Você teria coragem de pedir um feedback para seus ex-chefes? Eu tive

Convidei CEOs com os quais trabalhei a compartilharem suas opiniões sobre o que me fez chegar até a posição que hoje ocupo e divido aqui algumas respostas que recebi

Luciana Rodrigues
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Daniel Lloyd Blunk-Fernández
Daniel Lloyd Blunk-Fernández

As respostas dos CEOs começaram a chegar e foram espantando meus medos — coragem, substantivo feminino, é isto: agir, apesar de tudo

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Mandei um email para meus antigos e atuais líderes — e as respostas me deram ainda mais coragem para continuar. Uma das minhas “especialidades” é ser muito crítica e pouco acolhedora comigo mesma — e não estou sozinha nisso, muitas mulheres que conheço sofrem desse mal.

Quem vê de longe acha que subir degraus no organograma de uma empresa significa estar cada vez mais confortável e satisfeita com sua posição. Nem sempre.

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Acontece que não existe uma cartilha sobre como se tornar líder. O que existe é o percurso de cada pessoa, com suas derrotas e vitórias — mais derrotas do que vitórias.

E, se por um lado saber usar as suas características a seu favor é fundamental para se construir uma carreira consistente, por outro, às vezes não reconhecemos nossas melhores características. Por isso, ouvir quem fez parte da sua trajetória é um aprendizado e tanto. Mas ouvir com intenção e trazer para a vida, é ainda mais importante.

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Como mulher, a gente sabe que acreditar num elogio é, às vezes, mais difícil do que lidar com uma crítica.

Pensando nisso, convidei CEOs e presidentes com os quais tive o privilégio de trabalhar ao longo de meus 25 anos de jornada a compartilharem suas opiniões sobre o que me fez chegar até a posição que hoje ocupo. Fiz perguntas do tipo “como você me descreveria em uma palavra” e “com qual esportista você me compararia”.

Com muita coragem (e cara de pau), envie os emails com todos aqueles medos que todas temos: será que vou incomodar? Será que alguém vai responder? Será que as respostas serão sinceras? Botão “send” apertado. Já era.

As respostas começaram a chegar e foram espantando meus medos — coragem, substantivo feminino, é isto: agir, apesar de tudo. Me emocionei muito ao ler cada linha, e as revisitarei sempre que precisar ser mais generosa com a Lu que vejo todos os dias no espelho.

Dedico este artigo a todas as mulheres que já cruzaram a minha jornada, as que fazem parte dela hoje — importante compartilhar que na empresa da qual sou CEO, somos 70% de mulheres no board e 60% na liderança. E a todas que ainda não tiveram o seu devido reconhecimento. Eu te honro e te admiro.

1. Otimismo e coragem são fagulhas catalisadoras

“São as grandes ideias que vencem, e sua capacidade de conectar ideias a oportunidades sempre traz resultados. O otimismo, essa atitude de que tudo é possível, é uma faísca que ilumina e dá força para seguir em frente. Se fosse um atleta seria como o Mariano Rivera (New York Yankees): focada, confiável e sempre fecha negócio – melhor elogio vindo de uma nova-iorquina! :)”

Christina Miller, presidente global da Cartoon NetworkAdult SwimBoomerang (2014-2020)

2. Todo mundo tem um superpoder

“Em um mercado cheio de grandes criativos com grandes ideias, é difícil ser capaz de abrir espaços e de entregar a mensagem. Nesse sentido, você é uma profissional que consegue pegar um conceito e destacá-lo com sua própria mágica. Você sempre acha uma forma de dar vida às coisas com paixão e criatividade — esse é seu superpoder.”

Rani Raad, presidente comercial internacional da CNN

3. Encontre uma palavra que te defina (sem te limitar)

“Para mim, uma palavra que a define é coragem. Muita coragem.”

