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Como Carla Bolla Preserva o Legado do La Tambouille

Após a morte do pai, a restauratrice assumiu a liderança de uma das casas mais icônicas de SP e mostrou que se herdar é privilégio, melhorar é competência

4 min

Em 2014, houve quem duvidasse que o renomado restaurante La Tambouille se manteria em pé após a morte do seu lendário fundador, o italiano Giancarlo Bolla. A casa, das mais icônicas de São Paulo, parecia indissociável da figura do seu criador. Foi a filha Carla, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2026, quem desafiou os céticos.

Grávida de três meses e em pleno processo de luto, recusou-se a ouvir quem profetizava o fracasso e assumiu o comando. Foi, diz ela, o “não” mais importante da sua vida. “As pessoas achavam que a casa ia fechar, e isso me impulsionou”, lembra.

Sua resposta foi silenciosa, diligente e prática – e bem-sucedida. Hoje, ao celebrar os 55 anos do restaurante em 2026, ela provou que herdar um império é um privilégio, mas mantê-lo relevante por mais de uma década é competência.

A transição exigiu pulso firme. Carla assumiu um salão onde 80% da equipe era masculina, muitos com mais de duas décadas de casa e acostumados a uma gestão patriarcal. “Tive que ser dura com uma equipe de homens que não gostava de receber ordens de mulher. Precisei me provar muito mais”, afirma, mesmo tendo aprendido tudo com o pai e literalmente ter sido criada dentro do restaurante – a família morava no andar de cima da primeira unidade.

A vivência foi lapidada com rigor técnico na Europa. Carla estagiou em endereços estrelados, como o Le Moulins de Mougins, na França, e o Hotel Monte Carlo Beach, em Mônaco. Embora tenha se apaixonado pela cozinha, entendeu que seu lugar era na gestão e na orquestração do salão, onde o “olho clínico” herdado do pai faz a diferença. Ela trata de enxergar o que quase ninguém vê: da dobra do guardanapo à iluminação. “O tradicional não sai de moda. As pessoas querem comer bem, ser chamadas pelo nome, sentar numa mesa com toalha e talheres de prata”, diz a empresária. Garantir isso não é fácil para quem recebe cerca de 6 mil clientes por mês.

Vencido o desafio de manter o padrão, Carla foi adiante. Sob sua gestão, o La Tambouille atraiu um público mais jovem sem alienar os clientes fiéis, tornando-se palco de celebração para novas gerações, todos em busca da excelência dos pratos franco-italianos e clássicos da casa, como a famosa feijoada.

Agora a empresária prepara um novo passo, de olho em diversificar o portfólio dos negócios para além das mesas da Avenida 9 de Julho. Ainda este ano, o La Tambouille vai ganhar uma segunda unidade no Shopping Iguatemi, um movimento estratégico para capturar um novo momento de consumo.

A expansão também chega ao campo e ao mercado imobiliário. Em uma fazenda em Minas Gerais, ela está investindo na criação de porcos da raça Berkshire – conhecida como o “Wagyu suíno” pela alta qualidade da carne –, uma produção exclusiva e limitada. Paralelamente, entrou no setor de incorporação com o lançamento previsto de um complexo residencial e resort, também em terras mineiras.

Com o firme propósito de se dedicar à hospitalidade, a empresária tem certeza de que mantém o legado do pai, mas conquistando um lugar próprio. “Sinto que criei meu espaço nestes 12 anos, construí minha própria história. Não é mais a filha do Giancarlo, é a Carla.”

*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.

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