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A Reinvenção de Uma Fazenda em Ruínas Que Se Tornou Hotel de Luxo no Equador

Sob a liderança de Mauricio Letort, a antiga propriedade familiar foi transformada em um modelo de gestão hoteleira que une legado, eficiência e posicionamento premium

8 min

Entrar no hotel San José de Puembo, perto de Quito, no Equador,  é como mergulhar em uma bolha onde o barulho da cidade se esconde atrás das árvores centenárias que adornam os pátios. Cada canto é cuidadosamente decorado. Há salas em estilo campestre, com pisos de madeira e cerâmica, tetos sustentados por vigas aparentes que conferem um toque rústico. 

A recepção parece saída de uma casa do Quito colonial. Pinturas e esculturas religiosas compõem o ambiente. A sala de espera reúne móveis de estilo vitoriano, tapetes de inspiração árabe e um candelabro rústico. A arquitetura típica de casa de campo contrasta com outros salões remodelados, de desenho mais contemporâneo.

O hotel combina harmonia, tradição e modernidade. Um exemplo é o restaurante principal, com amplas janelas nas paredes e no teto, enquanto, nas laterais, há salões mais tradicionais. Mauricio Letort, proprietário e CEO, recebeu a Forbes Equador para contar sua história. 

A ligação familiar

Mauricio cresceu na velha fazenda, hoje transformada em hotel de luxo. Aos 11 anos, partia dali para aventuras com os amigos. Viajavam pegando carona até Papallacta (refúgio andino dotado de águas termais) para pescar trutas. O San José de Puembo tornou-se seu ponto de partida e refúgio seguro, onde passar férias e feriados era obrigatório.

“Em Puembo não havia casas, apenas algumas fazendas. Era o local das férias e dos encontros com amigos. Quito parecia distante e não havia ônibus para chegar até lá”, recorda.

Seu pai, também chamado Mauricio, adquiriu a propriedade na década de 1980. A casa era antiga, com estrutura deteriorada, praticamente em ruínas. A reforma começou em 1988 e foi pensada como residência de temporada para a família e uma espécie de retiro para tias já idosas.

Elas nunca chegaram a morar ali. O projeto familiar não se concretizou e, dois anos após o início da reforma, quando seu pai abriu a fazenda, amigos passaram a procurá-lo para realizar convenções e eventos empresariais. Nos anos 1990, a propriedade contava com 23 quartos e duas salas de eventos. Não havia piscina nem quadras. Era um espaço voltado às empresas.

Da indústria de laticínios à hotelaria

Enquanto o pai reconstruía a fazenda, Mauricio estudava nos Estados Unidos. Formou-se em Ciência de Alimentos e obteve uma bolsa para estudar engenharia de alimentos na Nova Zelândia

Retornou ao país em meados dos anos 1990 e decidiu empreender. Com a ajuda de sócios, fundou a Lenutrit, empresa de leite pasteurizado em embalagem plástica, em Cayambe. “A ideia da Lenutrit era tornar o leite mais rentável para as pessoas que viviam em Cayambe. Era uma época em que não havia flores e a cidade estava em depressão”, diz.

A expansão do setor floricultor e a entrada de novos concorrentes afetaram o negócio. Durante o governo de Abdalá Bucaram, foi lançado o Abdalact, produto popular vendido a preços baixos. Na época, a Lenutrit vendia o litro de leite pelo dobro do preço do produto concorrente. A diferença foi devastadora.

Mauricio e os sócios decidiram encerrar a empresa. Além de fatores externos, reconhece que as decisões administrativas não foram as mais adequadas para superar a crise. Esse primeiro fracasso marcou o início de sua trajetória empresarial.

“O fracasso ensina o que você fez de errado, mas o sucesso ensina o que você fez de certo e é mais fácil de replicar. O sucesso abre caminho para o sucesso contínuo”

Mauricio Letort, proprietário e CEO do hotel San José de Puembo,

Enquanto sua empresa se encerrava, ajudava o pai a desenvolver o San José de Puembo, envolvendo-se especialmente na cozinha. Aplicou conhecimentos acadêmicos sobre boas práticas de manufatura e sistemas de segurança alimentar, ainda pouco difundidos na época.

Naqueles anos fundou a Truly Nolen, empresa de controle de pragas da qual é presidente. “Eu estava muito ocupado nos anos 90. Naqueles anos, eu era jovem, solteiro e ambicioso, querendo progredir na vida”, reconhece.

Em 2000, ao lado de um primo e de um amigo de infância, criou a Food Knowledge, empresa dedicada a inspeções em plantas de alimentos e à implementação de boas práticas de manufatura e sistemas de análise de perigos e pontos críticos de controle.

