Sarah Keese soube em questão de segundos, após injetar o peptídeo sermorelina no abdômen, que havia algo de errado. Com o rosto corado e tonta, ela gritou pelo namorado pedindo ajuda. Enquanto caminhava em direção a ele, Keese caiu desmaiada no chão.
A lembrança seguinte de Keese é de ser carregada para o pronto-socorro do hospital de Sheridan, no estado de Montana. Mais tarde, ela descobriu que sua frequência cardíaca havia caído para 20 batimentos por minuto, sua pressão arterial despencara e ela chegara a parar de respirar por instantes, após sofrer uma reação alérgica grave ao peptídeo comprado no mercado paralelo. “Se eu não estivesse no pronto-socorro, com certeza teria morrido”, diz Keese, de 35 anos, engenheira que hoje mora em Anchorage, no Alasca.
Keese recebeu epinefrina e, em seguida, foi transferida de helicóptero UTI para um hospital maior em Missoula, Montana, para receber mais cuidados e permanecer em observação em 3 de julho de 2025. O episódio lhe rendeu uma conta médica de US$ 80 mil e uma série de consultas de acompanhamento com um cardiologista para monitorar a arritmia cardíaca desencadeada pelo choque anafilático. Hoje, ela jura que nunca mais vai chegar perto de peptídeos.

A sermorelina foi aprovada para venda pela FDA (a agência reguladora de alimentos e remédios dos EUA) em 1997 para tratar crianças com atraso no desenvolvimento físico. Ela estimula a hipófise a produzir o hormônio do crescimento humano (GH).
Vendido sob o nome comercial Geref, o medicamento teve a fabricação descontinuada por sua criadora, a EMD Serono, em 2008 por razões comerciais. Agora, a sermorelina e um grupo de peptídeos semelhantes estão passando por um boom de popularidade entre os entusiastas do fitness, que alegam que a capacidade dessas substâncias de estimular o hormônio de crescimento natural do corpo pode turbinar o ganho de massa muscular, queimar gordura e acelerar a recuperação de lesões.
No entanto, a família de peptídeos à qual a sermorelina pertence, conhecida como “secretagogos“, traz o risco de desencadear reações alérgicas. A Forbes entrevistou cinco pessoas, incluindo Keese, que sofreram reações desse tipo após consumir secretagogos. Dezenas de outras compartilharam relatos semelhantes nas redes sociais. Sem analisar em laboratório o que Keese e os outros usuários de peptídeos tomaram, é impossível saber se as reações foram efeitos colaterais do próprio fármaco ou se foram causadas por outros ingredientes ou contaminantes.
Os peptídeos são uma ampla categoria de medicamentos à base de aminoácidos que inclui opções legais, como a insulina e os remédios para emagrecimento da classe dos análogos de GLP-1. Cada vez mais pessoas vêm experimentando peptídeos pouco regulamentados, como os secretagogos, que viraram febre entre os praticantes de atividades físicas em busca de uma vantagem para treinar mais pesado e melhorar o visual. Porém, há pouquíssimos dados científicos sobre a segurança ou a eficácia dessas substâncias, e a FDA não as aprovou nem para perda de peso nem para recuperação muscular.
Essas drogas agora estão facilmente disponíveis na internet por meio de vendedores suspeitos que as comercializam sem praticamente nenhuma fiscalização. Nesse submundo do comércio online, que pode movimentar até US$ 4 bilhões, os camelôs virtuais se aproveitam de uma brecha na lei que permite a venda de peptídeos para “fins de pesquisa”.
“A segurança e a eficácia são desconhecidas; então, por que alguém gostaria de colocar algo assim dentro do próprio corpo?”
– Dr. Thomas Kremen, médico especialista em medicina esportiva na UCLA Health
Jack Ryan, de 19 anos, que publica pesquisas sobre peptídeos em seu site PeptidePrices, afirma que hoje monitora quase 1.000 lojas virtuais. Até 20 de setembro, 526 delas vendiam sermorelina e 714 vendiam tesamorelina, um peptídeo correlato que também já causou reações alérgicas. (O PeptidePrices também aceita links de afiliados dos vendedores.)
