Como Raquel Davidowicz mantém a UMA jovem após duas décadas de história

Surgida nos anos 1990, a marca conversa com público que vai de boomers a Gen Z pautada em temas como coleções colaborativas e sustentabilidade.

Rebecca Silva
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Vini Brandini
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Raquel Davidowicz desenhou a trajetória da UMA pautada por atemporalidade e arte

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Quando criou a UMA ao lado do marido, nos anos 1990, Raquel Davidowicz queria fazer algo diferente. Em uma época em que a moda já era fortemente pautada por tendências e pela cultura norte-americana – assim como a música e o cinema –, eles decidiram focar os esforços na criação colaborativa para se diferenciar de outras marcas. Enquanto as grandes labels se aproveitavam de seus nomes consagrados e suas supermodelos, a UMA se pautava em conexões e atemporalidade. Hoje, 24 anos depois, ela se mantém firme no propósito, ganhando novos braços em um mundo cada vez mais focado na colaboração.

O pontapé da marca aconteceu com um estoque de 3 mil peças bancado pelos dois, em 1997, quando o casal juntou amigos de tribos diferentes para vender produtos em uma galeria de arte. Recordando o início da história, Raquel conta que a ideia de lojas itinerantes (parecidas com o que hoje chamamos de pop up stores) surgiu porque nem ela nem o marido Roberto – filho de imigrantes europeus que também trabalhavam com moda – queriam entrar nos moldes existentes até então.

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Apostando em promoters em vez de vendedores tradicionais, a marca atingiu um mailing de ouro e causou buzz na cena de arte e moda da capital paulista. Entre 2004 e 2018, a UMA desfilou na São Paulo Fashion Week. Chegou a ter lojas em shoppings como Higienópolis e Morumbi, em São Paulo, além de uma unidade no SoHo, em Nova York – que durante a pandemia se converteu em dark store (centro de distribuição para e-commerce). Mas o tempo fez com que Raquel percebesse que seu consumidor buscava outra experiência. “Temos um público fiel e específico. Temos clientes com peças compradas há 18, 20 anos. Isso para mim é o maior elogio que podemos receber porque mostra a afetividade e a apreciação pela marca”, afirma. Atualmente, ela conta com duas lojas: uma em São Paulo, na Vila Madalena, e outra no Rio de Janeiro, no Leblon.

Por causa de uma conexão forte com a arte, algumas coleções da UMA foram criadas em parceria com artistas brasileiros, como Lygia Clark, Regina Silveira, Jac Leirner e Macaparana. “Com todos que colaboramos, mantemos uma relação pessoal, além da marca”, diz.

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O trabalho com pinturas de Lygia Clark, por exemplo, veio após Raquel visitar uma exposição da artista mineira em São Paulo. Ela entrou em contato com a neta da pintora para apresentar a ideia. Mostrou estampas e peças que não só foram aprovadas, mas ainda hoje são vendidas na loja e têm a renda convertida para a população carente de comunidades do Rio de Janeiro.

Agora, depois de trazer para as peças o trabalho de artistas com quem queria colaborar, Raquel traz suas próprias obras para a nova coleção da marca, Marte. Foi algo que começou durante a pandemia, quando ela aproveitou o momento de pausa para pintar. “Como eu não gosto de ficar parada, preciso manter a mente ocupada, comprei telas e fiz testes”, conta. “Claro que fiz telas horríveis no início, o cheiro das tintas era forte. Fui me adaptando, trouxe o material para a loja e a equipe achou bacana”, relembra, aos risos.

Divulgação
Divulgação

Uma das telas criadas por Raquel Davidowicz durante a pandemia que entrou para a coleção Marte da UMA

A pandemia também trouxe a oportunidade de aprofundar os testes de tingimento natural, parte da visão sustentável da UMA acerca dos materiais usados em suas peças. No jardim de casa, em grandes panelas, Raquel e os dois estilistas da marca quebraram a cabeça para descobrir a melhor forma de usar ingredientes como cúrcuma e cebola para criar pigmentos. Peças que estavam encostadas no estoque, de coleções passadas, também foram levadas para casa para ganhar uma nova cara, em uma prática conhecida como upcycling. “Tentamos aproveitar ao máximo o tempo parado por causa da pandemia. Foi muito divertido o exercício de brainstorming. Cada um de casa, com suas máquinas de costura, criando novas peças”, recorda.

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Depois de duas décadas à frente do negócio, Raquel afirma que o trabalho precisa ser dinâmico para ser estimulante. “É um laboratório de experiências. É preciso bolar coisas diferentes para a marca não envelhecer com os donos e estilistas. Não podemos reproduzir só a nossa mentalidade. É inspirador ter um desafio novo, inventar história nova para as próximas coleções.”

Com o objetivo de se aproximar mais dos Millennials e da Geração Z, a UMA ganhou a irmã mais nova, UMA X, comandada por Vanessa Davidowicz, filha de Raquel e Roberto. Com peças sem gênero, vendidas apenas no varejo e no e-commerce, a marca conta com preços mais acessíveis e uma proposta sustentável. A ação colaborativa já vem do título: o X aparece para se conectar aos nomes dos artistas e iniciativas com que colabora. “Não adianta tentarmos vender UMA para um jovem iniciando a vida adulta, ainda sem tanto poder aquisitivo. Tenho clientes de 80 anos que são poderosas consumidoras, mas preciso me conectar com o jovem recém-formado também. Queremos que a marca se mantenha contemporânea.”

Amanda Adász
Amanda Adász

Raquel Davidowicz ao lado da filha Vanessa; juntas, elas tocam a UMA e a UMA X

Empresa familiar desde a fase embrionária, a UMA conta há dois anos com a presença de Vanessa também como diretora de marketing. A jovem de 28 anos estudou marketing e business em moda na Europa e ajuda a trazer o olhar que a marca busca para renovar a clientela. “Essa geração nova é tão diferente, tão cabeça aberta. A moda atualmente é isso. Precisamos estar abertos a pensar diferente sobre as roupas. A sustentabilidade e a ética precisam ser prioridade”, diz Raquel.

Na UMA X, por exemplo, são utilizadas tecnologias importadas de tecidos como Econyl, nylon regenerado de resíduos de pesca, tecidos e plásticos encontrados em oceanos. Nas etiquetas, a marca oferece todas as informações divulgadas pelo fornecedor sobre a rastreabilidade do impacto que causam com suas produções. Em um mundo em adaptação, que muitas vezes apela pro greenwashing para atender aos pedidos do público, cada vez mais consciente e exigente, Raquel gosta de voltar ao início, mesmo que esteja tão conectada com o futuro, para explicar suas ações presentes: “Nunca tivemos a pretensão de ser uma marca gigante. Sempre quisemos atender ao público que nos entende. E vai sobreviver quem tiver a propriedade de existir”.

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