“Fala-se muito sobre envelhecer, mas e sobre viver?” Foi o questionamento que levou Astrid Fontenelle a criar a Àvera, plataforma de conteúdo voltada a mulheres com mais de 50 anos. “Puxo a responsabilidade de falar sobre a mulher que está envelhecendo no Brasil, que terá uma das maiores populações de idosos do mundo”, diz a jornalista e apresentadora, aos 65.
O nome — Àvera — tem tudo a ver com ela: a expressão faz parte do sotaque carioca e significa “de verdade”, “com intensidade”. “Vamos explorar pautas que passam pela saúde física e mental, pela menopausa, mas também por comportamento, economia e bem-estar, porque sabemos que essa mulher está vivendo à vera, assim como eu.”
Em parceria com a MAM Brands, um dos braços da agência MAP, com a qual trabalha há mais de dez anos, Astrid estruturou o projeto em diferentes formatos: newsletter, revista digital, playlist e podcast, que já recebeu convidadas como Bruna Lombardi, Márcia Sensitiva e Heloísa Périssé. A plataforma também prevê experiências para a comunidade que começa a se formar, muitas delas presenciais. “Quero estar presente com essa mulher de alguma forma.”
No Instagram, o perfil @viver.avera reúne todas essas frentes, com trechos dos episódios, frases inspiradoras e conteúdos que vão de sugestões de cortes modernos para cabelos brancos a análises sobre a realidade das chamadas mulheres “nem, nem”: nem empregadas, nem aposentadas, nem invisíveis. Tudo com uma estética jovem, colorida e divertida, como a própria Astrid.
A mudança de rota de Astrid Fontenelle
A ideia de criar uma plataforma própria já vinha amadurecendo havia algum tempo. E Astrid também já estava debruçada sobre os desafios e as perspectivas das mulheres 45+, tanto à frente do videocast O que te trouxe aqui?, do Einstein, quanto em seu último programa no GNT, Admiráveis Conselheiras, no qual entrevistava mulheres mais velhas em busca de bons conselhos.
Quando foi desligada do canal, no fim do ano passado, decidiu que não aceitaria a demissão como uma aposentadoria imposta. “Não vislumbrava o fim da minha carreira na televisão”, diz ela, que tem como referências Hebe Camargo, que apresentou seu programa até os 83 anos, e Ana Maria Braga, à frente do Mais Você e do reality Chefe de Alto Nível, aos 77.
“Vou viver a aposentadoria que eu quiser.”
Astrid Fontenelle
Foi duro, mas Astrid decidiu abrir o jogo e não dourar a pílula. “Resolvi falar a verdade porque a minha carreira foi pautada pela verdade. E são tantas as mulheres que nessa idade são demitidas”, diz, contando a história de sua mãe, que adoeceu depois de ter sido aposentada pela empresa onde trabalhava.
CEO do próprio negócio
Em quatro décadas na televisão, Astrid fez o próprio nome. “Tenho o privilégio de ser uma comunicadora e pensadora do meu trabalho.” Ela resume a construção dessa carreira nada planejada. “Eu fui indo. E dei a sorte de estar com a idade certa no lugar e na hora certa.”
Aos 30 anos, foi a primeira apresentadora da MTV Brasil. Aos 40, estava no GNT. “Madura, cheia de questões, sem saber se queria ou não ter filhos, como muitas outras mulheres.”
Depois de mergulhar no mar da Bahia e reorganizar a cabeça e o coração, veio a primeira experiência empreendedora, aos 65. “Hoje eu sou CEO do meu próprio negócio”, diz, curtindo a nova fase. “A sensação de realização está me preenchendo.”
Sua agenda hoje inclui reuniões com parceiros e potenciais clientes para apresentar o projeto. A recepção tem sido positiva, conta. “Apresento uma possibilidade de conteúdo diverso e específico para cada plataforma.”
O potencial da economia prateada
Astrid quer mostrar que o público da Àvera representa uma oportunidade ainda pouco explorada pelas empresas. “A mulher 45+ concentra renda, consumo e tempo e segue quase invisível na comunicação das marcas.”
O Brasil envelhece, e as mulheres têm participação expressiva nessa população. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 15,6% em 2024 para 16,6% em 2025. A projeção do instituto é que, em cerca de 45 anos, essa faixa etária represente 37,8% da população brasileira, ou 75,3 milhões de pessoas.
Esse público já movimenta R$ 1,8 trilhão por ano, o equivalente a 24% do consumo privado no país, segundo estudo da consultoria Data8. Até 2044, a estimativa é que o montante chegue a R$ 3,8 trilhões, ou 35% do total.
As dores e as delícias da maturidade
Com a Àvera, Astrid não pretende romantizar o envelhecimento. A proposta é oferecer informação e referências para mulheres 50+ — e para aquelas que ainda chegarão lá, se tudo der certo. “Cola em mim que você passa de ano”, brinca.
É o que ela tem feito a vida toda. “Sempre tive amigas um pouco mais velhas. Quando veio a menopausa, já tinha visto uma amiga quase tirar a roupa enquanto dirigia com o primeiro fogacho.” Comandou o Saia Justa por mais de 10 anos, onde presenciou o climatério de Mônica Martelli ao vivo e se abriu para contar suas próprias experiências.
Mais recentemente, percebeu que sua audição não tem sido a mesma. Ainda assim, faz questão de destacar a leveza, o autoconhecimento e a confiança que vêm no combo da maturidade. “A minha maturidade só traz delícias. O segredo para envelhecer bem é não se desconectar dos saberes que a gente ainda tem a oferecer.”
Para a Àvera, os planos são muitos. “Queremos estar nas rodas de conversa, na boca das pessoas, para todos entenderem que existe um mundo possível e confortável para a mulher 50+.”
O conteúdo é pensado para alcançar mulheres com realidades distintas, das chefes de família nas periferias a altas executivas. “Não quero engajamento. Quero que a informação bata nessas mulheres.”
Astrid também quer trazer os homens para essa conversa. “Não quero mais um mundo excludente. O masculino tem que estar presente, participando, ouvindo e trocando.”