A Flórida, na última meia década, ganhou ainda mais protagonismo no mercado imobiliário americano. Em meio ao sol, clima tropical, mais espaço e ausência de impostos estaduais, o estado tem passado por uma alta do preço médio dos imóveis da região — e também por uma ida massiva de bilionários e grandes corporações.
Paulo Tavares de Melo, Sócio da Integra, empresa de investimento e desenvolvimento imobiliário da Flórida, comenta que o mercado tem “assistido à pujança da riqueza americana” nos últimos anos, e que os movimentos são “realmente muito significativos e têm mudado o panorama.”
“Há cinco ou seis anos, uma venda de uma casa por US$ 50 milhões era um evento. Hoje em dia diria que é algo muito mais normal”, diz, em entrevista à Forbes.
O especialista considera que há uma valorização e um crescimento expressivo especialmente no Sul da Flórida, em três condados — Miami-Dade, Broward e Palm Beach — que compartilham dos mesmo fatores que causaram valorização.
O comprador tem sido, neste ciclo, majoritariamente americano, embora o peso relevante do comprador estrangeiro — em grande medida latino — de imóveis em Miami, historicamente.
Esse boom, dos últimos cinco anos, modela inclusive a arquitetura do entorno, entre as palmeiras-reais características da região.
Como exemplo, Tavares de Melo cita que o St. Regis, projeto residencial de luxo em Miami que está no portfólio da Integra, tem os traços que são usuais aos americanos, feitos pela lapiseira e o esquadro e um ex-decano da Yale School of Architecture.
“Escolhemos o Robert A. M. Stern, um arquiteto de Nova York. Os melhores prédios de Nova York foram feitos pelo escritório dele, e nós o escolhemos justamente por conta disso. Como sabíamos que a nossa clientela para esse empreendimento seria majoritariamente de americanos, queríamos algo que eles se identificassem mais. Consideramos que foi uma escolha acertadíssima”, conta.
O empreendimento em questão é uma torre de condomínios de luxo na Orla de Brickell. O terreno antigamente abrigava as Stanley Axelrod Towers.
O projeto tem Valor Geral de Vendas (VGV) de US$ 1,3 bilhão e mais de 150 unidades residenciais. Uma cobertura no St. Regis já foi vendida por mais de US$ 45 milhões.

Menos impostos, mais bilionários
O boom imobiliário do Sul da Flórida começou na pandemia, com a predileção do americano por um local mais espaçoso e com mais vantagens tributárias.
A Flórida não cobra imposto estadual sobre a renda de pessoas físicas. Nova York, por exemplo, cobra imposto estadual de renda, com alíquotas progressivas que beiram 11%.
Ademais, o clima também é bastante distinto. Na Flórida, o clima é tropical (monçônico), com mínimas em torno de 15 °C, sem neve, ante um estado de Nova York que tem temperaturas médias perto dos 0 °C no inverno.
Segundo o Census Bureau, a Flórida foi o estado que teve a maior migração de americanos em um passado recente.
Os ganhos de migração doméstica líquida entre 2020 e 2021 superaram 220 mil pessoas. Em 2022 foi registrado o pico, com mais de 440 mil pessoas.
Nova York respondeu por 13,5% dos migrantes domésticos que chegaram à Flórida. Assim como os migrantes da Califórnia, o movimento mostrou uma predileção por um local com clima diferente e mais espaço, em detrimento de localidades com alta densidade e alto custo.
Afora esses números que impulsionam diretamente o mercado de residências, destaca-se também o crescimento das grandes corporações — que por sua vez também puxa para cima o número de migrantes e de aluguéis e compras de imóveis no estado.
“Há um momentum. Com a vinda do primeiro, vem o segundo, e assim vai. Na advocacia, por exemplo, não existia aqui certos nichos, simplesmente porque não havia demanda. Essas empresas já estão estabelecendo presença no sul da Flórida, e aí isso vira uma bola de neve, algo que se retroalimenta”, avalia Paulo Tavares de Melo.
Como exemplo, o Kirkland & Ellis, maior escritório de advocacia do mundo, e a Winston & Strawn anunciaram novas sedes em Miami já em 2022. Neste ano, a Tarter Krinsky & Drogin abriu escritório na Brickell, em Miami.
Grandes corporações, inclusive gigantes do ramo financeiro, também mudaram endereços e sedes.
As grandes corporações que se mudaram para a Flórida
- A Citadel transferiu sua sede global de Chicago para Miami em 2022, em um dos movimentos mais emblemáticos.
- Elliott Management trocou Nova York por West Palm Beach
- A divisão de Wealth and Investment Management da Wells Fargo saiu de São Francisco para West Palm Beach, sendo o primeiro grande banco dos EUA a transferir toda a sede dessa divisão para a região.
- ARK Investment Management, de Cathie Wood, trocou Nova York por St. Petersburg
- Icahn Enterprises, do bilionário Carl Icahn, saiu de Nova York para Sunny Isles Beach em 2021, quando o empresário transferiu parte da empresa para a Flórida.
Compras de imóveis na Flórida por bilionários
- Larry Ellison (Oracle) — Comprou uma mansão de cerca de 64.750 m² em Manalapan (Palm Beach) por US$ 173 milhões, com praia de um lado e Intracoastal do outro
- Mark Zuckerberg (Meta) — Comprou uma mansão em construção de cerca de 2.800 m² e 9 quartos em Indian Creek, Miami, por US$ 170 milhões, no “Billionaire Bunker” (recorde do condado de Miami-Dade)
- Ken Griffin (Citadel) — Comprou uma propriedade de cerca de 16.190 m² à beira-mar em Coconut Grove, Miami, por US$ 106,9 milhões, vendida por Adrienne Arsht
- Larry Page (Google) — Comprou um complexo de cerca de 18.210 m² na baía de Biscayne, em Coconut Grove, Miami, por US$ 101,5 milhões, com duas casas principais
- David Hoffman (Hoffman Family of Companies) — Comprou uma casa de cerca de 1.600 m² à beira da Naples Bay, em Port Royal, Naples, por US$ 85 milhões (recorde do condado)
- Jeff Bezos (Amazon) — Comprou uma mansão de cerca de 860 m² com piscina em Indian Creek, Miami, por US$ 68 milhões, no “Billionaire Bunker”
O preço do metro quadrado em Miami e os imóveis mais caros da Flórida
Miami ainda é uma cidade com preços mais baratos do que algumas das metrópoles mais relevantes do mundo.
Dados da consultoria imobiliária britânica Knight Frank mostram que, com US$ 1 milhão, compram-se 58 metros quadrados de um imóvel de alto padrão em Miami, contra 34 metros quadrados em Nova York e 33 metros quadrados em Londres.
Apesar disso, a valorização é expressiva. O relatório “Wealth Report 2026” da consultoria em questão rotula Miami como uma das maiores vencedoras da reorganização global da riqueza dos últimos anos.
Um levantamento feito pela Forbes com imóveis listados em imobiliárias de luxo da Flórida indica que os imóveis mais caros do estado superam os US$ 200 milhões — mais de R$ 1 bilhão no câmbio atual.