Minha mulher é chorona. Não no sentido pejorativo, mas no literal: quando ela se emociona com algo, ela chora. Assistíamos a um filme uns meses atrás, quando olhei para o lado e vi que ela derramava lágrimas copiosamente, enquanto eu, provavelmente tão emocionado quanto ela, fazia o oposto: tentava segurar as minhas bravamente.
Sou desses que têm dificuldade em chorar, e nem sei explicar direito. Não é por falta de emoção, porque tenho certeza de que sinto tanto quanto ela. O que me falta é abrir a torneirinha, como se costumava dizer quando eu era criança.
A verdade é que o choro ainda é um mistério. As lágrimas, por si só, não significam nada. Elas só são derramadas quando significam algo, e esse algo pode ser desde o luto por quem se foi até a emoção por uma conquista, como temos visto nos jogos da Copa. Choramos, no fim das contas, diante daquilo que rompe a nossa indiferença.
O choro também é um instrumento de aproximação. Quando alguém chora na nossa frente, dá vontade de chegar perto e de acolher. Eu lido com casos graves, então não é raro que um paciente chore na minha frente ao contar sobre a sua condição e que, assim como ele, eu também me emocione. E quando ele percebe que me tocou, se sente acolhido. E a ciência comprova isso: o efeito positivo do choro acontece justamente quando ele se dá em um ambiente seguro e de acolhimento, como mostrou um estudo de 2014. Ou seja, o que cura é o que acontece depois do choro.
Há outra ideia bonita a respeito do choro, e ela nem é minha. Ela diz que choramos diante da beleza porque sabemos que nada dura para sempre. Talvez seja por isso que a felicidade das pequenas coisas provoca em nós comoção. Ver um filho ou um neto nascer, ouvir uma música que lembra um momento importante, assistir ao pôr do sol, reencontrar quem amamos. Quase tudo o que existe de melhor na vida nos aproxima das lágrimas.
Quanto a mim, ando aprendendo a deixar o melhor da vida abrir a minha torneirinha. Outro dia, em um filme bobo, deixei uma escapar e não fiz força nenhuma para enxugar.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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