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Vitória de Lula Pode Reverter Parte do Rali e Elevar Juros Futuros, Dizem Especialistas

Virada do presidente surpreende e pode levar investidores a rever parte dos ganhos após o primeiro turno; juros futuros e cenário fiscal estão no radar

5 min

A reeleição do presidente Lula já repercute entre analistas e agentes do mercado financeiro. “Essa virada vai na contramão do que o mercado vinha precificando”, afirma Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos. Após o primeiro turno, os investidores passaram a apostar em uma alternância de poder. Naquele período, o Ibovespa teve a maior alta diária desde 2020 e o dólar caiu mais de 4%. No curto prazo, Trotta considera natural que parte desse movimento seja revertida, com pressão sobre a Bolsa e alta do dólar e dos juros futuros.

Para ele, o tamanho da correção dependerá dos primeiros sinais do novo governo, como a escolha do ministro da Fazenda e o compromisso com o arcabouço fiscal.

Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, também espera uma reprecificação do movimento recente da Bolsa. Segundo ele, a alta foi influenciada pela perspectiva de alternância de poder após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro saiu vitorioso. Marcatti afirma que a campanha incluiu propostas de ampliação de benefícios, um cheque de R$ 5 mil para MEIs e um benefício de transporte, sem esclarecer de onde viriam os recursos. Com a continuidade do atual governo, ele prevê alta dos juros futuros, maior expectativa de inflação e aumento do risco fiscal. “Não teremos o benefício da dúvida como foi a vitória passada”, afirma.

O cenário econômico inclui desaceleração do crescimento, juros elevados e alto endividamento. O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre. Em quatro trimestres, o crescimento acumulado desacelerou para 1,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em agosto de 2026, 81,7% das famílias tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC. No mesmo mês, o número de empresas inadimplentes chegou a 9,3 milhões, recorde da série. A dívida bruta do governo geral somou R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do PIB.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que o principal receio dos analistas e agentes de mercado será a continuidade do crescimento da dívida pública sem medidas suficientes para controlá-la. A expectativa dele é de uma semana de maior cautela, e também vê Ibovespa pressionado, dolár em alta e juros futuros subindo. “Isso ocorre porque o mercado vinha apostando em uma mudança na política fiscal, com maior controle dos gastos públicos. Agora, os investidores terão que reavaliar essas expectativas, especialmente diante de um Congresso no qual Lula não possui maioria própria”, diz.

Na Bolsa, bancos estatais, como Banco do Brasil e Petrobras, devem concentrar as atenções, enquanto varejistas, construtoras e empresas endividadas podem sofrer mais com a perspectiva de juros elevados, analisa Lima. “Exportadoras podem apresentar maior resistência, beneficiadas pelo dólar mais alto. A intensidade da reação dependerá das sinalizações sobre ajuste fiscal, equipe econômica e capacidade de negociação com o Congresso”, diz.

Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, espera uma queda acentuada logo na abertura da Bolsa nesta segunda-feira, 26. “Os setores mais impactados negativamente serão aqueles sensíveis ao custo de capital e à demanda doméstica, especialmente varejo, construção civil de média e alta renda, bancos de varejo e empresas de consumo discricionário”, diz.

Ações ligadas ao mercado de capitais, como corretoras e a própria B3, também podem cair com a expectativa de menor volume de operações e fluxo de recursos, segundo o analista. “Por outro lado, empresas exportadoras e companhias com receita em dólar, como algumas do agronegócio e mineração, podem apresentar desempenho relativo menos negativo, beneficiadas pela desvalorização do real”, diz.

Quais as principais propostas de Lula para a economia

O plano de governo prevê manter o arcabouço fiscal e criar condições para uma redução sustentada dos juros, com inflação controlada e responsabilidade fiscal. Para as contas públicas, menciona a retomada do crescimento, o controle do aumento das despesas primárias, a melhoria da eficiência do gasto e medidas de justiça tributária. O documento não define uma meta ou um prazo para a queda dos juros.

Na área de investimentos, o programa propõe elevar a taxa de investimento da economia, ampliar recursos para infraestrutura logística e social e estimular investimentos privados na indústria. Também prevê dar continuidade à política de valorização real do salário mínimo e fortalecer a Nova Indústria Brasil, com instrumentos como financiamento direcionado, compras públicas e parcerias entre crédito público e privado.

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