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O Brasileiro que Cresceu em Miami e Hoje Lidera Bilhões em Projetos Imobiliários nos EUA

Antônio Primo construiu carreira de mais de quatro décadas nos Estados Unidos e se tornou peça-chave na estratégia imobiliária da DaGrosa Capital

7 min

A DaGrosa Capital Partners, uma empresa de investimentos imobiliários e de private equity com sede em Miami, entra em 2026 com US$ 2,5 bilhões em novos projetos, dos quais cerca de 90% estão concentrados em real estate. O pipeline é resultado de uma estratégia que combina leitura macroeconômica, execução local e uma conexão direta com o investidor internacional.

Essa estratégia tem muito a ver com a trajetória do brasileiro Antônio Primo, sócio sênior da gestora e que no dia a dia atua como colider das iniciativas de aquisição da empresa, incluindo prospecção de negócios, due diligence e gestão de empresas do portfólio.

Filho de brasileiros, Primo chegou à Flórida ainda criança, aos dois anos de idade, e construiu toda a sua formação pessoal e profissional nos Estados Unidos. “Eu estou aqui há 42 anos. Nunca mais morei no Brasil”, diz, num português claro, por vezes intercalado por alguns termos em inglês. A proficiência da língua do país de origem se deu por aprendizado nos Estados Unidos.

Essa vivência de longo prazo se reflete na forma como a DaGrosa enxerga a transformação de Miami. Para Primo, a mudança da cidade não é recente nem superficial. “Quando esses grandes empresários decidiram não só morar em Miami, mas trazer suas empresas para cá, ficou evidente que a cidade ia entrar em um outro ciclo”, avalia.

Inflexão estratégica

Fundada por Joseph DaGrosa, investidor americano com mais de três décadas de atuação em private equity, a DaGrosa Capital construiu sua reputação em aquisições, reestruturação de empresas e geração de valor em setores diversos, como alimentação, aviação, esportes e serviços. Ao longo desse período, a gestora realizou exits (venda) relevantes e acumulou experiência em engenharia financeira e gestão operacional.

Nos últimos anos, porém, a empresa passou por uma inflexão estratégica. Sem abandonar sua origem em private equity, ampliou de forma consistente sua exposição a real estate, hoje responsável por cerca de 70% do portfólio. Essa inflexão coincide com a entrada de Primo no negócio, por volta de 2015. Tanto ele quanto DaGrossa já realizavam investimentos passivos em real estate através de seus respectivos family offices antes dessa consolidação.

A decisão reflete uma leitura clara do mercado. “Hoje é muito mais difícil originar deals proprietários, usar alavancagem e cobrar os mesmos fees (taxas) de antes. No real estate, o investidor entende o ativo, o banco financia e o capital flui”, afirma Primo.

Kempinski/DivulgaçãoKempinski Residences Miami Design District, empreendimento residencial de alto padrão que marca a estreia da marca hoteleira Kempinski no mercado residencial dos Estados Unidos

Esse reposicionamento fica evidente no pipeline atual da gestora. A mais nova empreitada é o Kempinski Residences Miami Design District, empreendimento residencial e hoteleiro de luxo com VGV estimado em US$ 740 milhões e que dever ser entregue em 2029. Será o primeiro projeto da marca Kempinski nos Estados Unidos, reunindo hotelaria cinco estrelas, localização triple-A e vista permanente para a água. 

A escolha do endereço sintetiza a filosofia da casa. “A gente preza muito pela localização. Se você combina produto certo com localização certa, o risco de downside [desvantagem] cai drasticamente”, diz Primo. A aquisição do terreno, que envolveu oito lotes e três vendedores diferentes, foi viabilizada pelo conhecimento local acumulado ao longo de mais de quatro décadas na região.

O projeto se apoia em uma base de demanda estrutural, impulsionada pela migração definitiva de grandes grupos globais. “Essas empresas não fizeram compromissos de cinco anos. São movimentos de 20, 30 anos. Isso muda completamente a base do mercado imobiliário”, afirma.

