Muitas reportagens já destacaram os obstáculos para desenvolver e preservar moradias acessíveis. Terrenos, materiais e mão de obra cada vez mais caros, regras rígidas de zoneamento, movimentos NIMBY — sigla em inglês para “não no meu quintal” — e estruturas de financiamento complexas são apenas alguns dos muitos desafios enfrentados.
Nos bastidores, porém, organizações sem fins lucrativos trabalham para construir novas moradias e proteger o estoque residencial existente por meio de parcerias, sistemas e programas destinados a reduzir a escassez de unidades habitacionais acessíveis.
Um exemplo desse movimento ocorre em Jacksonville, na Flórida, onde a Ability Housing e a United Way of Northeast Florida uniram forças a partir de um aporte de quase dois terços de US$ 1 milhão (R$ 5,13 milhões) em recursos filantrópicos fornecidos pelo JPMorgan Chase & Co.
“O aumento dos investimentos em soluções habitacionais que estamos vendo por parte de grandes empresas nacionais reflete uma realidade que comunidades locais como a nossa enfrentam há anos: o custo das necessidades básicas, especialmente da moradia, aumentou muito mais rapidamente do que os salários”, afirma Melanie Patz, presidente e CEO da United Way of Northeast Florida, com sede em Jacksonville.
Pergunte à ALICE
Ela acrescenta que um relatório recente da United Way sobre famílias classificadas como Asset Limited, Income Constrained, Employed (ALICE) — pessoas empregadas, mas com patrimônio limitado e renda restrita — indica que uma parcela significativa das famílias trabalhadoras dos Estados Unidos recebe rendimentos acima da linha federal de pobreza, mas não consegue arcar com níveis mínimos de despesas com moradia, alimentação e cuidados infantis, entre outras necessidades cotidianas.
O estudo mais recente da United for ALICE revela que quase 76% dos inquilinos de baixa renda e proprietários de imóveis com financiamento hipotecário gastam mais de 30% de sua renda com moradia, o que significa que estão gravemente comprometidos financeiramente com os custos habitacionais.
A rápida alta dos custos de moradia, que supera a inflação, fez com que 41% de todas as famílias americanas ficassem abaixo do chamado Limite ALICE de Sobrevivência Financeira.
A situação pode ser ainda mais preocupante na Flórida, que, depois do Havaí, apresenta o maior percentual de inquilinos do país com custos habitacionais excessivos: 55%.
“Os dados do nosso mais recente Relatório ALICE mostram que centenas de milhares de famílias trabalhadoras no nordeste da Flórida estão fazendo tudo certo”, acrescenta Patz. “Ainda assim, estão ficando para trás porque as contas simplesmente não fecham mais.”
Longe de ser um caso isolado
Não são apenas as estatísticas da ALICE que traçam um cenário desanimador para a acessibilidade habitacional.
A National Low Income Housing Coalition (NLIHC) publica anualmente um relatório que evidencia o grande abismo entre os salários atuais e a renda necessária para pagar uma moradia. Recentemente, a NLIHC publicou o estudo Out of Reach 2025: The High Cost of Housing.
Em 2025, segundo o relatório, era necessário ganhar US$ 33,63 por hora (cerca de R$ 172) para conseguir pagar o aluguel de uma modesta residência de dois quartos e US$ 28,17 por hora (cerca de R$ 144) por uma unidade igualmente comum de um quarto.
Esses salários estão muito acima tanto do salário mínimo federal quanto da remuneração mediana dos trabalhadores de muitas ocupações comuns, entre elas cuidadores de idosos e pessoas que prestam assistência domiciliar, assistentes administrativos e trabalhadores do setor de alimentação.
Outro indicador que reflete a situação apontada pela ALICE é o Housing Cost Burden (peso dos custos habitacionais), uma métrica do U.S. Census Bureau e do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos (HUD).
O indicador considera famílias comprometidas quando precisam destinar 30% da renda bruta à moradia e severamente comprometidas quando são obrigadas a gastar 50% ou mais com aluguel ou despesas de financiamento imobiliário todos os meses.
