Um júri reunido em Leipzig, na Alemanha, selecionou as oito equipes que disputarão o desafio de € 40 milhões (R$ 236,3 milhões) da SPRIND (Agência Federal Alemã para Inovações), o Continuous Hormone Monitoring Challenge. É a primeira iniciativa apoiada pelo governo europeu para desenvolver biossensores capazes de medir pelo menos quatro hormônios durante sete dias.
À frente do projeto está Ida Tin, empreendedora dinamarquesa que fundou, em 2012, o Clue, aplicativo de monitoramento do ciclo menstrual. Em 2016, ela cunhou o termo “femtech”, que ajudou a consolidar a saúde feminina como uma categoria mais reconhecida no mundo dos investimentos.
Para Tin, o desafio de monitoramento contínuo de hormônios representa uma mudança que vai além dos aplicativos. “Os hormônios, de alguma forma, permaneceram em uma caixa-preta”, diz. “Nós simplesmente não temos a tecnologia para pegar essas moléculas e transformá-las em um fluxo contínuo de dados.”
Essa lacuna explica por que uma década de investimentos em femtechs não foi capaz de reduzir de forma significativa a desigualdade no diagnóstico das condições de saúde mais comuns entre as mulheres.
O poder do monitoramento contínuo de hormônios
As implicações vão muito além da saúde reprodutiva, e é justamente isso que torna o monitoramento contínuo de hormônios uma fronteira tecnológica de alto impacto. “Os hormônios são uma espécie de sistema operacional do corpo”, explica Tin. “Eles são relevantes não apenas para a saúde reprodutiva, mas também para a saúde cardiovascular, óssea, cognitiva e mental. Na verdade, para praticamente tudo.”
Segundo ela, a medicina moderna foi construída a partir de uma premissa completamente diferente: “De um homem com um cenário hormonal estável, e não é isso que temos.”
O resultado é um sistema que trata a variabilidade hormonal como uma complicação, e não como uma fonte central de dados.
O custo desse ponto cego se reflete nos números. A endometriose afeta cerca de 190 milhões de mulheres em todo o mundo, mas o diagnóstico leva, em média, de sete a dez anos.
Já a síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS, na sigla em inglês) — renomeada em maio de 2026, antes conhecida como síndrome dos ovários policísticos (SOP), para refletir melhor a complexidade hormonal e metabólica da condição, em vez de destacar seu sintoma mais incompreendido — atualmente leva, em média, três anos para ser diagnosticada.
A fertilização in vitro (FIV), que exige até dez consultas médicas e repetidas coletas de sangue por ciclo, apresenta taxas de sucesso entre 15% e 32%, em grande parte porque os médicos tomam decisões com base em retratos pontuais dos níveis hormonais que já estão defasados em um ou dois dias.
Tin aponta o momento das intervenções como uma das aplicações imediatas dos dados hormonais contínuos. Saber não apenas se é preciso intervir, mas exatamente quando “reduziria o custo e diminuiria as decepções, a dor, o desconforto e todo o resto”.
Apostando na corrida, não no cavalo
O desafio da SPRIND foi estruturado para se afastar deliberadamente da maneira como o capital de risco costuma apostar em tecnologias emergentes. “Não apostamos em um cavalo, mas na corrida”, afirma Tin.
São oito equipes, cada uma buscando simultaneamente uma abordagem tecnológica diferente — de adesivos com biossensores a dispositivos vestíveis e implantes.
As exigências técnicas são rigorosas. As equipes precisam medir diretamente pelo menos quatro hormônios de um painel definido (que inclui estrogênio, progesterona, LH, FSH, testosterona e cortisol) de forma contínua, por pelo menos sete dias consecutivos, em uma matriz biológica como líquido intersticial, suor ou saliva. Sinais indiretos, como frequência cardíaca ou temperatura da pele, não são considerados.
Cada equipe também precisa demonstrar um caso de uso concreto em saúde feminina no qual os dados contínuos permitam tomar decisões clínicas que não seriam possíveis com medições pontuais.
O elemento menos comentado do desafio não são os biossensores. É o banco de dados de referência compartilhado que a SPRIND está construindo paralelamente a eles.
Trata-se da primeira coleção padronizada de dados hormonais contínuos abrangendo diferentes idades, etnias, fases da vida e condições de saúde.
Tin argumenta que nenhuma startup conseguiria construir essa base sozinha. Esse conjunto de dados equivale, para os hormônios, ao genoma de referência.
