Gabriella Antici conheceu o câncer de mama de perto – duas vezes. A primeira, há dez anos, durante um exame de rotina; a segunda, dois anos depois, em estágio ainda mais precoce. “Fui tratada imediatamente e consegui ficar curada”, lembra a fundadora e conselheira do Instituto Protea.
Ex-executiva, trabalhou durante 17 anos no banco de investimentos Goldman Sachs, e criou o Instituto há sete com o objetivo de garantir tratamento rápido e digno para mulheres de baixa renda. “Acredito que toda mulher, se passar pelo câncer de mama, deveria ter a mesma chance de ter o final feliz que eu tive.”
No Brasil, o câncer de mama é a principal causa de morte por câncer em mulheres no país, responsável por mais de 20 mil mortes anuais, de acordo com dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer). “Existimos para mudar essa realidade. Onde atuamos, estamos conseguindo dar acesso a mais tratamento e detectar a doença mais cedo.”
“Se a doença for detectada cedo e houver tratamento adequado, a chance de cura é altíssima – acima de 95%.”
Gabriella Antici, fundadora do Instituto Protea
Desde 2018, o Protea já impactou mais de 2.500 mulheres com tratamentos e realizou mais de 60 mil sessões de radioterapia, 35 mil de quimioterapia e 40 mil consultas. Além disso, conta com parcerias com mais de 170 empresas, entre elas Banco JPMorgan, Instituto Mary Kay, Cimed e Wickbold. “Queremos contribuir junto ao SUS para que a mortalidade caia vertiginosamente e levar nossos projetos de diagnóstico precoce para todo o Brasil.”
Nesta quarta-feira (29), o Instituto também promove o Jantar Protea, em São Paulo, que vai reunir convidados de diversos setores para arrecadar fundos para exames e tratamentos oncológicos destinados a mulheres em situação de vulnerabilidade.
A seguir, Gabriella Antici, fundadora do Instituto Protea, compartilha a experiência que a levou a fundar a organização, os avanços dos programas e o uso de inteligência artificial no diagnóstico.
Forbes: Como começou sua história com o câncer de mama?
Gabriella Antici: O câncer de mama faz parte da minha história familiar, e é uma história com final feliz. Fundei o Instituto porque acredito que toda mulher, se passar pelo câncer de mama, deveria ter a mesma chance de ter o final feliz que eu e minha família tivemos.
Minha avó materna teve câncer de mama depois dos 70 anos e viveu até mais de 90, falecendo de causas naturais. Tenho uma tia paterna que também teve e viveu até os 90, sem morrer da doença.
Há 20 anos, minha irmã foi diagnosticada com câncer de mama aos 34 anos, enquanto amamentava o segundo filho. Ela descobriu o tumor no banho, ao tocar na mama e sentir um caroço. Por causa dela, minha outra irmã e eu passamos a ser muito regradas com nossos exames de rotina, fazendo-os todo ano.
Como foi o momento em que recebeu o diagnóstico?
Há 10 anos, fui diagnosticada com meu primeiro câncer de mama durante um exame de rotina, em 2015. Peguei a doença localizada – estágio 3, porque era do mesmo tipo da minha irmã, chamado HER2 positivo, que cresce rápido. Felizmente, estava totalmente localizado e tive acesso imediato ao tratamento, o que me permitiu ficar curada.
Nessa época, estava em um momento da minha carreira em que queria “devolver” para a sociedade, mas ainda não tinha tido a ideia de criar o Instituto Protea. Dois anos depois, fui novamente diagnosticada com câncer na mesma mama. Dessa vez, peguei muito cedo – estágio 1. Não era estágio 0, porque já havia rompido um pouco o tecido mamário. Fui tratada imediatamente.
Teve algum momento marcante que te inspirou a querer ajudar outras mulheres que enfrentam a doença?
Quando cheguei em casa após a cirurgia do meu segundo câncer de mama e ia começar a quimioterapia, recebi o telefonema de uma amiga querendo saber como eu estava. Naquele telefonema, contei que estava bem, que havia descoberto cedo e que faria tudo novamente. Disse também que, desta vez, a quimioterapia seria mais leve e que nem perderia todo o cabelo, como da primeira vez. Minha amiga me disse: “Você é incrível, mas tem mesmo que agradecer. Minha funcionária de 40 anos acabou de ser diagnosticada e terá que esperar seis meses para tratar.”
Naquele momento, fiquei chocada: como alguém poderia ter que esperar enquanto eu tive acesso imediato ao tratamento e à cura? Foi ali, naquela conversa, que tive a ideia: criar uma ONG que desse acesso imediato ao tratamento. Ninguém merece ser diagnosticada e ter que esperar para começar a se tratar.
Como começou o Instituto Protea?
Comecei buscando parcerias com hospitais que tratam pacientes do SUS, porque queria viabilizar, pagando o redirecionamento a esses hospitais, para abrir mais vagas e tratar mais pacientes. Em junho de 2018, o Protea estava pronto. Chamei minhas amigas de diferentes áreas – marketing, terceiro setor, mercado financeiro – para se juntar a mim e criamos o conselho do Instituto.
De onde veio o nome Protea?
A Protea é uma flor de origem da África do Sul. Quem sugeriu o nome foi uma das conselheiras, que tinha carreira em marketing. O nome vem do deus grego Proteus, que tinha o poder da metamorfose. Também simboliza que a mulher que passa pelo câncer de mama precisa se transformar, ganhar força e superar desafios.
A flor em si é “durona”: resiste a mudanças climáticas, não é delicada. Isso simboliza a força e a resistência que a mulher precisa ter para enfrentar o tratamento e superar a doença. Além disso, é rosa, o que também agrega ao simbolismo.