Os números deixam claro que, para muitos americanos, os custos locais de moradia estão muito acima de sua capacidade de pagamento. Mais de 21 milhões de famílias americanas, por exemplo, estão na categoria de comprometimento severo com os custos habitacionais, desembolsando mais de 50% de sua renda com moradia.
O JPMorgan Chase não é a única empresa a intensificar os esforços em favor da habitação acessível na Flórida. No fim do ano passado, a Publix Super Markets Charities (PSMC) destinou US$ 15 milhões (cerca de R$ 77 milhões) a organizações sem fins lucrativos do sudeste dos Estados Unidos que atuam na área habitacional, entre elas afiliadas da Habitat for Humanity.
Na última década, a PSMC doou mais de US$ 69 milhões (cerca de R$ 353 milhões) a iniciativas voltadas ao desenvolvimento de moradias e abrigos de emergência na área de atuação dos supermercados Publix.
Os projetos locais de habitação acessível na região central da Flórida também se beneficiaram dos recursos concedidos pelo programa Neighborhood Builders, do Bank of America, à Orlando Neighborhood Improvement Corporation, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve moradias acessíveis, além da Foundation for Seminole State College.
Juntas, as organizações receberam US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) em subsídios para avançar na causa da habitação acessível na região central da Flórida, entre outras necessidades comunitárias.
Apoio às pessoas
Ao longo das três décadas em que desenvolveu comunidades e ajudou a construir bairros, a Ability Housing, organização sem fins lucrativos de Jacksonville especializada no desenvolvimento de moradias acessíveis, aprendeu que habitação é muito mais do que uma simples estrutura física. Para atuar como uma incorporadora orientada por sua missão social, a organização entende que também tem a responsabilidade de apoiar as pessoas que vivem nesses imóveis.
Organizações nacionais estão cada vez mais apoiando a infraestrutura social necessária para ajudar famílias que vivem em moradias acessíveis a alcançar a autossuficiência, diz Reggie Fullwood, CEO da Ability Housing.
“Pesquisas continuam mostrando que a estabilidade habitacional está diretamente ligada à saúde física, social, emocional e financeira de forma geral”, diz. “É animador ver que situações da vida real e pesquisas levaram a novas parcerias e ao apoio a serviços e programas integrados que mantêm as pessoas em suas moradias e avançando na direção certa.”
A contribuição de US$ 650 mil (R$ 3,3 milhões) do JPMorgan Chase será dividida: US$ 300 mil (R$ 1,58 milhão) serão destinados à United Way of Northeast Florida e US$ 350 mil (R$ 1,79 milhão) à Ability Housing.
A primeira utilizará sua parcela para ampliar o acesso a moradias acessíveis e duradouras, além de promover soluções sistêmicas para famílias comprometidas financeiramente com os custos habitacionais.
Os recursos ajudarão a organização a desenvolver e investir em iniciativas de base comunitária destinadas a apoiar famílias abaixo do limite ALICE e também contribuirão para financiar a reforma de 450 residências de idosos nos próximos quatro anos.
Cumprimento da missão
Entre as formas pelas quais a United Way of Northeast Florida já ajudou famílias comprometidas com os custos habitacionais estão a oferta de informações e encaminhamentos que conectam famílias a abrigos, alimentos e transporte; programas de capacitação profissional oferecidos a milhares de jovens adultos; reformas de residências de idosos; e o acompanhamento de dados sobre inflação e sobre o verdadeiro custo de vida.
A Ability Housing destinará seus US$ 350 mil (R$ 1,79 milhão) à modernização de seus sistemas financeiros e de tecnologia da informação, o que permitirá atender melhor à demanda por novas moradias acessíveis, afirma Fullwood.
“Somos extremamente gratos ao JPMorgan Chase pelo apoio enquanto nos preparamos para receber mais de 200 famílias do nordeste da Flórida em uma nova moradia acessível, com a conclusão de dois novos empreendimentos”, acrescenta. “Os ganhos de eficiência proporcionados por esse processo liberarão mais tempo para nos concentrarmos no cumprimento de nossa missão e nos serviços oferecidos aos moradores.”
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com