Durante anos, o capacete de bicicleta foi tratado como um equipamento de segurança relativamente simples. Coloque um, certifique-se de que ele está bem ajustado e ele deverá proteger sua cabeça caso você caia. Mas a maneira como pedalamos está mudando.
As e-bikes tornaram o ciclismo mais rápido e acessível, permitindo que ciclistas viagem a velocidades que antes exigiriam consideravelmente mais esforço. Nos Estados Unidos, as e-bikes Classe 3 podem oferecer assistência do motor até 45 km/h enquanto até mesmo uma e-bike relativamente modesta para deslocamentos urbanos pode fazer com que manter 30 km/h pareça quase sem esforço.
Isso cria um problema fácil de ignorar. Quanto mais rápido você se desloca, maior é a energia envolvida quando algo dá errado. Isso também levanta dúvidas sobre se a abordagem tradicional de design dos capacetes de bicicleta é suficiente.
Um capacete é muito eficiente para lidar com um impacto direto. Mas acidentes raramente acontecem de forma tão precisa. A cabeça de um ciclista pode atingir o solo em um ângulo, criando forças rotacionais que fazem o cérebro se mover dentro do crânio.
Um estudo de 2024 que analisou 30 capacetes de bicicleta populares encontrou diferenças consideráveis na capacidade de lidar com o risco de lesões rotacionais quando submetidos a impactos oblíquos. Os pesquisadores encontraram uma diferença de 4,21 vezes entre os capacetes de melhor e pior desempenho em relação ao risco de lesão rotacional, em comparação com uma diferença de 1,76 vez para o risco de lesão linear.
Em outras palavras, o que acontece quando sua cabeça atinge o chão não depende necessariamente apenas da força do impacto.
O problema da rotação
James Cook, CEO e fundador da Release Layer System, acredita que os consumidores ainda subestimam a importância das forças rotacionais.
“A segurança está se tornando mais relevante à medida que bem-estar e longevidade ganham importância”, afirma. “No entanto, a importância do impacto rotacional que leva a lesões cerebrais é subestimada, e acreditamos que há uma grande oportunidade para educar e informar os consumidores.”
Houve avanços. Cook afirma que a maioria dos capacetes de ciclismo com preço acima de US$ 70 nos Estados Unidos atualmente incorpora algum tipo de tecnologia de mitigação de impactos rotacionais.
Um dos exemplos mais conhecidos é o MIPS, que permite um certo grau de movimento entre o capacete e a cabeça do ciclista durante um impacto em ângulo. Mas o RLS adota uma abordagem bastante diferente. Em vez de colocar seu mecanismo de movimento dentro do capacete, o RLS fica do lado de fora.
Entra em cena o HEXR Miden
O HEXR Miden é um capacete de ciclismo urbano que utiliza o Release Layer System para lidar com forças rotacionais.
A tecnologia consiste em um painel externo preso a uma camada com rolamentos. Em um acidente, o sistema foi desenvolvido para “reagir, rolar e se soltar”. O painel externo pode se mover independentemente do restante do capacete, com pequenos rolamentos permitindo que ele role em vez de simplesmente deslizar contra outra camada.
A ideia é que a seção externa receba o impacto e redirecione parte da energia rotacional, em vez de permitir que essa energia seja transferida para a cabeça do ciclista.
“Quase todos os impactos em capacetes acontecem em ângulo, o que pode fazer o cérebro girar”, afirma Cook. “O RLS foi desenvolvido para lidar com esses impactos angulados, desviando a energia para longe do cérebro.”
É uma visão incomum em um teste de capacete. Em vez de ver o capacete inteiro permanecer intacto, o painel externo é deliberadamente projetado para se soltar sob as condições corretas de impacto.
“No impacto, o painel superior se desprende do restante do capacete, tornando-se sacrificial, e desvia a energia que, de outra forma, iria para a cabeça e poderia causar uma lesão cerebral”, explica Cook. A aparente destruição é, portanto, parte da estratégia de proteção.
O que acontece em um acidente?
A diferença entre o RLS e sistemas mais convencionais está no local onde o movimento ocorre. O MIPS, por exemplo, utiliza um sistema de camada deslizante dentro do capacete. O RLS leva esse mecanismo para a parte externa, usando rolamentos sob os painéis exteriores. Segundo a RLS, isso permite um movimento consideravelmente maior do que os sistemas convencionais de camadas deslizantes.