“Nosso objetivo é financiar tecnologias que o mercado não financiaria, seja porque são tecnologicamente complexas demais, seja porque exigem um financiamento de longo prazo que o capital de risco tradicional não tem incentivo para oferecer. Por tempo demais, a saúde feminina foi justamente um setor desse tipo”, diz Jano Costard, responsável pelos desafios da SPRIND.
A estrutura de financiamento reflete essa lógica, com até € 6 milhões (R$ 35,5 milhões) disponíveis para cada equipe ao longo de três etapas.
As oito equipes da primeira etapa ilustram exatamente por que a SPRIND decidiu apoiar várias abordagens simultaneamente:
- sThesis: tecnologia óptica não invasiva de detecção por infravermelho médio;
- Level Zero Health: adesivo eletroquímico usado sobre a pele;
- Kāhu SiliconBio: chip de silício alimentado por mecanismos moleculares vivos;
- MoleSense: plataforma de aptâmeros baseada em suor;
- Biomarq Health: sensor implantável com duração de um ano;
- Oxense Bio: sistema enzimático inspirado nos monitores de glicose;
- Impli: dispositivo baseado em agulha voltado para a PMOS;
- PHOEBE: adesivo vestível fotônico desenvolvido por uma equipe que atualmente opera em modo stealth, ou seja, sem divulgar publicamente detalhes sobre sua tecnologia.
Femtechs têm uma lacuna de financiamento
Quando perguntam a Tin onde está o verdadeiro gargalo (capital, desenho de pesquisas ou estrutura regulatória) sua resposta não é simplesmente uma dessas opções. “Acho que é um problema de conscientização”, afirma. “Acho que, antes de qualquer outra coisa, é um problema cultural. No momento em que as pessoas se dedicarem a isso, elas vão conseguir fazer as coisas acontecerem.”
O mercado comercial vem se desenvolvendo, com empresas na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália correndo para desenvolver biossensores vestíveis e minimamente invasivos capazes de medir hormônios diretamente.
O mercado de monitoramento contínuo de hormônios, avaliado em US$ 325,7 milhões (R$ 1,66 bilhão) em 2025, deve chegar a US$ 716,2 milhões (R$ 3,65 bilhões) em 2035, dentro de uma oportunidade mais ampla de US$ 600 bilhões (R$ 3,05 trilhões) relacionada à saúde hormonal, que inclui dados baseados em conhecimento especializado a serem avaliados cientificamente e aprovados por um órgão regulador.
Ainda assim, o capital estrutural continua escasso justamente na etapa mais importante. “Não existe um único fundo de venture capital em estágio avançado dedicado a femtechs”, aponta Tin. “Nós temos os dados, sabemos que é possível ganhar dinheiro e economizar dinheiro.” Uma vez que exista uma prova de que essas tecnologias funcionam, argumenta ela, a matemática muda completamente: “Quando algumas dessas coisas demonstrarem que funcionam, não precisaremos de € 40 milhões; precisaremos de € 400 milhões (R$ 2,36 bilhões) para colocar isso em andamento.”
O que vem a seguir
Na visão de Tin, será necessária uma mudança de mentalidade. “Gostaria que passássemos de pensar na saúde feminina como um fardo para a sociedade para enxergá-la como uma área incrível de investimento, na qual você teria um retorno.”
Esse retorno não beneficia apenas investidores privados, mas a sociedade como um todo, por meio de custos mais baixos de fertilização in vitro, diagnósticos mais rápidos, terapias hormonais mais precisas e modelos de inteligência artificial treinados com dados que realmente refletem como os corpos das mulheres funcionam, em vez de reproduzir aquilo que a medicina presumiu que eles fossem.
O desafio da SPRIND também funciona como uma proteção contra o próximo risco identificado por Tin: a reprodução dos vieses de gênero existentes dentro da inteligência artificial.
Sem uma coleta e uma classificação intencionais de dados que contemplem os diferentes gêneros, a nova base digital de referência reproduzirá, em escala e velocidade, a antiga referência masculina.
O objetivo não é criar um único produto vencedor, mas um ecossistema funcional: dados compartilhados, plataformas em escala e um banco de dados de referência que pode, no fim das contas, ser mais importante do que qualquer biossensor individual.
*Geri Stengel é colaboradora da Forbes USA. Ela tem mais de 10 anos de experiência cobrindo empreendedorismo feminino e é presidente da Ventureneer, uma empresa de pesquisa e consultoria dedicada a apoiar empreendedores negligenciados, especialmente mulheres e pessoas negras.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com