Liderança em transformação

Apesar de atuar em diferentes negócios, nunca se afastou do hotel. Desde 2018 é gerente-geral do hotel San José de Puembo. Sob sua gestão, a antiga fazenda foi consolidada como espaço de luxo. Se nos anos 1990 havia 23 quartos e duas salas, hoje são 78 quartos, 10 salas de reuniões e duas piscinas. Em 2025, o San José de Puembo faturou US$ 3 milhões, com rentabilidade de 20%.

O sucesso foi construído com esforço próprio e com uma equipe que se fortaleceu ao longo dos anos. São 62 colaboradores, que ele considera parte da família. Muitos são de Puembo, a cidade onde fica o hotel, e se formaram profissionalmente no hotel.

“Muitos dos nossos funcionários são de Puembo e foram treinados conosco. Há famílias que trabalham em diferentes áreas. Por exemplo, o padeiro e o chefe de manutenção são filhos do artesão que faz os reparos estruturais. O chefe de garçons e a governanta são marido e mulher; o filho deles trabalha no depósito e o sobrinho na cozinha”, diz ele, com orgulho.

Para Mauricio Letort, o êxito não se mede apenas pela ocupação dos quartos, mas também pela evolução de seu próprio caráter. Reconhece que, no início, sua liderança era “tirânica”, baseada em controle absoluto. Hoje, deu lugar a uma gestão horizontal, com maior circulação de informações e protagonismo da equipe.

“Estilos de gestão não são uma fórmula única que serve para todos. Eu mudei. Antes, eu tinha um estilo mais rígido; agora é mais suave, mais voltado para o trabalho em equipe e mais focado em pedir informações. No começo, eu era um tirano”, afirma.

A segunda piscina e a pérgola construídas durante a pandemia.
Patricio Terán A segunda piscina e a pérgola construídas durante a pandemia

Durante sua gestão, todas as 78 acomodações foram reformadas, assim como a área inferior e o spa. Um novo salão foi construído, com investimento de US$ 800 mil. Em 2024, pela primeira vez na história do hotel, houve distribuição de lucros.

“Na indústria hoteleira, é preciso estar constantemente renovando, mesmo que seja apenas reorganizando os móveis.”

Estrutura

No edifício moderno há quartos duplos com camas de casal e opções mais simples, mas com comodidades como lareiras e poltronas que tornam os ambientes mais acolhedores.

Para famílias, existem cabanas completas, mais reservadas, com uma ou duas suítes, sala de estar e jantar e cozinha equipada. A temperatura pode ser regulada por um sistema de aquecimento instalado no piso.

A diária varia entre US$ 91 e US$ 198 por quarto. Há também opções de day use para aproveitar as instalações durante uma manhã inteira, com preços entre US$ 39 e US$ 45 para adultos e entre US$ 19 e US$ 25 para crianças.

A pandemia como ponto de inflexão

A pandemia foi um período desafiador para o setor hoteleiro. O hotel precisou fechar as portas durante a crise sanitária. Ainda assim, Letort manteve 90% dos funcionários.

Adotou uma política que define como muito familiar. Foi acordada uma redução salarial temporária e identificados aqueles que ajudariam a sustentar o negócio. Alguns colaboradores mais velhos optaram por se desligar por medo de contágio. Em setembro de 2021, os demais retornaram com salários integrais e todos os benefícios legais.

“Quando as coisas ficam tão ruins quanto possível, e não há nada pior para um hotel do que uma pandemia, a primeira coisa a fazer é manter a calma. Não se desespere”, diz o empresário.

Durante o confinamento, seguiu investindo. Hospedou um carpinteiro em uma tenda para construir uma nova pérgola na área do spa e a segunda piscina.

Estudou profundamente o vírus, a ponto de ministrar cursos e palestras para o setor hoteleiro e para o Ministério do Turismo. Ajudou a elaborar o protocolo nacional de reabertura dos hotéis.

Também aproveitou a reabertura dos aeroportos para viajar a Miami e adquirir equipamentos de academia em liquidação para o hotel.

“A academia está disponível para todos os nossos hóspedes, mas é mais utilizada pelos CEOs das empresas que realizam eventos. Este espaço costuma ser fundamental para a decisão deles de escolher San José de Puembo para seus eventos”, afirma.

Mauricio espera que seu hotel seja um espaço seguro e que as famílias o visitem para um fim de semana, uma tarde ou para um evento.

Reportagem originalmente publicada em Forbes.com.ec

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