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“Uma Carreira Única para a Vida Inteira Deixou de Fazer Sentido”, Diz Fabiana Scaranzi

Depois de mudar de rota algumas vezes, a jornalista e psicóloga compartilha sua experiência e dá conselhos para uma transição bem-sucedida

5 min

Fabiana Scaranzi fez uma transição de carreira aos 48 anos, depois de quase duas décadas na televisão. Aos 54, entrou na quarta faculdade e, aos 59, formou-se em psicologia. “Você muda tanto porque não sabe o que quer?”, ouviu algumas vezes. Muito pelo contrário, garante. Sua carreira múltipla é resultado de muitos interesses, pouco medo de experimentar o novo e disposição de sobra para recomeçar. “Uma carreira única para a vida inteira deixou de fazer sentido”, afirma.

Já foi bailarina clássica, modelo internacional, publicitária e jornalista de TV. Especialista em comportamento feminino, hoje ajuda outras mulheres a se reinventarem — como ela mesma fez, e continua fazendo. Aos 61 anos, acaba de lançar o livro “Seus sonhos não têm prazo de validade”. “Ele nasceu das vezes em que fiz uma transição de carreira ou voltei a estudar e ouvi um recado disfarçado de conselho.”

Para quem acompanhava sua trajetória de fora, a decisão parecia difícil de entender. Por que alguém com aquele currículo abandonaria uma carreira bem-sucedida para começar de novo? “A pergunta que mais ouvi foi: ‘Como você quer sair de onde todo mundo quer entrar? Você não é mais novinha pra fazer isso!’”

Uma vida com muitos capítulos

A idade, para ela, nunca foi um empecilho, mas um ativo. “Nós vamos viver mais. Então, o modelo de três etapas — estudar, trabalhar e se aposentar — está deixando de fazer sentido”, afirma. “O que vai existir é uma vida com vários capítulos, e cada um se soma ao anterior.”

“Não existe idade para recomeçar e se reinventar, na vida pessoal e na profissional.”
Fabiana Scaranzi

Ter essa clareza, porém, não significa que os momentos de virada tenham sido fáceis. “As pessoas se acostumam a nos ver numa função durante muito tempo e não conseguem imaginar a gente fora dela”, diz. Para ela, porém, as maiores barreiras nem sempre vêm de fora. “A de dentro é mais silenciosa e pesada.”

Durante muito tempo, ela empurrou para debaixo do tapete a sensação de que algo já não lhe cabia. “Antes de cada virada, eu me sentia culpada só de pensar que não estava feliz onde estava.”

O poder da maturidade

Com o tempo, entendeu que precisava apenas dar o primeiro passo. “A autoconfiança não nasce antes da ação; ela vem depois. Eu esperava me sentir segura para dar o passo e aprendi que é o contrário.”

A maturidade também trouxe mais clareza sobre onde vale a pena colocar energia. “Hoje não perco mais tempo com o que não importa nem tento me encaixar nas expectativas dos outros”, diz. Ela cita os estudos da psicóloga Laura Carstensen, professora de Stanford, que mostram que, à medida que percebemos o tempo como mais limitado, passamos a priorizar o que tem significado e a deixar de lado relações e situações que já não fazem sentido.

“Foi exatamente isso que a maturidade me deu: menos dispersão, mais clareza sobre onde vale a pena colocar minha energia e coragem para ir atrás disso mesmo com o medo do lado.”

O envelhecimento, no entanto, não pesa da mesma forma para homens e mulheres. Fabiana chama a atenção para o “etarismo de gênero”, que combina o preconceito contra a idade e o gênero. “Um homem grisalho é interessante, influente, respeitável. Uma mulher madura, muitas vezes, é reduzida à aparência e rapidamente descartada do imaginário social.”

Ela mesma já ouviu recomendações para suavizar o discurso sobre o envelhecimento. “Cheguei a ouvir de um publicitário famoso: ‘Fabiana, não fale a palavra envelhecer nas suas redes, fale amadurecer.’ Fugir da palavra não muda a realidade, só adia o confronto com ela.”

Como recomeçar

No livro, Fabiana Scaranzi parte da própria trajetória para abordar temas como menopausa, maternidade e mudanças na vida e na carreira. A proposta é incentivar outras mulheres a abraçar essas viradas e construir novos caminhos.

A seguir, a autora compartilha conselhos para quem quer mudar de rota, seja na vida profissional ou pessoal.

1. Escute o corpo antes que ele grite por você

“Vivi meses empurrando para debaixo do tapete a sensação de que a rotina já não me representava mais. Até que um dia fui parar no hospital com uma úlcera aberta no estômago. Foi ali que entendi: ou você muda conscientemente, ou o corpo muda por você.”

2. Planeje antes de anunciar

“Ninguém viu minha transição chegando, mas eu já vinha me preparando havia um ano e meio, escrevendo, pesquisando, me perguntando o que eu queria construir. Mudança de vida real não é impulso, é um realinhamento silencioso que só aparece por fora quando já está maduro por dentro.”

3. Ignore quem vai perguntar: “Você está louca?”

“Quando decidi sair da TV, ouvi de tudo: que eu ia jogar fora tudo o que construí, que era um risco enorme aos 48. Naquele momento, eu queria ouvir apenas: ‘Estou com você’.”

4. Aceite o luto da mudança

“Mesmo tendo escolhido que queria mudar, existe um luto. O conselho não é fingir que não dói, mas atravessar sabendo que, do outro lado, existe uma vida mais alinhada com quem você é.”

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