Como funcionam as parcerias com os hospitais?
A primeira parceria foi com o Hospital Santa Marcelina, na zona leste de São Paulo. Perguntamos: “O que vocês precisam para tratar mais pacientes? Vamos desenhar um projeto para isso.” Assim nasceu o Projeto AMAR, que está em funcionamento até hoje.
Hoje, o Protea já aumentou em 50% o número de mulheres tratadas lá. Mais de 2.300 mulheres já foram beneficiadas com tratamento. Desenvolvemos um projeto com três pilares importantes para que o hospital pudesse receber mais pacientes encaminhados pelo SUS:
1. Exames todos no mesmo dia: Antes, a mulher ia ao posto de saúde, fazia o exame, consultava o especialista, voltava para o hospital. Agora, quando chega, já faz todos os exames no mesmo dia da consulta com o mastologista.
2. Biópsias fora do hospital: Um exame de biópsia de nódulos não palpáveis passou a ser feito em laboratório parceiro fora do hospital. A mão de obra é gratuita, pagamos apenas as agulhas, que custam R$ 2.500 cada. Isso liberou o centro cirúrgico e aumentou o número de cirurgias, reduzindo a espera de 75 dias para menos de 30.
3. Custos do tratamento: Pagamos dois terços do custo do tratamento, permitindo que o hospital receba mais pacientes.
A segunda parceria foi em Salvador, na Bahia, porque chegamos à capacidade máxima do Hospital Santa Marcelina. Fizemos parceria com o Hospital Aristides Maltez, que atende todos os tipos de câncer, inclusive de mama. Lá, o projeto é um pouco diferente: organizamos mutirões para diagnosticar e encaminhar as mulheres para tratamento imediato. Já realizamos seis mutirões, atendendo mais de 400 mulheres, com quase 200 casos encaminhados para tratamento imediato.
Além do tratamento, vocês também atuam no diagnóstico precoce. Como funcionam os projetos nessa área?
No primeiro ano do Protea, percebemos que um percentual alto das mulheres que chegavam no hospital já estava em estágio avançado. Então fomos entender por que elas estavam chegando nesse estágio.
Hoje, temos dois projetos. O primeiro é o CuidaMama. Foi um projeto piloto em Cotia, em São Paulo, para entender a jornada da paciente – desde a ida ao posto de saúde, passando pela primeira mamografia, até o acompanhamento nos anos seguintes. Criamos um sistema chamado Sistema Bússola, que navega a paciente desde a primeira consulta até o diagnóstico e o encaminhamento no hospital. Implementamos soluções em metade das UBS de Cotia, com resultados fantásticos: aumentamos a cobertura mamográfica e o encaminhamento de mulheres para tratamento.
Agora, estamos fazendo uma parceria com a Secretaria Estadual de Goiás e esperamos assinar em breve com a Secretaria Municipal do Rio. O projeto também já está no Hospital da Mulher. O sonho é que essa navegação se torne política pública, e estamos implementando o projeto em diferentes locais para alcançar esse objetivo.
O segundo é a tecnologia de inteligência artificial. Temos uma IA que lê mamografias e prevê o risco de câncer de mama em até cinco anos. Trouxemos essa tecnologia dos Estados Unidos, validamos no Hospital de Barretos e implementamos como projeto de pesquisa no Santa Marcelina, após recebermos uma doação de um mamógrafo digital. Estamos coletando dados para levar essa tecnologia ao SUS. Agora, aprovada pelo FDA [a Anvisa dos EUA], a ideia é que essa inovação, que começou como projeto de pesquisa em 2020, se torne o novo paradigma do rastreamento do câncer de mama, e queremos que ela também esteja disponível no SUS.
Por que apenas o rastreamento do câncer com base na idade não é suficiente?
Hoje, você faz a mamografia quando completa 40 anos. O problema é que sabemos que há mulheres abaixo dos 40 com câncer de mama. A visão da radiologista americana que criou essa tecnologia de IA é de que o rastreamento deve ser baseado no risco individual, e não apenas na idade. Você faz uma mamografia aos 25 anos e já descobre o seu risco. Se tiver alto risco, terá um rastreamento personalizado; se tiver baixo risco, pode aguardar até os 40 anos.
Quais avanços e desafios você enxerga hoje no enfrentamento do câncer de mama, no Brasil e globalmente?
O câncer de mama é o câncer mais comum entre as mulheres. A estatística global indica que uma em cada oito mulheres terá essa doença ao longo da vida. A boa notícia é que, se a doença for detectada cedo, quando ainda está localizada, e houver tratamento adequado, a chance de cura é altíssima – acima de 95%.
O problema é quando a doença é detectada tardiamente ou quando não há acesso ao tratamento. Nesse caso, a chance de cura cai drasticamente. No Brasil, se uma em cada oito mulheres terá câncer de mama ao longo da vida, uma em cada quatro não sobrevive cinco anos após o diagnóstico. Estamos falando, em média, de 56 mulheres que morrem por dia no SUS por câncer de mama, totalizando mais de 20 mil óbitos anuais.
Quais seus objetivos futuros à frente do Instituto?
Nosso objetivo é contribuir junto ao SUS para que essa taxa de mortalidade caia vertiginosamente. Temos uma rede de doadores e voluntários que possibilita nosso impacto crescente ano após ano. Hoje, estamos em dois estados, indo para o terceiro, mas nosso objetivo é expandir para todo o Brasil, levando os projetos de diagnóstico precoce para todas as regiões. Ainda há muito a ser feito.