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Quanto a Bolsa Ainda Pode Subir com as Eleições?

Bolsa dispara nesta segunda-feira. Analistas explicam o que os preços das ações já refletem sobre a disputa presidencial e quais condições podem sustentar novas altas

8 min

O Ibovespa, principal índice da B3, chegou aos 209 mil pontos nesta segunda-feira (5), na primeira sessão após o primeiro turno das eleições. A valorização de mais de 8% reflete, segundo os analistas, a expectativa de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) abra espaço para um ajuste nas contas públicas e juros menores. A questão agora é quanto desse cenário já entrou nos preços das ações. Perto das 12h30 o índice operava aos 207.438 pontos, alta de 7,98% em relação ao fechamento da sexta-feira.

O BTG Pactual estima potencial de valorização entre 11% e 20% para as ações brasileiras, excluindo Petrobras (PETR3; PETR4) e Vale (VALE3), caso uma vitória de Flávio leve suas avaliações de volta às médias consideradas pelo banco. Os percentuais usam as referências do relatório e não devem ser aplicados automaticamente ao Ibovespa após a alta do dia.

Essa perspectiva também aparece nas análises de Citi e Veedha Investimentos. No EFG , a avaliação é cautelosamente positiva, com uma ressalva: a mudança nas expectativas precisa ser acompanhada de medidas capazes de melhorar os fundamentos da economia.

Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 45,16%, segundo a apuração concluída pelo Tribunal Superior Eleitoral. A disputa será definida em 25 de outubro.

Para Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, o desempenho da direita na eleição presidencial e nas disputas estaduais e para o Congresso aumentou a confiança dos investidores na possibilidade de enfrentar o desequilíbrio fiscal. Essa leitura ajuda a explicar a valorização simultânea da bolsa e do real, acompanhada pela queda dos juros futuros. “O dólar também caindo bastante frente ao real. Então, a gente está tendo o cenário Kit Brasil perfeito no dia de hoje.”

O Citi avalia que a liderança de Flávio superou o cenário considerado pelo mercado antes da votação. Segundo o banco, os investidores estavam preparados para receber positivamente até uma situação em que o senador terminasse ligeiramente atrás de Lula. A vantagem ampliou as apostas em um governo que, na avaliação da instituição, teria maior orientação ao mercado e compromisso com a disciplina fiscal.

Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG, distingue essa reação inicial da melhora efetiva da economia.“Vejo o resultado do primeiro turno de forma cautelosamente positiva. Ele aumentou a percepção de que existe uma possibilidade maior de mudança na condução da política econômica. Mas é importante separar expectativa de realidade. Fundamentos levam tempo para mudar.”

O que já entrou nos preços

A expectativa de juros menores é um dos principais caminhos pelos quais a eleição afeta as ações. Se a percepção de risco fiscal diminuir, investidores podem exigir uma remuneração menor para financiar a dívida brasileira. A queda das taxas de longo prazo pode reduzir o custo de financiamento das empresas e favorecer o crédito e o consumo.

Marcatti identifica essa reação nas ações de varejistas, de alguns bancos e de estatais, como a Petrobras (PETR3; PETR4). Em sua avaliação, os investidores estão procurando empresas que podem se beneficiar de uma mudança de governo, da redução dos juros e de maior atração de capital.

Algumas dessas ações já vinham se valorizando antes do primeiro turno. Segundo relatório do Citi divulgado na noite de domingo (4), o Magazine Luiza (MGLU3) havia acumulado alta superior a 30% no último mês. No Assaí (ASAI3), o avanço superava 20%.

Mesmo depois dessas altas, o banco vê espaço para que a votação dê impulso adicional aos papéis. Assaí (ASAI3), Magazine Luiza (MGLU3) e Azzas 2154 (AZZA3) estão entre as empresas que a instituição considera mais beneficiadas por um cenário de juros menores.

O Citi também cita C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) como alternativas para se beneficiar de uma recuperação do consumo, com menor dependência do efeito da queda dos juros sobre o endividamento. No setor financeiro, mantém preferência por XP (Nasdaq: XP), B3 (B3SA3) e BTG Pactual (BPAC11), que poderiam ganhar com maior atividade no mercado de capitais.

