Quando Magda Chambriard entrou na Petrobras, em 1980, aos 22 anos, mulheres não podiam embarcar em plataformas marítimas. Não havia banheiro para elas e diziam que os homens “não estariam à vontade” com a presença feminina. Tampouco podiam pernoitar em instalações de campo, mesmo em terra.
“Lembro de acompanhar uma operação na Bahia que se estenderia pela madrugada. O chefe do distrito disse que eu teria que voltar para a cidade porque ‘mulher não pode ficar aqui à noite’”, recorda a engenheira, hoje CEO da estatal, cargo que assumiu em 2024.

Mais de quatro décadas depois, o cenário mudou. “Hoje temos mulheres embarcadas, chefiando refinarias e ocupando posições de liderança em todas as áreas da empresa.” Pela primeira vez na história da Petrobras, a diretoria executiva tem maioria feminina: são cinco mulheres e quatro homens. “Eu apenas iluminei homens e mulheres e vi talentos em ambos. O equilíbrio foi natural.”
Quando uma avança, outras avançam
Intencionalidade é a palavra que Chambriard usa para explicar sua visão de liderança — ela mesma desaconselhada pelo pai a seguir a carreira de engenharia civil. “Ele dizia: ‘engenharia é muito dura para mulher’. Mas eu era apaixonada por obras de construção e fui assim mesmo.”
Como ela, Cristina Palmaka também foi, durante boa parte da carreira, a única na sala. Formada em ciências contábeis, foi uma das primeiras mulheres a assumir o cargo mais alto em empresas no setor de tecnologia no Brasil. “Não tinha referências em quem me espelhar. Fui a primeira gerente, diretora, VP e CEO nas empresas em que atuei”, diz a ex-presidente da SAP no Brasil e na América Latina, hoje conselheira de empresas como Vivo, C&A e Arcos Dorados.

Ao chegar ao topo, trazer outras mulheres para a liderança virou sua missão. Durante sua gestão na SAP na América Latina, três outras executivas passaram a integrar a liderança regional. “Foi um foco e uma prioridade.”
Não é um caso isolado. Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados em parceria com a Todas Group mostra que são justamente as mulheres que mais impulsionam a ascensão de outras profissionais nas organizações.
Representatividade importa, no mundo corporativo e em qualquer outro espaço. “Sem referências, fica muito difícil ter motivação para chegar em algum lugar”, diz Fofão, campeã olímpica de vôlei e empresária, sócia da Beleza Negra. “Ver mulheres liderando em diferentes áreas mostra que é possível. A minha geração talvez não acreditasse, mas essa geração pode acreditar e motivar a próxima.”

Mais mulheres nas áreas médicas e de STEM
Hoje, com mais referências e incentivo, cresce o número de mulheres em áreas historicamente dominadas pelos homens, como STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Ainda assim, o avanço tem limites claros. “A entrada de mulheres nas universidades e nas empresas cresceu, mas o percentual declina à medida que se analisa o avanço nos níveis de gerência para cima”, observa Palmaka.
Algo semelhante ocorre na medicina. As mulheres já são maioria nas universidades e na força de trabalho médica, mas isso nem sempre se traduz em liderança.
Há um século, a psiquiatra Nise da Silveira foi a única mulher de sua turma ao se formar em medicina, em 1926. “Hoje há um reconhecimento de que nós, mulheres, podemos”, afirma a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e membro da Academia Nacional de Medicina. “E temos demonstrado enorme capacidade em cargos de gestão.”
Quando tinha 33 anos e dirigia um grande hospital federal, a reação ainda era de surpresa. “As pessoas chegavam e diziam: ‘Quero falar com a diretora’. E eu respondia: ‘A diretora sou eu’.”

Chegar a posições de destaque não protege as mulheres da discriminação — em muitos casos, ela se intensifica. “Quando uma mulher alcança um cargo mais relevante, a primeira reação costuma ser a dúvida: ‘será que ela tem capacidade?’”, diz Fofão, sobre o ambiente do esporte e além dele.
Quando começou no vôlei, um dos desafios era a disparidade salarial em premiações e competições. “Melhorou muito, com esforço de pessoas que lutaram para o mundo esportivo ser mais igualitário. Temos que estar sempre muito atentas para não perder o que foi conquistado.”
Apesar dos avanços, Dalcolmo admite dificuldade em ser otimista diante do cenário atual de violências, muitas delas contra mulheres, no país e no mundo. “Não imaginei que aos 70 anos veria o mundo numa situação tão apocalíptica.”
Tecnologia: potência e risco
É também o sentimento da atriz e escritora Bruna Lombardi, aos 73. “Esse mundo sempre existiu, mas não aparecia”, diz. Ao relançar o livro “Filmes Proibidos“, publicado originalmente nos anos 1990 e reeditado pela Editora Record em 2024, ela percebeu tanto avanços quanto novos desafios. “A tecnologia, de um lado, é extraordinária. De outro, nos faz encarar novos perigos. Vivemos um tempo de grandes contrastes.”