Comprar peptídeos na internet é uma roleta-russa. Os entusiastas do fitness que compram remédios no mercado paralelo online não fazem ideia do que estão recebendo. Os insumos farmacêuticos presentes neles são de grau de pesquisa, o que significa que não são liberados para uso humano. Não há garantia alguma de que o produto comprado seja o que o rótulo diz ser, nem se a pessoa está injetando em si mesma misturas batizadas com ingredientes desconhecidos e potencialmente perigosos. Entender a segurança torna-se ainda mais complicado para os fãs de peptídeos que os tomam em combinações (o chamado stacking), usando vários compostos clandestinos ao mesmo tempo na crença de que isso potencializará os benefícios.
É comum que medicamentos aprovados pela FDA apresentem riscos, os quais médicos e pacientes ponderam em relação aos benefícios no tratamento de doenças. Mas quem injeta peptídeos clandestinos assume riscos desconhecidos sem qualquer benefício comprovado para a saúde.
“A segurança e a eficácia são desconhecidas; então, por que alguém gostaria de colocar algo assim dentro do próprio corpo?”, questiona o Dr. Thomas Kremen, médico especialista em medicina esportiva na UCLA Health, que atende tanto atletas amadores quanto profissionais, inclusive das equipes do L.A. Lakers e do L.A. Chargers.

Kremen publicou recentemente uma revisão da literatura clínica sobre seis peptídeos populares, incluindo um secretagogo chamado ipamorelina. Ele encontrou problemas de segurança potencialmente preocupantes e raríssimas evidências de eficácia. Com as pessoas recorrendo às redes sociais em busca de informação, diz ele, os peptídeos podem ser “muito mais marketing do que ciência”.
À medida que remédios clandestinos inundam o mercado, os órgãos reguladores tentam descobrir como conter o avanço. Em 24 de agosto, a FDA enviou notificações de advertência a diversos vendedores de peptídeos, como Peptide Partners LLC, Peak Performance Peptides e NuScience Peptides LLC, citando “violações significativas” das normas de segurança pela distribuição de peptídeos ilícitos, como a tesamorelina. Nenhuma das empresas respondeu aos pedidos de comentário.
“Esses produtos são especialmente preocupantes do ponto de vista da saúde pública porque medicamentos injetáveis podem representar riscos de danos graves aos usuários”, afirmam as cartas. Estados norte-americanos como Ohio também estão começando a endurecer o cerco. Mas, até agora, tem sido como tentar enxugar gelo.
Empresas clandestinas lavam as mãos em caso de conquências negativas
Keese usou sermorelina pela primeira vez em 2022, após um médico prescrevê-la em uso off-label (fora da bula) para ajudá-la na recuperação de um grave acidente de carro. Ela sentiu que o peptídeo havia ajudado e recorreu a ele novamente em junho de 2025 com outro objetivo: alcançar suas metas na academia.
Seu namorado, Ryan Goede, já estava tomando sermorelina para manter a forma, então Keese fez seu próprio pedido no mesmo site que ele usava, chamado PeptiLab. (Farmácias de manipulação podem fabricar sermorelina legalmente; já a tesamorelina não é autorizada para manipulação.)
O site da PeptiLab está fora do ar atualmente. No início deste ano, a empresa publicou um comunicado informando que não vendia mais para residentes dos Estados Unidos. Keese contou que a página não apresentava qualquer aviso sobre possíveis efeitos colaterais, como reações alérgicas. Versões arquivadas do site da PeptiLab indicam que a empresa vendia peptídeos apenas para “fins de pesquisa”. As entidades corporativas vinculadas à PeptiLab não responderam aos pedidos de comentário.
“Tive sorte em muitos aspectos por ter gente ao meu redor e pelo pronto-socorro ser a apenas quatro quarteirões de distância.”
– Sarah Keese
O mercado paralelo de secretagogos – assim chamados porque estimulam o corpo a secretar outra substância – é menor do que o de peptídeos mais populares, como o BPC-157. Mas essa família de substâncias, que inclui sermorelina, tesamorelina, ipamorelina e várias outras identificadas por códigos alfanuméricos como CJC-1295, vem sendo cada vez mais promovida por grandes influenciadores.