Lee BrownN, diretora financeira global do Buzzfeed (2015-2019)

4. Às vezes, os melhores conselhos são os mais simples — mas não fáceis

“Em 2014, estávamos conversando e você fez uma pergunta simples, mas poderosa: “Por que a Time Warner, que é dona da Turner, Warner Bros. e HBO, não unifica a operação, e junta seus colaboradores sob um mesmo teto? Você entendeu que haveria uma maior sinergia se as empresas não estivessem operando de forma independente. O que você provavelmente não sabia até hoje é que levei a nossa conversa muito a sério e tentei implementar o conceito. Acabou não sendo possível no curto prazo por causa de compromissos imobiliários, mas valorizei o seu entusiasmo e coragem. Os melhores líderes geralmente nunca estão satisfeitos com o status quo e estão constantemente procurando maneiras de sair de suas próprias zonas de conforto.”

“Ao longo da minha carreira, eu ouvi muitos conselhos e filtrei aqueles que achava que funcionavam para mim. Alguns dos melhores conselhos que recebi ao longo dos anos são os mais simples: seja humilde, cerque-se de grandes equipes, capacite-as e responsabilize-as. O microgerenciamento pode paralisar uma organização. Abraçar a diversidade de opiniões significa ter equipes que podem apresentar diversas formas de resolver problemas. Não tenha medo de tomar decisões decisivas, mas tome decisões com base em todos os dados disponíveis. Não tenha medo de falhar, aprenda rapidamente e mude se o que você está fazendo não está funcionando. O mais importante… divirta-se!”

John Martin, presidente global e do conselho de administração da Warner Media (2014-2018)

5. Ser leal a seus valores torna tudo mais fácil

“Quando estou no papel de CEO, acabo me frustrando porque as pessoas relutam em serem honestas comigo. Você, não. Uma lembrança especial foi ouvir você falar da sua filha, contando histórias falando com naturalidade sobre ser mãe, sem receio de ser mulher em um mercado dominado por homens. Se você fosse um atleta, acho que seria o Roger Federer, que é tanto um profissional de primeira linha quanto uma pessoa genuinamente boa, que faz tudo parecer fácil, mesmo quando sabemos que não é.”

Bob Jeffrey, CEO global e presidente do conselho de administração da J Walter Thompson (2004-2016) 

6. Coragem não é não ter medo, mas saber agir apesar dele

“Admiro muito a sua coragem. Você se tornou um farol para jovens mulheres no mercado, transformando sua tendência em evitar conflitos na capacidade de ter conversas francas.”

Stefano Zuzino, CEO e presidente do conselho de administração da J Walter Thompson Brasil (2005-2019)

7. Gente certa é gente aberta

“Você liderou uma mudança corajosa na Grey Brasil, introduzindo novas capacidades e serviços — e segue incomodada. Você sempre tem palavras de motivação e estímulo para os colegas, e essa personalidade calorosa mostra muita inteligência emocional.”

Nirvik Singh, presidente internacional da Grey 

8. Sempre tenha coragem de questionar

“Sua criatividade e otimismo não foram sempre compreendidos de primeira, muitas vezes parecia disruptivo demais querer implementar as mudanças propostas. Mas ter a habilidade de visualizar soluções criativas e as executar, apesar de todos os obstáculos e desafios burocráticos das grandes corporações, fez você se destacar daqueles que tendem a não questionar como as coisas são feitas.”

“A grandiosidade nunca vem sem questionamento. Sua capacidade de manter o foco no que deseja realizar, apesar de receber muitos ‘nãos’, sua implacabilidade e paixão são ativos únicos, fortes e importantes que certamente ajudam uma organização a alcançar o sucesso.”

Gretchen Colon, EVP da Latam e diretora geral no Brasil (2003-2018)

Fica aqui o convite a você, que me lê: faça o exercício de perguntar para seus antigos líderes que admira as fortalezas que enxergam em você. Tenho certeza de que as respostas vão surpreender, emocionar e motivar.

P.S.: O conteúdo integral das respostas dessa lista foi editado pela escritora, jornalista, editora e mãe do Lorenzo, Gaía Passarelli (que admiro imensamente) — mais uma lembrança da força das alianças que construímos.

Luciana Rodrigues é CEO da Grey Brasil, conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. 

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