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A Ciência por trás dos Centenários Brasileiros — e o Que Eles Ensinam sobre Longevidade

Liderada pela geneticista Mayana Zatz, pesquisa da USP mapeia genes de resistência em idosos e mostra por que a biologia fala mais alto que os hábitos

6 min

Três irmãs cariocas — Levita, Zoraide e Zulina — entraram para o Guinness World Records como o trio de irmãs vivas mais longevo do mundo, com a soma de 316 anos, em junho deste ano.

O marco de longevidade não é um caso isolado no Brasil. Até abril de 2025, três das pessoas mais velhas do mundo também compartilhavam a mesma nacionalidade: todas eram brasileiras. O número de idosos com 100 anos ou mais saltou de 22,7 mil, em 2010, para 37,8 mil em 2022, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Diferente das famosas “Zonas Azuis” – regiões globais onde os altos índices de longevidade são creditados a dietas mediterrâneas e ausência de estresse –, o Brasil possui mais de 220 centenários e 20 supercentenários (pessoas com mais de 110 anos) certificados, espalhados por todo o país.

“Quanto mais a pessoa vai envelhecendo, maior vai sendo o peso da genética e menos importante o ambiente”, diz a geneticista Mayana Zatz, à frente do estudo da USP (Universidade de São Paulo) que mapeou os centenários brasileiros, em andamento há mais de dez anos.

À frente do estudo de longevidade, Mayana Zatz é uma bióloga molecular e geneticista brasileira, professora do Instituto de Biociências da USP
DivulgaçãoMayana Zatz é uma bióloga molecular e geneticista brasileira, professora do Instituto de Biociências da USP

A pesquisa, que estuda o peso da genética na longevidade, ganhou destaque na revista Genomic Psychiatry e na Nature, foi traduzida para mais de 30 idiomas e alcançou 15 milhões de acessos. “Descobrimos milhões de variantes genéticas inéditas nos bancos genômicos internacionais, porque eles só tinham a população da Europa ou oriental”, explica a cientista. “As pessoas sempre falam dos japoneses, mas não tinham ideia que a nossa população miscigenada podia ter pessoas tão longevas.”

No laboratório da USP, a geneticista lidera uma equipe de seis pessoas, dividida entre as cientistas de bancada — como Monize Silva, Vivian R. Coria e Amanda Assoni — e os apelidados “caçadores de centenários” — a dupla de pesquisadores João Paulo Guilherme e Mateus de Castro Vidigal, responsável pelo trabalho de campo que cruza o país para coletar amostras nas casas dos idosos. Além disso, o estudo conta com uma colaboração do time de imunologia da professora Ana Caetano, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Monize Silva, Vivian R. Coria, Mayana Zatz, a centenária Noemia, Amanda Assoni e Mateus de Castro Vidigal
Acervo pessoalMonize Silva, Vivian R. Coria, Mayana Zatz, a centenária Noemia, Amanda Assoni e Mateus de Castro Vidigal


O gene da resistência

O foco da pesquisa recaiu sobre as pessoas de regiões mais pobres no Brasil. “Esses centenários não estão sendo salvos pelas medicinas modernas, cirurgias ou ajuda cardíaca. Eles realmente são resistentes”, diz Zatz. “Uma das explicações é que as famílias antigamente tinham muitos filhos e só sobreviviam os mais resistentes.”

Um levantamento publicado na revista Science aponta que 55% da longevidade é determinada exclusivamente pela genética. Não à toa, durante a pandemia, alguns centenários brasileiros passaram ilesos pela Covid-19.

Esse “escudo” genético permite a alguns desses idosos ostentarem hábitos não tão saudáveis. “A irmã Inah, gaúcha que conheci pouco antes de seu falecimento aos 116 anos, me disse: ‘Minha filha, como de tudo, menos banana’. Um outro centenário, o Milton, de 108 anos, mantinha o hábito de tomar uísque toda manhã.”

Ao mesmo tempo, outros ampliam a resistência com o auxílio do esporte. Laura, uma mineira de 107 anos, começou a nadar aos 70 e, aos 100, bateu o recorde mundial dos 50m peito na categoria 100-104 anos. “Quando a sobrinha perguntou como ela explicava a própria longevidade, ela respondeu: ‘Primeiramente, é meu DNA. E, obviamente, porque eu faço natação'”, conta a cientista.

Mas nem só de genética e músculos vivem os centenários. Além do fator biológico, paira um padrão social indissociável entre os entrevistados. “O que eles têm muito em comum é o otimismo e a alegria de viver. São conectados, não vivem sozinhos, têm amigos”, resume Zatz.

Os brasileiros Manoel e Maria Dino, certificados como o casamento mais longo do mundo, unidos há 84 anos
Acervo pessoalOs brasileiros Maria e Manoel Dino, certificados como o casamento mais longo do mundo, unidos há 85 anos

Mulheres lideram na longevidade

Entre os mais de 220 centenários mapeados pela USP, 159 são mulheres. “O cromossomo X que a gente tem em dupla dose ajuda. Tanto é que mamíferos do sexo feminino, não só humanos, vivem mais do que os machos”, diz Zatz.

Laura, Fidelcina, Maria e Geny, algumas das centenárias mapeadas pelo estudo
Acervo pessoalLaura, Fidelcina, Maria e Geny, algumas das centenárias mapeadas pelo estudo

Com essa variante genética em família, formam-se algumas dinastias matrilineares. “Ao levantar a genealogia [das três irmãs cariocas], vimos que a mãe morreu com 100 e uma tia com 101. Essas famílias são extremamente informativas para a pesquisa”, aponta a geneticista.

Mas ter uma pessoa com mais de 100 anos na família não é garantia de herdar o gene de resistência. O estudo aponta que apenas 20% dos centenários brasileiros têm outros casos de longevidade na família, enquanto 80% são casos isolados.

Além da hereditariedade, a equipe isolou outro padrão entre as brasileiras acima de um século de vida. Elas têm uma média de apenas 1,53m de altura.

A hipótese evolutiva dos pesquisadores, observada também em outras espécies de mamíferos, sugere que um corpo menor exija menos divisões celulares e mantenha uma circulação mais eficiente. “A gente vê que cachorro pequeno vive mais que cachorro grande. Em um corpo pequeno você teria menos requisição de energia.”

Futuro dos centenários

Agora, o passo da equipe é biotecnológico. Por meio da reprogramação de células iPS retiradas do sangue dos idosos, os cientistas criam organoides cerebrais (minicérebros) e tecidos musculares em laboratório para entender a ação exata desses genes e, no futuro, desenvolver medicamentos que simulem esse mecanismo. “Uma vez que você descobre o que o gene faz, como ele funciona e qual é o produto desse gene, você vai poder ter medicamentos para ajudar as pessoas que não nasceram com esses genes premiados.”

Com uma estimativa de 3 milhões de centenários no mundo até 2050, a cientista deixa um conselho para quem quer estar entre eles sem depender da genética. “O tecido que envelhece mais rápido é o músculo. E isso é uma boa notícia, porque no músculo a gente consegue agir. Se fizer exercício, você consegue retardar pelo menos esse envelhecimento.”

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