“A tecnologia fica do lado de fora e foi projetada para se sacrificar durante o impacto”, afirma Cook. Isso não significa que o Miden tenha sido projetado para se desmontar a cada pequeno choque. O sistema foi desenvolvido para reagir às forças geradas durante um impacto sério.
Testes independentes começam a fornecer algumas evidências de que o conceito funciona.
Um estudo revisado por pares publicado no Journal of Biomechanical Engineering em junho de 2026 testou o RLS em configurações de capacetes urbanos, de estrada e de mountain bike. Os pesquisadores realizaram 96 testes de impacto oblíquo em diferentes tipos de capacetes, pontos de impacto e modelos de cabeça. Capacetes equipados com RLS reduziram a velocidade angular máxima entre 57% e 66% em comparação com capacetes convencionais equivalentes.
Isso é importante porque a velocidade angular é uma das medidas utilizadas para avaliar o movimento rotacional da cabeça durante um impacto. Cook afirma que essa é uma das métricas mais importantes a serem observadas.
“Uma métrica importante a ser reduzida é a velocidade rotacional, em rad/s, porque ela pode ser diretamente relacionada à probabilidade de concussão”, afirma. “Foi constatado que o RLS reduz a velocidade rotacional em 66% e a probabilidade de concussão em mais de quatro vezes.”
O próprio estudo relatou uma redução de 68% a 86% na probabilidade estimada de uma lesão cerebral AIS2+ nas condições testadas.
Essa ressalva é importante. Testes de laboratório não conseguem reproduzir todos os acidentes que um ciclista pode sofrer, e nenhum capacete pode garantir que um ciclista evitará uma concussão ou traumatismo cranioencefálico.
Mas os resultados sugerem que a proteção contra impactos rotacionais merece consideravelmente mais atenção do que tradicionalmente recebeu.
Por que isso importa para as e-bikes
Isso é particularmente relevante para quem anda de e-bike. Um ciclista convencional pode passar boa parte de um trajeto viajando em velocidades relativamente modestas. Uma e-bike pode tornar uma velocidade de cruzeiro de 30 km/h quase banal. Modelos Classe 3 mais rápidos podem chegar perto de 45 km/h, e os ciclistas conseguem manter essas velocidades com consideravelmente menos esforço físico.
Nessas velocidades, uma colisão com um veículo, meio-fio ou com o próprio asfalto pode rapidamente se tornar um evento grave.
Isso não significa que todo usuário de e-bike precise comprar o capacete mais caro disponível. Ajuste, certificação, estado de conservação e uso correto continuam sendo fundamentais. Um capacete premium mal ajustado continua sendo um capacete mal ajustado.
Mas o Miden mostra como o design dos capacetes começa a ir além de simplesmente colocar mais material entre o crânio do ciclista e o asfalto.
O HEXR Miden ocupa atualmente o primeiro lugar no ranking de capacetes urbanos da Virginia Tech, segundo a RLS, enquanto capacetes equipados com RLS ocupam as duas primeiras posições no ranking geral no momento em que este texto foi escrito.
Há também a questão da durabilidade. Cook afirma que o RLS não foi desenvolvido para reduzir a vida útil normal de um capacete.
“Ele não deve afetar a vida útil típica de três a cinco anos de um capacete”, afirma. “Testamos nossa tecnologia em condições climáticas extremas para garantir que o produto seja durável.” E há ainda a regra de ouro sobre capacetes: substituí-lo após um acidente.
“Capacetes são projetados para um único impacto”, afirma Cook. “Sempre recomendamos substituir seu capacete após uma pancada para garantir que ele não tenha sido comprometido.”
Esse conselho vale independentemente de o capacete utilizar RLS, MIPS ou nenhuma tecnologia de proteção rotacional.
A mudança maior é cultural. À medida que as e-bikes continuam tornando comum o ciclismo em velocidades mais altas, a segurança dos capacetes passa a envolver menos apenas a sobrevivência a um impacto direto e mais a compreensão do que acontece com o cérebro durante um acidente.
O Release Layer System do HEXR Miden é uma tentativa de enfrentar esse problema de uma maneira radicalmente diferente. Em vez de tentar manter todas as partes do capacete unidas, ele deliberadamente permite que uma parte se mova, role e, por fim, se solte. Parece contraintuitivo.
Mas, quando aquilo que se tenta proteger é o cérebro, sacrificar deliberadamente uma parte do capacete pode ser um resultado consideravelmente melhor do que permitir que essa energia chegue à pessoa que o está usando.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com