Algumas das maiores marcas de luxo do planeta estão literalmente fugindo da instabilidade dos contratos de locação, cada vez mais caros e incertos, e buscando estabelecer endereços próprios em pontos estratégicos dos Estados Unidos. A lista inclui nomes como Louis Vuitton, Rolex e Armani, entre outras, que estão investindo bilhões de dólares para, na prática, escapar do aluguel.
Segundo um novo relatório de varejo da JLL, que analisou tendências em cerca de 40 corredores comerciais nos Estados Unidos, essa decisão vai muito além da lógica matemática do mercado imobiliário. Trata-se de uma questão de sobrevivência de marca.
Os aluguéis nos principais corredores urbanos avançaram, em média, 10% no último ano, mas em alguns casos o aumento foi ainda mais expressivo. Na Madison Avenue, a alta chegou a 19%, enquanto no SoHo foi de 17%. E o movimento não se restringe ao segmento de luxo. Na Chestnut Street, na Filadélfia, os valores subiram 67%, e na região do Fulton Market, em Chicago, o avanço foi de 43%, impulsionado pela chegada de novos empreendimentos gastronômicos e corporativos.
Outro fator que pressiona o mercado é a taxa de vacância, hoje próxima aos mínimos históricos, o que abre espaço para negociações cada vez mais agressivas. O cenário é ainda mais intenso em cidades como Nova York, Los Angeles e Miami, que, juntas, concentram cerca de 80% das novas aberturas de lojas de luxo no país.
Projetos bilionários
Os investimentos dessas marcas não servem apenas para estancar uma pressão momentânea. Segundo a JLL, os projetos são pensados no longo prazo e buscam criar novos marcos arquitetônicos. Entre os movimentos mais relevantes estão:
- Louis Vuitton (Beverly Hills): A maison francesa planeja um desenvolvimento de US$ 900 milhões na Rodeo Drive. Batizado de The Destination Block, o projeto ocupará um quarteirão inteiro e reunirá flagship, espaços expositivos, café e um restaurante no rooftop. O conceito se aproxima mais de um destino cultural do que de uma loja tradicional;
- Giorgio Armani (Nova York): Na Madison Avenue, a marca concluiu no fim de 2024 um complexo de uso misto avaliado em US$ 400 milhões. O edifício de 12 andares integra boutique, a linha Armani/Casa, restaurante e residências de luxo, traduzindo em metros quadrados a proposta de um estilo de vida completo;
- Rolex (Nova York): Na Quinta Avenida, a relojoeira suíça avança na construção de uma torre de 28 andares, com investimento de US$ 135 milhões. O objetivo é garantir permanência, precisão e controle absoluto sobre a narrativa da marca, incluindo um showroom imersivo dedicado à sua engenharia.
A JLL classifica o movimento como buy their way in, algo como comprar o próprio acesso. “Temendo o risco de uma futura renovação de contrato ou de serem superados em uma disputa por espaços maiores, os varejistas continuam a comprar seu caminho para o mercado”, afirma o relatório.
A liquidez do varejo de rua está nos níveis mais altos desde 2015, e o investimento nesses ativos cresceu 82% em 2025, segundo a consultoria.
Além do ultra-luxo
O fenômeno não se limita ao universo do ultra-luxo. Em janeiro, a Uniqlo, gigante japonesa do varejo de moda casual, finalizou a compra de parte de sua flagship na Quinta Avenida por US$ 350 milhões, retirando de forma permanente um dos maiores espaços do mercado de locação.
Outro movimento relevante foi o da IKEA, especializada em mobiliário, que adquiriu um edifício na 529 Broadway, no SoHo, por US$ 213 milhões. Já em Beverly Hills, a ECA Limited vendeu o imóvel localizado na 338 North Rodeo por US$ 400 milhões para um comprador não revelado, em uma das transações mais emblemáticas do período.