O podcaster Joe Rogan já mencionou o uso de ipamorelina como parte de seu protocolo de suplementação. Já o podcaster de saúde Andrew Huberman, que conta com mais de 7,4 milhões de inscritos no YouTube, falou sobre ter experimentado tesamorelina para ajudar no sono.
Keese não teve uma reação grave de imediato. Após duas aplicações de sermorelina no final de junho de 2025, sua pele ficou irritada e com coceira. “Na terceira vez, entrei direto em choque anafilático“, conta Keese. “Tive sorte em muitos aspectos por ter gente ao meu redor e pelo pronto-socorro ser a apenas quatro quarteirões de distância.” O plano de saúde cobriu a maior parte das despesas, mas ela ainda teve que arcar com cerca de US$ 4 mil em contas médicas.
A experiência de Keese, de ter sintomas alérgicos leves seguidos por uma reação grave, não é um caso isolado.

A bióloga molecular e “consultora de longevidade” Kristi Sawicki, de 60 anos, moradora de Columbia, no estado de Maryland, conta que já havia tomado ipamorelina antes, mas no ano passado decidiu testar a sermorelina para auxiliar em suas metas de saúde.
“Ajuda com o sono profundo, recuperação muscular, pele e firmeza do colágeno. Tudo o que as pessoas na meia-idade procuram”, diz Sawicki, que faz um bico oferecendo consultoria sob a marca Longevity With Kristi para orientar mulheres sobre quais peptídeos tomar.
Sawicki vinha tomando a sermorelina encomendada em março de 2025 da plataforma de telessaúde Joi + Blokes há cerca de dois meses quando também começou a sentir irritação na pele após as aplicações. Certa noite, ela se sentou para tomar uma taça de vinho depois de injetar o peptídeo. “Em 20 minutos, todo o meu tronco e o meu rosto estavam vermelhos, coçando intensamente, e comecei a sentir uma dor parecida com a de um parto”, relata Sawicki, que trabalha em uma empresa de instrumentos científicos. Os sintomas diminuíram depois que ela tomou vários comprimidos de anti-histamínico e Advil.
O site da Joi + Blokes traz uma nota de segurança em seu anúncio de sermorelina informando que “alguns medicamentos podem incluir produtos manipulados não aprovados pela FDA” e que o produto “não é prescrito para fins de melhoria de rendimento”.
Em uma publicação no blog da empresa em 2023, o cofundador e CEO da Joi + Blokes, Joshua Whalen, apontou que reações alérgicas graves eram um efeito colateral raro da sermorelina. Em junho, a Joi + Blokes recebeu uma notificação de advertência da FDA devido a violações significativas relacionadas a “alegações falsas e enganosas” sobre os medicamentos da classe GLP-1 que comercializava. A Joi + Blokes declarou por e-mail que leva a segurança dos produtos “a sério” e que está “analisando” as questões apontadas pela Forbes, mas recusou-se a fazer novos comentários.
David Jeffers passou por uma experiência parecida com o peptídeo tesamorelina. Ele ouviu falar sobre peptídeos no TikTok e no Instagram há cerca de um ano e experimentou o BPC-157, que segundo ele ajudou a ganhar massa muscular e reduziu as dores nas articulações provocadas por sua rotina de trabalho como chef de cozinha. (O BPC-157 é um dos seis peptídeos para os quais um painel consultivo da FDA votou a favor da flexibilização das restrições de manipulação.)
Ele começou a ouvir falar de um peptídeo chamado “tesa”, que influenciadores afirmavam ser capaz de potencializar ainda mais o ganho muscular e queimar gordura. A tesamorelina é aprovada pela FDA sob o nome comercial Egrifta para a redução do excesso de gordura abdominal profunda em adultos diagnosticados com condições associadas ao HIV. Sua fabricante, a Theratechnologies, alerta que reações alérgicas graves são um efeito colateral raro, porém conhecido (a Theratechnologies não respondeu ao pedido de comentário).
