Aos 79 anos recém-completados, a potiguar Tânia Maria desponta como um dos nomes cotados à indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação como Dona Sebastiana em “O Agente Secreto”, novo filme de Kleber Mendonça Filho. “Quero ir para o Oscar e trazer o prêmio para o Brasil”, diz à Forbes.
Idade é apenas um detalhe para ela, que se tornou atriz aos 72, quando fez figuração em “Bacurau”, do mesmo diretor. A oportunidade veio por acaso. Ela costurava em casa, no povoado de Cobra, no interior do Rio Grande do Norte, quando ouviu a equipe do filme. Ao dar boa noite, chamou a atenção da produtora de elenco Renata Roberta: “É a senhora que eu estou procurando, a sua voz.”
“Eu perguntei: ‘Ganha?’ ‘Cada vez que a senhora for ganha R$ 50,00’. Eu digo: “Ah, mulher, eu quero demais, é melhor do que fazer tapete”.
Depois da estreia no cinema, a ex-costureira, que vivia da confecção de tapetes, participou do documentário “Seu Cavalcanti”, da série “Delegado” e do filme “Yellow Cake”. Mas foi o trabalho mais recente que a projetou nacional e internacionalmente. “O Agente Secreto” venceu dois Globos de Ouro – Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Ator, para Wagner Moura – e deve receber indicações ao Oscar.
O reconhecimento da atriz agora se reflete na agenda. Só neste ano, ela tem seis novos filmes confirmados – um deles já filmado em Fortaleza –, além de contratos com marcas como Volkswagen, Burger King e Heineken. “Publicidade é a melhor coisa do mundo. É rápida e tem cachê. O que vale é o cachê.”
De costureira a atriz
Hoje, Tânia Maria vive seu melhor momento. “De costureira para atriz, é da água para o vinho”, resume. “Idade não quer dizer nada. Para mim, minha idade ainda é pouca. Me acho muito melhor agora do que quando tinha 18 anos.”
Desde cedo, o trabalho ocupou quase todo o seu tempo. “Eu não saía de casa porque tinha que trabalhar. Agora eu faço o que quero, é bom demais. Minha vida agora é liberdade.”
Ela continua costurando, mas a rotina hoje é outra. “Antes, eram 24 horas na frente da máquina, fumando e tomando café para dar conta de trabalhar muito para pagar cartão de crédito.”
Hoje já não fuma mais. Após 65 anos de vício, decidiu parar para não perder a chance de fazer uma longa viagem rumo ao Oscar. “Eu fumava três carteiras por dia”, conta ela, que deixou de ir ao Festival de Cannes em 2025.
Em “O Agente Secreto”, Dona Sebastiana também ficou conhecida pelo cigarro. O New York Times elogiou sua atuação, destacando justamente o hábito que ela agora abandonou.
Entre os reconhecimentos recentes, Tânia Maria foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no 23º International Cinephile Society (ICS) Awards e venceu, na última semana, o prêmio do Círculo de Críticos de Santiago (CCS), ambos pelo papel no longa.
Passado e futuro
O papel de Dona Sebastiana foi criado pelo diretor especialmente para ela. “Ele fez a minha vida no filme”, diz a atriz. Mendonça Filho já afirmou que, apesar de não ter formação artística, Tânia Maria é uma “grande atriz”.
Sebastiana é também seu nome de batismo. “Eu não gostava. Era comprido demais para uma criança, aí a professora mudou”, conta. “Quando vim filmar, o Kleber perguntou: ‘A senhora se incomoda que eu botei Sebastiana?’ Eu disse: ‘De jeito nenhum. Em filme ou em Pix, pode.”
Assim como sua personagem, Tânia Maria é calorosa. “Eu gosto de acolher. Eu gosto de ajeitar namoro. Tudo isso eu fiz no filme.” E na vida real? “Faço também. Eu sou a Dona Sebastiana, você pode crer.”
Na preparação para o papel, contou com o apoio do diretor e roteirista Leonardo Lacca. “Ele me dava o roteiro e dizia: ‘Pode falar com suas palavras’. Ele me ensinou a decorar escrevendo. Escrevendo três vezes, fica tudo na cabeça.”
O impacto de se ver no cinema não é trivial. “Quando me vi na telona, foi bom demais. Muito emocionante.” Ainda assim, a fama não a deslumbra. “Eu não me acho famosa. Nem ninguém. Para mim, todo mundo é igual”, diz. “Me encontrei com Fernanda Montenegro. Ela é igual a mim. A gente se emocionou, se agarrou, se abraçou. Chorou muito. Normal.”
Tânia começou agora, e não pretende parar. “Quero ganhar muito dinheiro para viver meu restinho de vida”, diz. E para continuar ajudando quem sempre esteve ao seu lado. “Minha família é tudo para mim. Se eu tenho, minha família tem. Quem for minha família, eu ajudo.”