A seleção do BTG tem pontos em comum. O banco destaca varejistas, incorporadoras de média e alta renda, empresas ligadas ao mercado de capitais e companhias endividadas. Entre os nomes citados estão Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Assaí (ASAI3), Cyrela (CYRE3), B3 (B3SA3), XP (Nasdaq: XP) e Localiza (RENT3).

Quanto ainda pode subir

O cálculo do BTG parte da avaliação de que as ações brasileiras, sem Petrobras (PETR3; PETR4) e Vale (VALE3), eram negociadas a dez vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses. Esse indicador compara os preços dos papéis com os lucros projetados das companhias.

A tese é que uma redução da percepção de risco poderia levar os investidores a aceitar pagar mais pelos mesmos lucros esperados.

Se o indicador voltasse à média dos últimos dez anos, a valorização potencial seria de 11%. Pela média da série histórica mais longa utilizada pelo banco, chegaria a 20%.

São cenários de recuperação das avaliações das empresas, sem prazo definido ou novo alvo em pontos para o Ibovespa. A análise depende tanto da hipótese eleitoral considerada pelo BTG quanto da disposição dos investidores para pagar múltiplos maiores pelas ações.

Para Ferreira, o fator decisivo será a capacidade de estabilizar a dívida pública e reduzir o prêmio de risco, a remuneração adicional exigida pelos investidores para aplicar no país.

“Se o próximo governo conseguir estabilizar a trajetória da dívida e reduzir o prêmio de risco, o Brasil pode entrar em um ambiente de juros estruturalmente mais baixos, maior investimento externo e melhor desempenho dos ativos domésticos.”

Na avaliação do executivo, essa mudança pode permitir que preços hoje considerados atrativos se traduzam em ganhos para os investidores. O primeiro turno, por si só, não resolve a dívida elevada, os déficits e a fragilidade fiscal apontados por ele.

O peso do Congresso

A capacidade de aprovar medidas econômicas também passa pela composição do Legislativo. Segundo relatório da equipe de pesquisa macroeconômica do Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4), o PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara. O banco destaca que será a maior bancada de um único partido desde 1988.

O número de deputados foi confirmado pela Câmara. No Senado, a projeção divulgada pela Casa indica que o PL deverá ter 28 integrantes no início da próxima legislatura, tornando-se o maior partido.

O Citi interpreta o avanço da direita como um fator favorável à formação de uma base parlamentar para Flávio, caso seja eleito. Marcatti também considera que o desempenho desses partidos e os apoios esperados para o segundo turno fortalecem o candidato.

O tamanho das bancadas ajuda a dimensionar a força política dos grupos, mas não assegura apoio a propostas específicas. Para que a expectativa de ajuste fiscal se sustente, será necessário conhecer as medidas e a capacidade de negociação do próximo governo.

O que pode frustrar o otimismo

As fontes convergem na leitura positiva sobre a reação inicial do mercado, mas diferem no grau de confiança em relação à disputa. Marcatti vê um quadro amplamente favorável a Flávio. O BTG também considera o senador favorito, com a expectativa de que a maior parte dos votos dos demais candidatos migre para ele.

O Citi ressalta que a eleição permanece competitiva e considera a possibilidade de Lula ganhar popularidade até a nova votação. Mudanças nas pesquisas, nas alianças e nas propostas econômicas podem alterar as expectativas incorporadas às ações.

“As campanhas do segundo turno ainda podem expor vulnerabilidades, aumentar as incertezas institucionais e trazer volatilidade aos mercados”, afirma Ferreira.

Além da definição eleitoral, a sustentação da alta dependerá da confiança na execução da política econômica. Sinais de piora nas contas públicas ou dificuldades para aprovar medidas podem levar os investidores a rever o cenário de juros menores.

“A reação inicial na abertura dos mercados hoje é positiva, com juros futuros para baixo, real mais forte e Bolsa para cima. Porém, a sustentabilidade desse movimento dependerá do resultado final e, principalmente, do que vier depois dele”, diz Ferreira.

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