No último mês, a campeã olímpica norte-americana de salto em distância Tara Davis-Woodhall sofreu uma colisão frontal de carro enquanto dirigia para um dos seus treinos. A atleta de 27 anos teve uma concussão grave, além de outras lesões, e precisou encerrar precocemente a temporada de 2026. “Eu voltarei. É apenas um pequeno contratempo no caminho”, compartilhou em uma publicação no Instagram. A frase otimista não é por acaso: a atual campeã construiu sua carreira superando provações.
Antes de vencer o ouro nos Jogos de Paris 2024, Tara travou batalhas dentro e fora das pistas: passou por um longo processo de reabilitação devido a fraturas nas vértebras, no tornozelo e no quadril e enfrentou um quadro de depressão. “Meu maior desafio foi acreditar verdadeiramente em mim mesma em meio às batalhas constantes contra as lesões, os ‘nãos’ que recebi e as pessoas que duvidavam de mim”, disse em entrevista à Forbes Brasil.

Ela foi uma das primeiras atletas a falar abertamente sobre saúde mental no esporte na internet. “Quando comecei a passar por problemas de saúde mental, ninguém falava sobre isso. Todo mundo fingia que estava bem”, lembra a saltadora. “As pessoas só postavam que estavam felizes, viajando ou prestes a tirar férias. E isso não é real. Quando a porta se fecha, elas estão lutando contra alguma coisa.”
O ouro viral de Tara Davis-Woodhall
Nesse processo de cura, Tara conta que a terapia e a equipe de apoio foram fundamentais, mas o pilar dessa resiliência foi seu marido, o velocista paralímpico Hunter Woodhall. O casal transformou o atletismo, tradicionalmente visto como um esporte individual, em um projeto de equipe. “O Hunter me fez continuar. Nós nos cobramos, cozinhamos um para o outro, pesquisamos juntos e conversamos sobre o nosso trabalho, mas também conseguimos deixar isso de lado para falar sobre a vida real.”
O casal, que se conheceu no ensino médio em 2017 durante uma competição, mantém hoje um canal conjunto no YouTube com mais de 900 mil inscritos, onde compartilha rotinas e bastidores do esporte.
A dupla protagonizou um dos momentos mais viralizados da última edição dos Jogos. Logo após vencer a medalha de ouro no salto em distância feminino em Paris, a atleta correu em direção às arquibancadas e pulou nos braços do marido. “Aquele nosso abraço foi um dos maiores momentos das nossas vidas, e da Olimpíada também.”
Pouco depois, Hunter também conquistou o ouro nos 400m T62 (além de um bronze no revezamento universal). Os dois entraram para a história como o primeiro casal olímpico-paralímpico a conquistar o ouro na mesma edição dos Jogos.
Novos saltos
Hoje, a campeã dedica parte de seu tempo a treinar uma nova geração de atletas. A principal lição que tenta passar é a do compromisso diário consigo mesma. “Mesmo naqueles dias em que você pensa que não quer treinar hoje, a única forma de alcançar aquele grande objetivo que você anotou no quadro é indo para a pista.” Ela também faz questão de trazer leveza à rotina. “Atletas hoje são tão focados na performance que se esquecem de aproveitar o momento.”

Outro legado que Tara busca deixar é o da positividade corporal (body positive, em inglês), movimento que prega a aceitação de todos os corpos. “Sinto que as pessoas acham que não dá para ser muito musculosa e muito atraente ao mesmo tempo”, diz. “Se o seu corpo está em forma, isso significa que você pode fazer qualquer coisa com ele: correr, saltar, fugir dos homens ou de um urso”, brinca.
A postura e o sucesso da atleta nas pistas e nas redes sociais atraíram os olhares de grandes marcas e a catapultaram para novos caminhos nos negócios. Neste ano, ela assumiu como uma das embaixadoras da nova fragrância da grife BOSS. “Sempre quis trazer visibilidade para o atletismo e mudar a forma como o salto em distância é visto. Com a BOSS, assumi as rédeas disso e tento incorporar toda essa confiança no meu mundo.”
Apesar do acidente recente e da pausa forçada em sua agenda de 2026, Tara já tem suas metas delineadas para o retorno. Além da expansão no mundo dos negócios, ela mantém no radar seu grande objetivo esportivo: quebrar o recorde americano feminino do salto em distância.
Enquanto pavimenta sua volta, aplica a própria lição sobre curtir a jornada. “O atletismo é um esporte muito antigo e tradicional, então há muito ego envolvido. Quero deixar isso de lado e lembrar que estar aqui é uma bênção.”