Em 2023, a brasileira Luana Lopes Lara – ex-bailarina profissional e graduada pelo MIT que havia sido operadora de fundos de hedge na Citadel Securities – disse ao seu amigo de faculdade e cofundador Tarek Mansour que eles deveriam processar o governo dos Estados Unidos.
Quando deram a notícia aos seus investidores, todos se opuseram. Não importou. Até o final do ano, o mercado de previsões com sede em Nova York, Kalshi, havia processado a Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities dos EUA, desafiando os reguladores que haviam rejeitado seu pedido para permitir que usuários comuns apostassem no resultado de eleições políticas. Meses antes da eleição presidencial de 2024, a Kalshi venceu, tornando-se a primeira empresa a oferecer contratos eleitorais legais nos EUA em mais de um século.
A convicção de Luana rendeu, e muito. A eleição de 2024 tornou-se um divisor de águas para os mercados de previsões, levando um experimento antes restrito a acadêmicos e entusiastas de criptomoedas para o centro do debate público.
Hoje, a diretora de operações da Kalshi é a mais jovem mulher bilionária self-made (que construiu a própria fortuna). A empreendedora administra uma empresa que gera receita de US$ 1,5 bilhão anualmente e possibilita que os usuários apostem no resultado de eventos em esportes, cultura pop, política e muito mais.
Ela e Mansour – que detêm, cada um, uma participação estimada de 12% na Kalshi, atualmente avaliada em US$ 22 bilhões, e possuem um patrimônio de US$ 2,6 bilhões cada – completaram 30 anos no mês passado, tornando-se os membros mais jovens da lista inaugural “Iconoclast 50” da Forbes.
As mulheres da lista Forbes Iconoclast 50
Luana também é uma das dez mulheres a entrar na lista. Metade das inovadoras (como McKenzie Scott e Melinda French Gates) foram reconhecidas por doar seu dinheiro e causar um grande impacto, algumas delas ao lado de seus maridos.
A lista ainda inclui a bilionária Gwynne Shotwell, COO da SpaceX, que é a verdadeira força prática por trás de Elon Musk e conduz a empresa rumo a um IPO que pode avaliar a companhia em mais de US$ 1,5 trilhão.
Em indústrias como mídia e entretenimento, as mulheres trilham seus próprios caminhos, rompem com o status quo e acumulam riquezas no processo. Mais de 30 anos atrás, em 1990, quando a Forbes colocou Madonna em sua capa perguntando se ela era a “Mulher de Negócios Mais Inteligente dos EUA?”, a estrela pop e seus colegas não queriam ter nada a ver com a revista de negócios. Hoje, artistas como Taylor Swift e Beyoncé Knowles-Carter são reverenciadas por sua perspicácia nos negócios e não têm vergonha disso.
A potência de Luana Lopes Lara na Kalshi
Se existe um superpoder entre as mulheres da Iconoclast 50, é a atenção aos detalhes e a capacidade de atuar em diferentes frentes. No escritório da Kalshi em Manhattan, Luana e Tarek sentam-se em mesas de frente um para o outro, ao lado de seus funcionários.
O CEO cuida da vida externa da empresa, incluindo mídia, investidores, políticas e estratégia de alto nível. Já Luana, que se descreve como introvertida e a mais disciplinada e organizada da dupla, administra o dia a dia. “Eu consigo fazer muitas coisas, mas não 100%. Ele consegue fazer uma coisa 100%”, diz ela, acrescentando que em um dia qualquer ela pode alternar entre engenharia, design, marketing, criação de mercado, suporte ao cliente e jurídico.
É ela quem mantém a operação nos eixos, diz o líder de criptomoedas da Kalshi, John Wang. “Ela é como uma maestrina de orquestra.” Ele descreve o talento da empreendedora para trazer as pessoas certas para a sala no momento certo, garantindo que ninguém se distraia e colocando todos na mesma sintonia. “É como se ela conseguisse fazer malabarismo com 100 bolas ao mesmo tempo sem deixar nenhuma cair.”
Para uma empresa que se move a uma velocidade vertiginosa, Luana é responsável por garantir que nada a desacelere. Por exemplo, quando a Kalshi teve que reconstruir o software que aceita e roteia os pagamentos dos usuários, ela elaborou um plano e orientou as equipes de engenharia, produto e design a terminarem em dois dias o que normalmente levaria semanas. “Foi incrível de assistir”, diz Wang. “Ela tem essa mentalidade muito direta e um forte senso de urgência.”
Cerca de 150 funcionários agora respondem aos cofundadores, com a cofundadora gerenciando diretamente a produção diária. “O dia mais pesado da semana para mim é o domingo, quando defino as metas semanais que cada equipe deve atingir”, diz. Parte do seu trabalho é orientar e exigir mais de todos. A outra parte é dar o tom para o corpo de funcionários da Kalshi. De domingo a sexta-feira, ela costuma ser a primeira a chegar ao escritório e a última a sair, indo embora perto da meia-noite em alguns dias.
