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Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz Escrevem Hoje o Legado para as Próximas Gerações

Em entrevista à Forbes Brasil, escritoras compartilham projetos em parceria e refletem sobre o poder de contar a própria história e abrir caminhos para mais mulheres na literatura

6 min

Eliana Alves Cruz recebeu, na última quinta-feira (23), o trófeu de melhor ficção de 2025 da ABL (Academia Brasileira de Letras), o Prêmio Guimarães Rosa, durante a cerimônia de 129 anos da Academia. No dia seguinte, já estava em Paraty para apresentar uma mesa na Caixa de Histórias, na Flip, ao lado de Conceição Evaristo. Neste sábado (25), as autoras celebram o Dia Nacional do Escritor e o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

“Todos nós temos um tempo nesta terra, mas a gente quer que alguma coisa fique, que as gerações futuras consigam nos entender um pouco, e para isso a gente precisa de espaço para falar”, disse Eliana em entrevista à Forbes Brasil.

Juntas, elas lançam o livro “Escreviventes” pela Pallas Editora neste mês e protagonizam o documentário homônimo, dirigido por Estevão Ribeiro, que será lançado em 2027.

“Essa nova geração é muito visual. O documentário pode ser uma maneira de chamar a atenção não só para os nossos textos, mas para a literatura em si. Ele também vai ter a função de instigar novos leitores”, afirma Conceição Evaristo.

O projeto celebra as datas redondas das autoras neste ano: os 60 anos de Eliana, recém-completados em abril, e os 80 de Conceição, que serão celebrados em novembro.

O filme registra conversas gravadas no Rio de Janeiro sobre processos de criação e experiências com a maternidade e a literatura, além de contar com depoimentos de nomes como Itamar Vieira Junior, Renato Noguera, Teresa Cárdenas e Flávia Oliveira. “A gente criou isso na unha, com recursos próprios”, conta Eliana. “Foram mais de sete horas de gravação com os colegas e está sendo difícil cortar, porque tem coisas lindas.”

Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz durante a mesa na Caixa de Histórias, na Flip, que contou com a apresentação de trecho inédito do documentário
Gabriel GomesEstevão Ribeiro, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz durante a mesa na Caixa de Histórias, na Flip, que contou com a apresentação de um trecho inédito do documentário

Um diálogo entre gerações de escritoras negras

Com obras que transitam entre o romance, o conto, a poesia e o ensaio, Conceição Evaristo cunhou o conceito de “escrevivência“, subvertendo a lógica histórica ao colocar mulheres negras como donas de suas próprias narrativas.

Entre seus maiores reconhecimentos estão o Prêmio Jabuti (2015) pela obra “Olhos d’água”, o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano (2023) e a posse como imortal na cadeira 40 da Academia Mineira de Letras, em 2024.

Eliana Alves Cruz, por sua vez, consolidou-se com histórias que unem pesquisa histórica e ficção, revisitando o passado escravocrata e colonial brasileiro sob novas perspectivas para dialogar com o racismo do presente. Já foi indicada ao Emmy como roteirista e venceu prêmios como o concurso da Fundação Palmares com seu romance de estreia, “Água de Barrela”, e, agora, o prêmio de melhor ficção da ABL, com “Meridiana”.

A troca entre as duas escritoras vai além do novo documentário. Amigas fora de cena, elas inspiram uma à outra. “A Eliana é de outra geração, e, de certa forma, concretiza um desejo da minha, que é a visibilização de outras mulheres seguindo esse caminho na literatura brasileira”, afirma Conceição. “Fico muito feliz de ser essa espécie de mãe ou avó de várias escritoras, mas fico ainda mais feliz com essa possibilidade de reinvenção de novos textos nessa diversidade.”

“O importante não é ser a primeira, é abrir a perspectiva. Quanto mais nós formos, mais diversa se torna a literatura.”

Conceição Evaristo

Eliana também já vê os frutos de seu próprio impacto. “No prêmio da ABL, eu vi o Fabrício Oliveira, que ganhou o prêmio de poesia. Ele é uma continuação. Um menino negro de 30 anos do Recôncavo da Bahia”, diz. “Eu sou fruto de uma geração, e ele é fruto das nossas outras gerações. É uma corrente humana.”

Pela frente

As duas escritoras estão com as agendas recheadas para o ano. Aos quase 80 anos, Conceição não quer parar. “Estou produzindo, tenho um público jovem também, e esse diálogo geracional é muito importante, tanto pra mim quanto para eles.”

A escritora tem dois livros previstos para serem publicados pela Pallas Editora. Ela trabalha no romance “Flores de Mulungu” e iniciou a escrita de “O Silencioso Pranto dos Homens”. Esta última obra dará continuidade a um projeto de trilogia iniciado com “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, que será encerrado futuramente com um livro sobre os jovens e as crianças.

Seus planos ainda incluem um livro de crítica literária focado em jovens autoras, um título infantil e uma obra de poesia provisoriamente chamada “O Gozo e Seus Movimentos”. “Vai ser interessante: uma mulher de 80 anos falando de sensualidade, de sexualidade, de amor, de gozo.”

Enquanto isso, Eliana Alves Cruz acaba de entregar a adaptação de “Solitária” para roteiro audiovisual e trabalha na roteirização de “O Crime do Cais do Valongo”. A série literária “Crimes Coloniais” terá um novo volume publicado em janeiro.

A autora também planeja novos desdobramentos para “Meridiana” e desenvolve uma pesquisa histórica para um romance que fará par com seu livro de estreia, “Água de Barrela”. “O povo fala: ‘Nossa, mas você lança um livro por ano’. Eu respondo que eu tenho 60 anos, que dia que eu vou escrever? É agora.”

Com muito ainda por escrever, elas já pensam no legado que querem deixar. “Se mais pessoas passarem a acreditar no direito de contar a própria história, se eu conseguir deixar isso, já será de um bom tamanho”, diz Conceição.

“Quero que as pessoas sonhem. Quando você está muito aferrado à sobrevivência, você não pensa no amanhã; você pensa daqui a meia hora, no dia seguinte, no mês seguinte para pagar o aluguel, a luz, a escola do filho. Gostaria de deixar essa fagulha do desejo de uma vida plena e imaginativa”, conclui Eliana.

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.

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