“O pessoal da ambulância falou tipo: ‘Eu também estou tomando peptídeos.'”
– David Jeffers
Em março, Jeffers decidiu encomendar um frasco de tesamorelina por US$ 80 com uma amiga enfermeira que fazia um bico vendendo peptídeos. Ele usou o produto de forma intermitente por meses. Até que, em um dia de junho, após injetar a tesamorelina na coxa em sua casa em Santa Barbara, Califórnia, percebeu em questão de segundos que precisava de socorro.
Ele ligou para os pais, e sua mãe chegou bem a tempo de vê-lo desabar no chão do banheiro. “Ela me viu cair e bater a cabeça no piso. Apaguei totalmente”, relata Jeffers, de 42 anos. “Meu pai achou que eu estivesse morto porque eu não respondia a nada, e quando acordei os socorristas já tinham chegado.”
Os paramédicos levaram Jeffers para o pronto-socorro do Santa Ynez Valley Cottage Hospital, onde ele foi diagnosticado e tratado para uma reação alérgica grave. “O pessoal da ambulância falou tipo: ‘Eu também estou tomando peptídeos'”, revela ele. Esse susto com remédios clandestinos deixou o chef com uma conta médica de US$ 6 mil. Hoje ele passa longe dos secretagogos – mas não de outros peptídeos.
Redes sociais na propagação de medicamentos irregulares
No TikTok, Instagram e Facebook, os usuários de peptídeos trocam dicas em uma avalanche de siglas, jargões médicos e códigos secretíssimos. Usam “tesa” para tesamorelina, “reta” para retatrutida (o remédio experimental para perda de peso da farmacêutica Lilly) e até o emoji de pimenta. Tudo serve para burlar os algoritmos que bloqueiam a citação a alguns desses medicamentos.
Os próprios usuários das redes sociais têm consciência de que muita coisa pode dar errado no mercado desregulamentado de peptídeos. Os problemas de saúde costumam ser atribuídos a lotes impuros, contaminação dos líquidos estéreis usados para diluição ou a meros erros dos usuários, como dosagens excessivas ou falhas na aplicação. O que é menos debatido é que peptídeos como os secretagogos podem ativar o sistema imunológico, provocando reações alérgicas.
Existem ainda outras preocupações médicas. Profissionais que prescrevem sermorelina costumam monitorar os níveis do hormônio IGF-1, que está associado ao aumento do risco de câncer. “Qualquer substância que eleve o hormônio de crescimento humano pode aumentar os riscos de desenvolvimento de câncer, por se tratar de distúrbios de proliferação celular”, alerta Tenille Davis, diretora de engajamento institucional da Alliance for Pharmacy Compounding (Aliança para Farmácias de Manipulação). “Essa seria a minha maior preocupação como farmacêutica.”
Mas a maioria dos entusiastas do fitness não pondera os riscos nem faz esse acompanhamento. “Acredito que grande parte do interesse nesses ‘secretagogos’ se deva ao fato de serem muito mais baratos e vendidos para quem quer passar longe do GH puro e da testosterona”, observa Ryan, do site PeptidePrices.
Quando o painel consultivo da FDA se reuniu em junho para avaliar a flexibilização das restrições à produção de sete peptídeos por farmácias de manipulação, os fãs dessas drogas clandestinas na internet passaram a se referir à data como o “Dia da Libertação dos Peptídeos”. O secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., que se declarou “um grande fã de peptídeos” no podcast de Joe Rogan, vem defendendo afrouxar as regras. No entanto, a tesamorelina ficou de fora da votação da FDA.
Keese ainda passou por um segundo susto com os efeitos colaterais pouco conhecidos dos secretagogos. Apenas uma semana após seu próprio incidente, Goede aplicou outra dose de sermorelina e também apresentou reação alérgica. “Ele conseguiu tomar Benadryl para amenizar os sintomas, mas já estávamos no carro a caminho do hospital”, relata. “Ele tinha acabado de me ver quase morrer no pronto-socorro e, uma semana depois, estávamos voltando para o hospital porque ele também estava tendo uma reação.”
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com