As redes sociais ampliaram o acesso à informação e a conexão global, mas também abriram espaço para novas formas de violência contra mulheres. “Hoje temos notícia de casos do mundo inteiro, algo que antes não acontecia”, diz a advogada Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, que atua no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes.
O Brasil ocupa hoje o quinto lugar no mundo em denúncias de violência sexual online contra crianças e adolescentes, segundo dados da rede internacional Inhope. “Achávamos que, depois de certas conquistas, a trajetória seria apenas para frente”, diz. “Mas não olhamos para o contramovimento dos discursos de ódio que hoje se espalham pela internet.” Ela cita a premiada série “Adolescência”, que acendeu o debate sobre o tema. “Esse mundo digital precisa de controle.”
A epidemia de violência contra meninas e mulheres
Casos recentes de violência contra meninas e mulheres têm chamado a atenção. Com mais de uma década dedicada ao tema, a presidente do Instituto Liberta lembra que o país avançou em marcos legais importantes. Quando iniciou a carreira como delegada, em 1993, ainda não existia a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, nem a tipificação do crime de feminicídio, incorporada ao Código Penal em 2015. “Ao longo de 30 anos, construímos muitas políticas públicas de fortalecimento de mulheres e enfrentamento da violência. Por que ainda estamos nesse lugar?”
Na sua visão, faltou olhar para as meninas. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, 61,4% dos estupros registrados no país foram cometidos contra menores de 14 anos (86% delas meninas). Considerando vítimas de até 17 anos, elas representam 80% dos casos. “Não é apenas uma questão de criminalização. Precisamos de políticas de prevenção.”
O caminho passa, necessariamente, pela educação. “Se não transformarmos a relação entre os gêneros desde a infância, vamos continuar reproduzindo desigualdades e violências.”

Poder ainda desigual
Apesar dos avanços, a desigualdade de gênero permanece visível nos espaços de poder. A presença feminina na liderança de empresas de médio porte cresceu no Brasil no último ano, passando de 37% para 37,7%, acima da média global (32,9%), mas recuou globalmente. No ritmo atual, a paridade em cargos de gestão só deve ser alcançada em 2051.
Por aqui, apenas 16,1% dos cargos de administração — que incluem conselhos de administração, conselhos fiscais e diretorias — são ocupados por mulheres. “Ainda existem barreiras estruturais, como critérios de seleção subjetivos e a ausência de políticas internas que incentivem o desenvolvimento de carreira”, diz Valéria Café, diretora-geral do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa”, que conduziu o estudo, em 2025.
A socióloga e filantropa Neca Setubal, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal, também vê avanços — ainda que lentos. No último ano, ela se tornou a primeira mulher na presidência do conselho da Fundação Padre Anchieta, proprietária da TV Cultura. Na mesma gestão, a emissora também passou a ter sua primeira presidente. “Apesar desses avanços, ainda estamos longe de uma representação mais robusta.”

No ano passado, foi aprovada uma lei que estabelece cota mínima de 30% de mulheres nos conselhos de estatais, com vagas específicas para mulheres negras ou com deficiência, a ser implementada de forma gradual em até três anos. “Não é apenas sobre cotas. A mulher tem mérito. O que precisamos é de igualdade de oportunidades para competir”, afirma a Dra. Margareth Dalcolmo.
A política ainda é território masculino
Na política, a distância é ainda maior. “O nível de sub-representação feminina é muito grave. Estamos atrás de muitos países, inclusive na América Latina”, afirma Setubal.
Dados do portal TSE Mulheres, do Tribunal Superior Eleitoral, mostram que, entre 2016 e 2022, as mulheres representaram em média 52% do eleitorado brasileiro. Ainda assim, apenas 33% das candidaturas foram femininas e só 15% dos eleitos eram mulheres. Nas eleições de 2022, elas ocuparam 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados do Brasil.
“Ganhamos batalhas”, diz Luciana Temer. “Mas ainda não vencemos a guerra.”
E as próximas gerações?
É unânime: as mulheres ouvidas celebram os avanços que lideraram ou presenciaram em suas áreas de atuação, assim como na sociedade de forma geral. Para o futuro, esperam que as próximas gerações continuem ajudando a construir um mundo e um país mais justo, seguro e diverso.
Depois de décadas abrindo portas e liderando transformações, elas também deixam conselhos para as que vêm a seguir.
Bruna Lombardi, que em breve lança um novo romance centrado em personagens femininas, destaca a importância da união e do conhecimento:
“Em primeiro lugar, união. Quem inventou a competição entre as mulheres? O mundo machista. ‘Dividir para governar’. Em seguida, tomar consciência, ler, estudar. O conhecimento dá poder e liberta.”
Para Margareth Dalcolmo, autonomia é essencial:
“Faça o que você gosta, mas busque autonomia. Você não pode depender de ninguém. Conquiste o que deseja e tenha coragem de mudar.”
Magda Chambriard incentiva as mulheres a confiar no próprio potencial:
“Não ligue muito para o que pensam de você. Isso me ajudou a superar muitas barreiras ao longo da vida.”
Já Cristina Palmaka ressalta a importância de preparação e da coragem:
“Esteja sempre preparada e não se intimide em enfrentar o desconhecido. Corra atrás das suas ambições, mostre seu valor, construa pontes e conexões. É preciso coragem para trilhar o próprio caminho de crescimento.”