Há exatamente um ano, em março de 2025, imersa em uma rotina de extrema cobrança por performance, a vice-campeã olímpica e mundial Tatiana Weston-Webb tomou a decisão de pausar a carreira no surfe profissional. Inicialmente motivado pela necessidade de cuidar da saúde mental, o hiato logo revelou um novo capítulo com o anúncio de sua gravidez.
Agora, semanas após o nascimento de sua primeira filha, Bia Rose, em fevereiro, a atleta gaúcha de 29 anos já tem data e lugar garantidos para voltar ao mar: a temporada de 2027 do Championship Tour, a elite do surfe mundial.
O retorno direto, sem a necessidade de disputar as divisões de acesso (Challenger Series), é fruto da concessão de um Season Wildcard pela WSL (World Surf League, a Liga Mundial de Surfe). O convite especial é dado a surfistas que, por motivos de lesão grave ou razões pessoais, não conseguiram competir ou se qualificar na temporada anterior, e garante vaga na temporada seguinte, permitindo que o atleta retorne ao circuito principal. “Isso traz uma segurança emocional muito grande”, conta a surfista em entrevista à Forbes Brasil. “Você consegue viver a maternidade sem aquele medo constante do que vai acontecer com a sua carreira, seu ranking e seu futuro no esporte.”
Em um movimento histórico para o esporte feminino, a WSL também instituiu o inédito Maternity Wildcard (Convite de Maternidade) a partir de 2027. O convite só é disponibilizado a apenas uma atleta por temporada, e a surfista Johanne Defay foi quem recebeu o benefício para o próximo ano por ter prioridade nas regras da WSL como ex-campeã mundial.
No entanto, com o Season Wildcard, o benefício prático para Tatiana é o mesmo: garantir seu retorno à elite do surfe após os primeiros meses da maternidade. “Diferente dos homens, a mulher precisava pausar totalmente a carreira para gerar um filho e, muitas vezes, sem garantia de retorno”, afirma. “Agora, não precisamos mais escolher entre ser mãe e seguir competindo no mais alto nível.”

Em entrevista à Forbes Brasil, a surfista detalha os bastidores dessa conquista para o esporte feminino, o planejamento para a retomada rumo a 2027 e o legado que espera deixar para as futuras gerações do surfe.
Forbes: Como foi o diálogo das atletas com a liga para a criação do Maternity Wildcard?
Tatiana Weston-Webb: Foi um processo de diálogo e construção. Não foi algo que surgiu do dia para a noite. Já vinha sendo uma conversa dentro do surfe há algum tempo, principalmente entre nós, atletas, sobre como a maternidade impacta diretamente a carreira feminina.
Existia esse entendimento de que, diferente dos homens, a mulher precisava pausar totalmente a carreira para gerar um filho e, muitas vezes, sem garantia de retorno. Aos poucos, isso foi sendo levado para a liga, com esse olhar de evolução do esporte e de igualdade. A WSL também esteve aberta a ouvir, o que foi fundamental para que isso saísse do papel.
Ver a criação do Maternity Wildcard é muito especial, e, apesar de estar voltando com o Season Wildcard e não exatamente o de maternidade, me sinto fazendo parte de uma mudança que incentiva e apoia a maternidade dentro do esporte.
Em esportes de alto rendimento, a gravidez muitas vezes foi vista como o “fim” da carreira ou um retrocesso no ranking. O que esse retorno garantido muda no cenário?
Isso traz uma segurança emocional muito grande. Você consegue viver a maternidade de forma mais plena, sem aquele medo constante do que vai acontecer com a sua carreira, seu ranking e seu futuro no esporte.
Esse reconhecimento também tem um peso simbólico muito forte e mostra que a gente está evoluindo, que as mulheres não precisam mais escolher entre ser mãe e seguir competindo no mais alto nível. Isso me dá ainda mais motivação para voltar forte, honrar esse espaço e mostrar que é possível, sim, ser mãe e performar na elite do surfe.
O que você diria para profissionais de outras áreas que ainda sentem medo de que a maternidade freie suas carreiras?
Diria que esse medo é muito real, e ele não vem do nada, vem de anos de estruturas que fizeram as mulheres acreditarem que precisam escolher. A maternidade não precisa ser um freio, ela pode ser uma potência. Claro que traz desafios, muda a rotina, exige adaptações, mas também te fortalece de um jeito muito único. A gente não precisa abrir mão dos nossos sonhos para viver a maternidade. Pelo contrário: muitas vezes ela vem para somar e dar ainda mais sentido para tudo o que a gente faz. Mas também é fundamental o apoio do mercado em geral.
Em 2025, você anunciou uma pausa no circuito para cuidar da saúde mental, antes de anunciar a gravidez. Como foi tomar essa decisão?
A gente vive em ambientes de muita pressão, resultado e performance constante, e muitas vezes acaba se desconectando do próprio corpo para dar conta de tudo. Quando decidi pausar, foi muito neste lugar de me escutar de verdade, entender que tinha algo ali pedindo atenção e que eu precisava respeitar aquele momento. Isso acabou abrindo espaço para viver outras coisas muito importantes na minha vida, como a maternidade.
Como está sendo conciliar a identidade de atleta e medalhista olímpica com a maternidade?
Tem sido uma transformação muito profunda e, ao mesmo tempo, muito natural. Vivi muitos anos totalmente dedicada ao surfe e agora estou descobrindo uma nova versão de mim. No começo, precisa de ajustes, porque são identidades muito intensas, a atleta de elite e a mãe. Mas hoje eu sinto que elas não competem entre si, elas se complementam. A disciplina, a resiliência e o foco que o esporte me trouxe me ajudam muito na maternidade.
Ao mesmo tempo, ser mãe me deixou mais leve, mais forte emocionalmente e com um propósito ainda maior. A maternidade me trouxe essa sensação de poder e força que eu levo comigo para dentro d’água também. Hoje não vejo dois mundos separados, é tudo parte de quem eu sou.

Como você está estruturando o seu retorno para as competições em 2027?
Com muita calma e consciência, respeitando principalmente o momento que eu estou vivendo agora. Hoje, meu foco é 100% na minha filha, então tudo está sendo feito de forma gradual. Já comecei com a fisioterapia pélvica, algumas ativações e um trabalho mais leve na academia, focando bastante em fortalecimento, principalmente de membros superiores, para ir reconstruindo essa base física aos poucos.
Tenho planos também de ir ao Comitê Olímpico do Brasil para fazer uma bateria de exames, avaliar como está o meu corpo hoje e traçar estratégias mais específicas a partir disso. O objetivo é voltar forte, recuperar essa base física, mas com inteligência e respeito ao tempo do corpo. O mais importante é que temos tempo até 2027 para fazer isso bem feito.
Olhando para o futuro, que legado você espera deixar para a próxima geração de meninas que sonham em ser surfistas profissionais?
Espero deixar um legado de coragem e de possibilidade. Quero que as próximas gerações encontrem um caminho mais leve, com mais apoio, estrutura e compreensão. Se uma menina olhar para a minha história e pensar “posso fazer do meu jeito”, já valeu tudo. De alguma forma, saber que contribuí para essa mudança significa muito para mim.