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Construção Civil Vive Cenário Misto: Emprego Brilha, Mas Juros Altos e Custos de Materiais Acendem Alerta

Com INCC-M no maior patamar desde 2025 e recuo na confiança empresarial, cenário exige cautela apesar do mercado de trabalho aquecido

4 min

O setor de construção civil mostra dados mistos, evidenciando um panorama sem sinal único – por um lado, a participação na atividade segue pujante, grande geração de empregos, por outro, a pressão de custos e os juros altos seguem sendo catalisadores negativos. A tese é do BB Investimentos, com base em dados recentes do setor imobiliário.

Em relatório sobre o segmento, o analista Felipe Mesquita destaca que, conforme o Caged, foram gerados 86 mil postos de trabalho líquidos (228 mil no mês anterior), sendo que somente a construção civil foi responsável por 23,5 mil – representando 27,4% do total de vagas de emprego líquidas do mês.

Com isso, o setor incrementou sua participação para 9,6% do total de empregos criados nos últimos 12 meses, maior nível nessa base de comparação em cerca de dois anos.

Desta forma, dados de emprego tendem a ser um dos argumentos mais sólidos para se manter otimista com o ramo. Todavia, enquanto o mercado de trabalho se mantém aquecido, outros termômetros do setor apontam em direção oposta.

Indicadores como o Índice de Confiança da Construção (ICST), medido pelo FGV Ibre mostraram leve avanço em maio, chegando a 93,0 pontos. O indicador de Situação Atual também melhorou, alcançando 92,4 pontos.

No entanto, olhando para o Nível de Expectativas – que mensura o humor dos empresários em relação ao futuro – foi registrado recuo para 92,9 pontos, uma queda de 0,5 ponto percentual (p.p.) no mês e de 1,9 p.p. na comparação anual.

Os dados da Sondagem da Construção da CNI reforçam isso, com alta no nível de atividade presente, mas desaceleração nas projeções para os próximos seis meses.

Outro dado que reforça essa leitura é o Nível de Utilização da Capacidade da Construção (NUCI), que caiu para 77,4% em maio, baixa de 0,4 p.p. no mês e 2,1 p.p. na base anual.

Trata-se do menor patamar registrado para um mês de maio desde 2022, quando o índice marcou 76%.

“Não há dúvidas de que a construção civil tem mostrado uma atividade pujante ao longo dos últimos anos, se mantendo constantemente como uma das principais fontes de fomento do PIB brasileiro, mas sinais mistos vêm sendo capturados nas últimas atualizações de dados relacionados ao setor, o que tem limitado a previsibilidade sobre o seu comportamento futuro”, diz o BB Investimentos.

Juros de dois dígitos e custos em elevação pressionam construção civil

Leituras recentes do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) já indicam uma pressão altista nos custos de materiais, funcionando como um catalisador para um cenário mais inflacionário já nos próximos meses – e na esteira do conflito do Oriente Médio, que puxa preços do petróleo para cima e cria uma inflação generalizada.

O INCC-M encerrou maio com alta de 0,77% no mês e avanço de 6,82% em 12 meses, figurando como o maior patamar desde setembro de 2025. O componente de materiais registrou alta de 1,02% em maio, segundo mês consecutivo de aceleração. No ano, a inflação dos materiais já bate 5,7%.

O relatório do BB Investimentos aponta que o componente de materiais “não dá sinais de arrefecimento no curto prazo.”

O custo de mão de obra, ao menos, segue em trajetória inversa: alta de 0,43% em maio e 8,4% acumulados em 12 meses, mas em constante desaceleração desde o pico de 10,43% registrado em agosto de 2025.

Além disso, os juros seguem como detratores.

Embora em ciclo de baixa, a postura do Banco Central (BC) que poderá vir a ser mais austera (hawkish, no jargão do mercado) por conta da guerra e das incertezas fiscais ainda inspira cautela. De todo modo, a taxa Selic também segue relativamente longe de virar para um dígito percentual.

O Boletim Focus revisou a estimativa de Selic terminal para 2026 de 12,25% — projeção do início do ano — para 13,75%, em uma diferença de 1,5 p.p.

“Isso não só pressiona o endividamento das companhias, como limita a atratividade dos financiamentos imobiliários com taxas livres”, analisa Felipe Mesquita.

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