No último mês, a Uber anunciou a expansão nacional da funcionalidade “Uber Mulher“, antes restrita a testes nas capitais. O filtro concede às usuárias brasileiras a opção de solicitar viagens apenas com motoristas mulheres.
O movimento reflete uma estratégia mais ampla do setor de aplicativos de transporte, diante do cenário de violência de gênero e importunação sexual no Brasil. Em 2025, o número de feminicídios bateu recorde no país: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro, de acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Segundo pesquisa de 2026 realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis, sete em cada dez mulheres que vivem em grandes capitais brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio.
Além da Uber, empresas como 99 e BlaBlaCar já oferecem serviços exclusivos para a segurança do público feminino, tanto de passageiras como de motoristas.
Como funciona o modo mulher nos apps de transporte
No caso da Uber, a função “Uber Mulher” disponibiliza três configurações às usuárias: busca rápida por condutoras disponíveis na região, preferência fixa no perfil para viagens da categoria UberX e agendamento via Uber Reserve. “Contar com essa opção trouxe mais comodidade e tranquilidade para as passageiras”, afirma Silvia Penna, diretora-geral da Uber no Brasil.
Enquanto isso, a 99 utiliza o “Pítia“, um sistema de inteligência artificial capaz de identificar passageiras em situações de vulnerabilidade antes da viagem, como solicitações de madrugada ou em polos de vida noturna. “A gente só envia essas corridas para os motoristas que têm as melhores avaliações e o melhor histórico”, afirma Maria Luiza Marcolan, gerente sênior de segurança da 99. Em paralelo, o sistema “Atena” dispara mensagens educativas aos condutores sobre o tema.
O resultado dessas tecnologias apareceu nas métricas: entre 2024 e 2025, os incidentes sexuais graves envolvendo mulheres caíram 33% na plataforma da 99. “Me deixa muito mais segura saber que a motorista é mulher, porque a gente vê que a maioria dos casos de assédio ou outros problemas nas corridas acontece com motoristas homens”, diz Ana Cagnoni, de 30 anos, designer e moradora de São Paulo.
Focada no setor de trajetos de longa distância via caronas, a BlaBlaCar oferece o recurso “Só Para Elas“, que conecta condutoras e passageiras desde 2017. Quando a ferramenta é ativada, as publicações de viagens entre gêneros diferentes são ocultadas. No Brasil, o uso do filtro saltou 129% em 2025 em relação a 2024.
“Se o homem pensa em segurança, a mulher pensa em segurança vezes dois. A gente precisa criar ‘degraus’ para equalizar as condições de deslocamento”, diz Tatiana Mattos, presidente da BlaBlaCar no Brasil. “A partir do momento que o ponto de partida é diferente de homem para mulher, construir mobilidade sustentável significa trazer essas duas coisas para o mesmo nível.”
Mulheres no volante
Historicamente, as mulheres representam uma parcela menor entre condutores de apps de transporte. A disparidade não acontece por acaso. Uma pesquisa de 2025 da consultoria Think Eva, em parceria com a 99, aponta que 75,9% das motoristas sentem riscos no trabalho por causa do gênero, e apenas três em cada dez consideram a decisão de dirigir fácil.
Silvia Penna lembra que o setor atrai o público masculino não apenas pela questão da segurança, mas pela estrutura social do cuidado. “Um dos fatores principais é a jornada de trabalho que, embora flexível, muitas vezes precisa ser conciliada pelas mulheres com as responsabilidades domésticas e familiares, limitando o tempo que elas conseguem dedicar às viagens.”
Mas o cenário começa a mudar. O número de motoristas parceiras da Uber cresceu 160% nos últimos quatro anos, alcançando 8% do total no Brasil. Na 99, a quantidade de mulheres dirigindo carros subiu 8% entre 2024 e 2025, e a de motos deu um salto de 29%. Na BlaBlaCar, elas já representam 23% dos condutores no acumulado de 2026.
Entre os recursos voltados para a segurança das profissionais ao volante, a Uber oferece o botão “U-Elas“, que restringe as chamadas ao público feminino a qualquer momento e viabiliza o cancelamento justificado caso um homem se apresente no embarque. “O recurso gerou maior confiança para realizar viagens em diferentes momentos do dia, além de abrir novas oportunidades de trabalho”, diz Penna.
A 99 adotou um caminho semelhante para as motoristas com o “Modo Mulher“. Para evitar uma queda abrupta na demanda, a condutora acessa um filtro inteligente: ela pode aceitar passageiros homens, desde que eles cumpram critérios rigorosos, como nota alta e volume expressivo de viagens.
“Essas ferramentas ainda são muito importantes para conseguirmos, temporariamente, fechar essa lacuna de segurança, enquanto, comportamentalmente, nós evoluímos como sociedade”, conclui Mattos.