O saldo do primeiro turno das eleições de 2026, realizado no último domingo (4), contou com avanços, ainda que lentos, para as mulheres na política. O pleito garantiu a maior bancada feminina da história do Congresso Nacional, mas as urnas ainda mostram resistência nos cargos majoritários: das 19 disputas estaduais já decididas, Raquel Lyra (PSD-PE) foi a única mulher eleita governadora, enquanto outras três seguem para o segundo turno.
No Legislativo federal, os números também mostram avanço. A Câmara dos Deputados terá 109 mulheres, ante 90 atualmente — um aumento de 21%, apesar da queda de 24% no número de candidaturas femininas registradas neste ano. Com isso, as deputadas passarão a ocupar 21% das 513 cadeiras.
O Senado acompanha a tendência. Os brasileiros elegeram 12 mulheres nas disputas deste ano, elevando a composição feminina da Casa para 18 senadoras (22,2% do total) a partir de fevereiro.
Apesar dos recordes, o Brasil segue no fim da fila da equidade global. Segundo o levantamento mais recente da ONU Mulheres e da UIP (União Interparlamentar), o país ocupa a 133ª posição em representação parlamentar feminina entre as 189 nações analisadas. Com um índice inferior à média mundial (27,2%) e do continente americano (35,4%), o Brasil fica atrás de nações com legislações mais conservadoras em relação às mulheres, como Arábia Saudita, Egito e Iraque.
O ritmo lento dos avanços na política é o principal obstáculo do Brasil no Índice Global de Disparidade de Gênero 2026, do Fórum Econômico Mundial. O país ocupa a 72ª posição geral entre os 145 países analisados, com a participação das mulheres na política como a maior lacuna a ser fechada.
“Ao longo dos últimos anos, tivemos esforços consistentes de apoio a candidaturas e formação política para tentar reverter esse quadro, mas o crescimento ainda é lento”, diz Marlise Matos, professora titular de ciência política da UFMG, onde também coordena há 18 anos o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.

O gargalo das mulheres na política
A raiz da sub-representação não está na falta de interesse feminino em ocupar os espaços de decisão. Atualmente, as mulheres representam 45% do eleitorado filiado a partidos políticos no país. Além disso, a legislação estabelece regras claras de incentivo, como a reserva mínima de 30% das candidaturas e a destinação proporcional do tempo de TV e do financiamento eleitoral.
O obstáculo aparece na viabilização dessas campanhas dentro das próprias siglas. “A estrutura político-partidária não oferece condições de recursos e apoio substantivo das lideranças”, explica a professora da UFMG.
A pesquisadora Hannah Maruci, doutora em ciência política pela USP e cofundadora da Tenda das Candidatas, ONG que já formou mais de mil mulheres em cursos sobre como construir campanhas eleitorais, afirma que a desproporção financeira afeta principalmente as mulheres negras. “Os partidos decidem quem vai se candidatar e qual apoio essa pessoa terá. Não é só a quantidade, mas também o momento, o formato e para quem esse dinheiro vai”, detalha.

A consequência é o afastamento de novas lideranças femininas. “As mulheres vão para as campanhas eleitorais com pouco dinheiro, são humilhadas, sofrem violência política e, quando abrem a urna, veem poucos votos e não querem fazer isso de novo”, afirma Maruci, que atua na formação e retenção dessas candidatas pós-eleições.
A barreira da violência política de gênero
Quando as candidatas conseguem ultrapassar o funil partidário, ainda encontram um ambiente institucional hostil. Os registros de violência política de gênero cresceram mais de 11 vezes nos últimos quatro anos, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), saltando de 15 processos em 2022 para 177 até setembro de 2026. Apenas entre janeiro e agosto deste ano, o Ligue 180 contabilizou 1.564 denúncias.
Para a advogada Fayda Belo, especialista em violência de gênero, esses ataques funcionam como uma tática de silenciamento. “A violência faz com que as mulheres usem o tempo que era para estar refletindo ideias para o Brasil para se defenderem. O ataque é sempre à honra, à vida íntima”, pontua.

A intimidação também afeta a integridade física das candidatas. “Elas enfrentam ameaça de morte, de estupro e violência digital. Muitas foram votar nestas eleições com carros blindados e coletes à prova de balas”, diz a professora da UFMG.
Mulheres negras na política
Sob o recorte racial, as barreiras são ainda mais presentes. O levantamento do Ligue 180 aponta que 53% das denúncias de violência política tiveram mulheres pretas e pardas como alvo. “O acúmulo do machismo com o racismo faz com que elas cheguem ainda menos nessas posições e, quando chegam, sejam violentadas em um nível que muitas até renunciam”, afirma Belo.
Ainda que as urnas de 2026 tenham registrado um aumento de 66,6% na eleição de deputadas federais negras (15 parlamentares, contra 9 em 2022), o topo do poder permanece blindado. Nenhuma mulher negra foi eleita para o Senado neste ano – uma Casa que, em toda a sua história, teve apenas quatro senadoras negras. “Sempre que a gente vai subindo, os tetos de vidro vão se revelando”, diz Maruci.
A ausência se repete em outros poderes. No Judiciário brasileiro, as nomeações femininas para as cortes superiores representaram apenas 11,1% entre 2000 e 2021, índice que perde para a média global de 26%. No STF (Supremo Tribunal Federal), apenas três mulheres foram nomeadas em 132 anos de história, sem nenhuma representante negra até hoje.
A importância de mulheres que lutam pelos direitos femininos
A presença de mais mulheres na política coloca demandas estruturais no centro do debate. “Se estamos discutindo políticas sobre transporte público e só há homens na mesa, qual a chance de alguém falar: ‘Temos que pensar sobre a possibilidade de a mulher descer fora do ponto à noite’?”, questiona Maruci. “Quanto mais corpos iguais aos nossos ocuparem esses espaços, melhor será a nossa vida em áreas como educação, saúde e segurança, porque é uma lente que entende as barreiras da nossa rotina”, destaca Belo.
Contudo, as especialistas alertam que a paridade numérica no Congresso, por si só, não garante a defesa de pautas relevantes para as mulheres. “Ser mulher não faz com que, necessariamente, todas pensem da mesma forma ou tenham os mesmos interesses e valores”, pondera Maruci, lembrando que parlamentares recém-eleitas já se manifestaram publicamente contra direitos históricos, como o próprio voto feminino.
O desafio das próximas legislaturas será transformar essa maior representação em políticas públicas inclusivas. “Defender os direitos das mulheres é transformar experiências silenciadas em demandas públicas e cobrar respostas. Esse compromisso também precisa considerar as desigualdades raciais, para que as conquistas alcancem quem enfrenta mais barreiras para ser ouvida e protegida”, conclui Belo.