A mesma lógica orienta outro empreendimento relevante da DaGrosa em Coral Gables, no centro financeiro da região. O terreno foi adquirido por US$ 38 milhões e dará origem a um projeto com VGV estimado em US$ 450 milhões, reforçando o foco em áreas consolidadas, com forte presença corporativa e restrição de oferta.

Além desses ativos, a gestora prepara o anúncio de um novo projeto com VGV superior a US$ 200 milhões, ainda sob sigilo, mas que terá ligação direta com o público brasileiro. “O tamanho não é o mais importante. Será algo que vai fazer muita gente olhar e perguntar como isso foi possível em Miami”, antecipa Primo.

Ponte Miami-Brasil

Essa conexão com o Brasil é parte central da estratégia. A DaGrosa se posiciona para capturar um eventual fluxo recorde de saída de capital brasileiro em 2026. Além de ser praticamente do jiu-jitsu brasileiro, que teve na família Gracie a grande propagadora da arte marcial nos Estados Unidos, Primo viajou ao Brasil onze vezes em 2025.

Tais viagens serviram para estreitar laços com investidores institucionais e incorporadoras que buscam segurança jurídica na Flórida, posicionando-se como o parceiro ideal por combinar o lastro de 40 anos de vivência local americana com a identidade de quem “fala a mesma língua” do investidor brasileiro.

Um dos frutos dessa ligação com o Brasil se materializou na parceria com Rodrigo Zaborowsky, da tradicional família da Zabo Engenharia, de São Paulo, criada pelo pai de Rodrigo, Gilberto Zaborowsky, amigo de Primo. Segundo Rodrigo, sua família, buscando institucionalizar seus investimentos nos EUA, optou por não atuar sozinha devido aos riscos de desconhecimento do mercado local, encontrando na DaGrosa o parceiro estratégico para essa expansão.

A relação evoluiu de um investimento pontual para uma sociedade operacional, onde Rodrigo hoje trabalha dentro da gestora e a família Zabo atua como sócia em diversas incorporações, unindo o know-how de engenharia brasileiro com o domínio de mercado e acesso a terrenos exclusivos que a DaGrosa possui em Miami.

Nova fase

O cenário atual é diferente dos ciclos anteriores. Em 2023, cerca de 60% das transações acima de US$ 10 milhões em Miami foram feitas à vista, um indicador de solidez do segmento de ultra-luxo. “Hoje o mercado é muito mais resiliente porque a gente não depende só do comprador estrangeiro. O comprador consistente é o americano”, afirma Primo.

Paralelamente, a DaGrosa amplia sua atuação geográfica. A gestora negocia um portfólio de US$ 560 milhões em galpões industriais em Michigan e Ohio, apostando no movimento de reindustrialização dos Estados Unidos. “Trazer o manufacturing [incentivo à industrialização] de volta cria uma demanda natural por ativos industriais e logísticos”, explica Primo.

A vantagem competitiva da empresa está no acesso local e institucional. Além de décadas de presença na região, a DaGrosa conta com conexões profundas no ecossistema econômico de Miami, incluindo a participação do ex-prefeito da cidade, Francis Suarez, como sócio. “Isso não é poder político. É conhecimento local. É saber navegar o mercado e encontrar oportunidades antes que elas fiquem óbvias”, resume.

Comprovação da tese Miami

A tese de que Miami deixou de ser apenas um destino de férias para se tornar uma potência corporativa global ganha rosto e cifras nos seus novos residentes. Segundo Primo, um dos indícios que comprovam isso é a chegada definitiva de titãs tais como Jeff Bezos (Amazon) e Ken Griffin (Citadel), este último investindo US$ 1,5 bilhão em propriedades, além de US$ 2 bilhões na construção da nova torre da empresa na cidade;

Essa chegada mexeu com o mercado de ultra-luxo, com os executivos adquirindo residências que chegam a quase R$ 200 milhões, redefinindo o teto de preços da região. Somam-se a isso a decisão da FIFA de instalar um escritório de 10 mil metros quadrados em Coral Gables para abrigar centenas de funcionários transferidos de Zurique.

São investimentos, segundo Primo, que representam compromissos de 20 a 30 anos, criando um lastro econômico que blinda a cidade contra o risco de bolhas imobiliárias.

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