Há algumas semanas, fui convidado pelos alunos de medicina da Santa Casa, em São Paulo, a falar a eles sobre frustração. Esse tema está muito próximo a mim. A clínica das dependências, minha principal área de atuação, bem poderia ser apelidada de “clínica da frustração”.
O caminho do trabalho com dependências é bem conhecido: primeiro vem a desintoxicação, depois a longa travessia até chegar a algum controle. E quase sempre ele é feito de recaídas. O paciente e o médico se desapontam uma, duas, três vezes – e até mais do que isso. Não há caminho reto na luta contra a dependência. Ele é tortuoso, difícil, cheio de altos e baixos e, sobretudo, repleto de desapontamentos.
Foi mais ou menos isso o que eu disse àqueles estudantes, mas também disse o que eu aprendi depois de tantas décadas convivendo com essas frustrações: elas ensinam.
O primeiro ensinamento é que existe uma distância entre expectativa e realidade, e poucos lugares revelam essa distância tão claramente quanto o das dependências. É quando os planos falham, os prazos atrasam e as pessoas decepcionam que somos obrigados a desenvolver flexibilidade e maturidade. Quando tudo dá certo na primeira tentativa, dificilmente precisamos inventar uma segunda. A frustração, nesse sentido, é uma das portas que abrem espaço para a criatividade.
Vale um porém. Nem toda frustração amadurece. Dependendo do que se faz com ela, a decepção pode adoecer e aprisionar. O que transforma desapontamento em aprendizado é desejar alguma coisa para além dele.
O segundo ensinamento que a clínica das dependências me ensinou, e talvez o mais bonito, é que só se frustra quem deseja algo. Quem quer construir uma carreira ou um relacionamento de verdade vai se frustrar. Frustração não é sinônimo de fracasso. Pelo contrário, muitas vezes ela é a prova de que se está envolvido.
Foi mais ou menos isso o que tentei passar naquela conversa na Santa Casa. Aqueles futuros médicos vão se decepcionar com pacientes, com eles mesmos, com diagnósticos. Alguns talvez pensem até em desistir. Eu quis que saíssem de lá com a ideia de que a frustração que porventura vierem a sentir não será sinal de que escolheram errado, mas que escolheram algo que vale a pena.
Isso não vale só para a medicina. Vale para quem empreende, para quem lidera, para quem ama. Da próxima vez que alguma coisa não sair como você planejou, vale lembrar que não se frustra com nada é porque não desejava nada.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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