Luana quer que a Kalshi se torne a maior bolsa financeira do mundo e, apesar de seus desafios legais e regulatórios, muitos dos players de finanças homenageados na Iconoclast 50 da Forbes concordam. “Estamos apenas no começo de um superciclo de mercado de previsões que pode movimentar trilhões em volume anual ao longo do tempo”, disse Vlad Tenev, fundador e CEO da Robinhood, em uma teleconferência de resultados em fevereiro. A Robinhood começou a oferecer os mercados de previsões da Kalshi aos seus usuários em abril de 2025.
O Susquehanna International Group, de Jeff Yass, tornou-se o primeiro formador de mercado da Kalshi e há muito tempo defende o caso dos mercados de previsões. Até mesmo o presidente dos EUA, Donald Trump, está entre os aliados mais vocais: sua administração processou três estados que tentaram classificar os mercados de previsões como jogos de azar em abril. Seu filho, Donald Trump Jr., é conselheiro estratégico da Kalshi.
A força por trás da SpaceX
Gwynne Shotwell, da SpaceX, pode não ter o título de CEO na fabricante de foguetes de Elon Musk, mas por boa parte de duas décadas, foi ela quem liderou a empresa privada mais valiosa do mundo. Combinando sua formação em engenharia com seus talentos em vendas e desenvolvimento de negócios, Shotwell dirige as operações da SpaceX desde 2008. A empresa constrói uma economia totalmente nova no espaço sideral ao reduzir drasticamente os custos e aumentar a frequência dos lançamentos de foguetes.
Mantendo um perfil discreto ao longo dos anos, Shotwell silenciou os críticos que antes zombavam das ambições extraterrestres de Musk com resultados. Agora, as maiores empresas e investidores competem pelas oportunidades que a SpaceX tornou possíveis, incluindo a construção de data centers de IA no espaço.
Esse histórico reflete a disciplina e a insistência de Shotwell em uma cultura intensa com pouca tolerância a falhas. Laura Crabtree, que trabalhou na SpaceX como engenheira de 2009 a 2020, lembra que Shotwell costumava andar regularmente pelos andares, mantendo todos em alerta. Certa vez, Laura estava trabalhando no controle de uma missão quando Shotwell se aproximou e perguntou: “Ainda estamos sendo meticulosos em relação às nossas operações? Estamos ficando complacentes?” Era assim todos os dias, disse Crabtree à Forbes: “Você tinha que estar ligado e prestando atenção.”
Embora não seja muito conhecida fora do seu setor, Shotwell é descrita há muito tempo como a cola entre Musk e todos os outros. Ela não apenas responsabiliza as equipes de toda a organização pelos resultados, mas também é conhecida por conseguir oportunidades que antes eram consideradas impossíveis, como obter a aprovação dos reguladores para lançar foguetes da SpaceX a uma cadência que dobrou, ou até triplicou, a produção combinada de todos os outros fabricantes de foguetes dos EUA.
“A parte mais importante da minha função é manter meus 23 mil funcionários focados no excelente trabalho que fazem todos os dias”, disse Shotwell à Revista TIME em março. “Talvez minha melhor contribuição, além da geração de receita, seja manter todos focados, sem dar ouvidos ao barulho.”
“Vejo Gwynne como a orquestradora dentro do picadeiro do circo, que está girando os pratos e mantendo todos os elementos diferentes em equilíbrio”, disse Martin Halliwell, ex-diretor de tecnologia da empresa de satélites SES ao Los Angeles Times em 2024.
Mulheres na liderança da mídia e do entretenimento
Enquanto elas lideram as empresas de tecnologia mais comentadas da atualidade, alguns dos destaques da Iconoclast 50, como Taylor Swift, Beyoncé e JK Rowling reescrevem as regras que regem a mídia e o entretenimento em alguns dos maiores palcos do mundo.
Em 2020, Taylor Swift começou a regravar seus primeiros seis álbuns do zero após perder os direitos originais de streaming para investidores. Seus fãs abandonaram as gravações antigas e passaram a escutar as músicas relançadas. Em maio de 2025, ela usou os lucros da sua Eras Tour, que arrecadou mais de US$ 2 bilhões, para comprar esses direitos de volta da Shamrock Capital por cerca de US$ 360 milhões. Swift é a artista musical feminina mais bem paga do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 2 bilhões.
Da mesma forma, Beyoncé Knowles-Carter – a segunda nessa lista, logo depois de Swift – construiu sua fortuna de US$ 1 bilhão em uma aposta feita há mais de uma década, ao fundar a Parkwood Entertainment para gerenciar sua própria carreira, em vez de assinar com empresas de gestão. “Queria ser uma potência, ter meu próprio império e mostrar a outras mulheres que, quando você chega a esse ponto em sua carreira, não precisa assinar com mais ninguém e dividir seu dinheiro e seu sucesso – você mesma faz isso”, disse em uma entrevista de 2013.
Em dezembro de 2025, Beyoncé tornou-se bilionária depois que sua turnê recordista Cowboy Carter arrecadou mais de US$ 400 milhões. J.K. Rowling, de maneira semelhante, voltou ao clube dos bilionários em maio de 2025, quase três décadas depois de publicar “Harry Potter e a Pedra Filosofal“, em parte graças a um acordo lucrativo para uma série com a HBO. O acordo estimado em US$ 5 bilhões injeta vida nova na franquia Harry Potter e uma fortuna inesperada no bolso de Rowling.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com