diz. Para ele, a carteira deve se diversificar entre classes de ativos, indexadores, geografias e moedas, e, em momentos de maior cautela, os instrumentos de proteção, como moedas fortes, tendem a ocupar parcela maior.

Telo afirma que juros mais altos nos Estados Unidos “favorecem o dólar”. Ele antecipava novas altas do Fed possivelmente já em setembro, o que se confirmou, e não descarta outra em dezembro. Ele propõe diversificar, com aplicações em empresas de tecnologia e em setores mais tradicionais, como o financeiro, “cujos lucros seguem crescendo de forma consistente”.

O Bradesco, segundo Laham, manteve e ampliou a preferência por tecnologia americana e adicionou exposição ao Nasdaq-100. Ela cita investimentos crescentes das grandes empresas do setor e estimativas de lucros revisadas para cima.

Em renda variável, diz, a seletividade passa a pesar mais, com preferência por empresas de vantagem competitiva clara, crescimento consistente dos lucros e menor sensibilidade ao ciclo econômico global. Ela também vê mais relevância em ativos ligados à segurança e à transição energéticas, pelo aumento do risco de choques geopolíticos que interrompam as cadeias de suprimentos.

A nova forma de investir – usando a IA

A IA está alterando profundamente o perfil da economia e, claro, dos investimentos. Não apenas as empresas ligadas à tecnologia tiveram um crescimento explosivo – as ações da Nvidia valorizaram 40 vezes desde antes da pandemia, por exemplo, para US$ 5,3 trilhões –, mas isso vem alterando o próprio modo de investir.

Até pouco tempo atrás uma análise de dados exigia terminais especializados, bases de dados estruturadas e tempo para montar planilhas e modelos. Agora o próprio investidor individual tem condições de coletar dados, comparar ativos e testar cenários antes de decidir.

“Acho cada vez mais difícil investir sem o auxílio de ferramentas como Claude, ChatGPT e outras aplicações semelhantes”, afirma Telo, do UBS GWM. Para ele, a melhor função é transformar o assistente em “um parceiro intelectual na tomada de decisão”. Isso significa testar hipóteses, questionar conclusões e explorar cenários antes de decidir.

O julgamento humano, porém, pondera, continua essencial. “A qualidade das respostas depende da qualidade das perguntas formuladas”, diz, e a decisão final continua sendo responsabilidade do investidor.

O processo também pode servir de aprendizado. Quanto maior o repertório e o senso crítico do investidor, melhores tendem a ser as decisões. Telo acrescenta que a IA pode ajudar a reduzir os vieses emocionais que todos carregamos ao decidir em ambientes de incerteza.

Para Laham, do Bradesco, a mudança atinge bancos e empresas de assessoria. Com o acesso à informação transformado em commodity, o diferencial passa a ser a capacidade de interpretar, contextualizar e transformar dados em decisões de investimento.

Ela diz que a IA aumenta a produtividade, melhora a análise de dados e permite acompanhar os mercados de forma mais abrangente. Ao mesmo tempo, eleva a exigência dos investidores, que chegam às conversas mais informados e com questionamentos mais sofisticados.

Segundo Laham, os profissionais gastarão menos tempo buscando informações e mais tempo com “construção de cenários, gestão de riscos, planejamento patrimonial e orientação estratégica”. As melhores decisões, diz, ainda dependem da capacidade humana de entender fatores que não aparecem nos modelos.

Sgavioli, da XP, diz o que a IA não faz. “Informação não é a mesma coisa que julgamento e tomada de decisão correta”, diz. A IA resume dados, encontra padrões e testa hipóteses. Mas não substitui a capacidade de “interpretar contextos, gerar empatia, entender objetivos pessoais, gerenciar comportamento humano e tomar decisões sob incerteza”.

Por isso, na avaliação dele, a IA não reduz a importância de assessores, consultores e planejadores. Ela a ressignifica.

Flavio Terni, cofundador da Revert, empresa de infraestrutura de IA para consultores de investimentos, vê a mudança mais profunda em outro ponto. A informação pública chega a todos praticamente na mesma velocidade, diz, e a vantagem de velocidade que sustentou muitos profissionais por décadas encolheu.

No Brasil, o acesso ainda conta, porque boa parte dos dados relevantes segue dispersa, mal organizada ou cara de alcançar. Mas essa vantagem tem prazo de validade.

O maior valor da IA, para Terni, está em eliminar “os grandes erros evitáveis”. O que mais destrói patrimônio no Brasil não é a falta de análise sofisticada, afirma. Mas concentração excessiva, produto errado para o perfil, custo de operar acima do necessário e maus incentivos, como “conflito de interesse, giro de carteira para gerar corretagem, produto empurrado porque paga mais comissão”.

A IA torna tudo isso visível e auditável em segundos. O investidor jovem que pergunta “por que estou pagando isso?” a uma ferramenta de IA recebe uma resposta honesta, segundo Terni, e isso “muda a relação de poder do mercado inteiro”.

Para empresas e profissionais, a consequência é clara. Quem vivia de assimetria de informação ou de opacidade de custo vai sofrer. Quem cresce é o profissional que usa a tecnologia a favor do cliente, com menos erro, menos custo e mais transparência, e dedica mais tempo à relação e à disciplina comportamental.

“A IA não acaba com o profissional. Acaba com os maus incentivos que parte do mercado fingia não ver”, afirma.

*Matéria publicada na edição 145 da Forbes Brasil

Colaborou André Vargas

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